Autarca do Porto lamenta "imagens", mas defende atuação da PSP sobre manifestantes: "Parece-me claro que se viu forçada a fazê-lo"
"Acho que não há nenhum português que se reveja naquelas imagens ou que goste daquelas imagens". O presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, lamentou esta quinta-feira (15) a intervenção policial desta madrugada contra os manifestantes pela habitação, na Praça D. João I, mas defendeu que a PSP "se viu forçada" a avançar com a operação.
Em conferência de imprensa nos Paços do Concelho, o autarca portuense disse confiar nas autoridades policiais e considerou que houve um incumprimento da lei por parte dos manifestantes, sem especificar as razões. "Parece-me absolutamente claro que a polícia se viu forçada a fazê-lo", reiterou, ressalvando que não lhe compete avaliar a forma como a PSP desenvolve as suas operações.
"Havia alguém ali naquela manifestação que estava a zelar pelo cumprimento da lei; e havia quem estivesse, de forma declarada, ostensiva, a incumprir a lei, a cometer ilegalidades", apontou o presidente da Câmara do Porto, acrescentando que "houve uma atitude absolutamente provocatória", por parte de alguns manifestantes. "Percebemos rapidamente que há um pequeno grupo que manifestamente tentou ser provocatório, tentou criar uma confusão."
Questionado sobre uma eventual relação entre a intervenção policial e as suas declarações proferidas horas antes, na tarde de quarta-feira - quando o autarca prometeu ser “implacável” com a colocação de tendas na Praça D. João I, garantindo que não iria permitir que a praça se transformasse num “parque de campismo” -, Pedro Duarte rejeitou qualquer ligação: “Aquilo que foi a decisão operacional da PSP foi com esse pressuposto [de cumprir a ordem pública], não tem a ver com afirmações, nem com qualquer tipo de convicção política à volta do tema”.
Pedro Duarte começou por reconhecer a legitimidade das reivindicações dos manifestantes, relacionadas com a crise da habitação, mas defendeu que o direito à manifestação "deve ser exercido dentro dos limites legais". “O Porto orgulha-se de ser a cidade da liberdade”, declarou, considerando “absolutamente inegociável” o direito à manifestação, à livre expressão e ao protesto.
“A crise da habitação é uma realidade em todo o país, eu diria até na Europa”, afirmou, admitindo que os preços praticados no Porto tornam particularmente difícil encontrar habitação, mas realçando também que o Porto “é de forma absolutamente inequívoca, de longe, o município do país que mais respostas públicas tem para a crise da habitação”. “Contudo, isso não significa que não haja um trabalho a fazer. Nós temos vindo a fazer esse trabalho, quer no que diz respeito à habitação social, onde hoje em dia já há 13% da população do Porto a residir, quer quanto à habitação acessível, mais direcionada para a classe média da nossa cidade”, acrescentou.
Sobre a possibilidade de o protesto continuar, como já foi assumido pelos organizadores da Acampada do Porto, o presidente da Câmara garantiu que a autarquia não irá intervir se a manifestação decorrer dentro do quadro legal. "Para defender a democracia, nós temos a responsabilidade e a obrigação de defender a lei", disse Pedro Duarte.
A intervenção policial desta madrugada ocorreu depois de vários dias de protesto na Praça D. João I, onde os participantes da Acampada do Porto reivindicam respostas para a crise da habitação, numa iniciativa que surgiu também na sequência dos protestos organizados em Espanha, sobretudo em Madrid.
O movimento denunciou que a carga policial provocou dezenas de feridos, incluindo dois em estado grave. A PSP, por seu lado, referiu em comunicado que os manifestantes não acataram os pedidos para retirar as tendas e que alguns ofereceram resistência à atuação policial, o que é contrariado pelos elementos do movimento de protesto.

