Manifestantes contestam PSP e denunciam violência policial no protesto pela habitação no Porto. "Eles foram mesmo implacáveis"
PEDRO GRANADEIRO/LUSA

Manifestantes contestam PSP e denunciam violência policial no protesto pela habitação no Porto. "Eles foram mesmo implacáveis"

"Nunca pensei ver polícias a olhar para nós daquela maneira. Estas pessoas queriam mesmo bater em pessoas", relata ao DN uma das representantes da Acampada do Porto. Advogado Tiago Machado classifica a intervenção policial como "perfeitamente desproporcional" e contesta a versão da PSP sobre a alegada resistência dos manifestantes.
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Sónia Quinche, porta-voz da Acampada no Porto, promete que os protestos do movimento vão voltar esta quinta-feira, 15 de outubro, às 19h00 na mesma praça D. João I onde uma carga da polícia terminou com 37 manifestantes feridos, de acordo com o próprio movimento.

À conversa com o Diário de Notícias, Sónia contou com a voz rouca que a polícia carregou por volta das 3 da manhã, quando a comunicação social se foi embora. “Eu estava a dormir. Quando saí a correr, eles chegaram. Nós fizemos resistência passiva, tentámos só proteger as nossas tendas”, disse.

Ao mesmo tempo que havia manifestantes a “proteger as tendas”, lembrou, havia “colegas que estavam a desmontá-las”, para evitar que as estas fossem desmontadas e levadas pela polícia como tinha ocorrido no protesto de segunda-feira.

“Nós estamos só a exercer o nosso direito à manifestação, o nosso direito à resistência pacífica”, afirmou a representante do movimento. “Acatámos as ordens [da polícia], eles vinham prontos para bater em nós”, acrescentou, lembrando as palavras de quarta-feira do presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, que prometeu que iria ser “implacável” com as tendas naquela praça, junto ao Mercado do Bolhão.

“Acho que eles foram mesmo implacáveis. O [Pedro] Duarte disse ontem na comunicação social e foram mesmo implacáveis com estudantes, trabalhadores, cidadãos que só estavam a manifestar-se pacificamente”, acrescentou. Já esta quinta-feira, o autarca lamentou "imagens", mas defendeu atuação da PSP sobre manifestantes.

Emocionada, a representante da Acampada disse ter sentido na pele as agressões da polícia, mas que não é uma das 35 pessoas feridas de que fala o movimento. “A mim bateram-me quando estava no chão mas não tenho feridas abertas ou graves”, relatou, dizendo que houve outros que não tiveram a mesma sorte.

“Há pelo menos duas companheiras a quem lhes bateram e partiram a cabeça. Há uma companheira com ferida aberta nas costas”, acrescentou, contando que esperam  ainda notícias de outros feridos que ainda não conseguiram contactar. Segundo a própria, a polícia terá também agredido e atirado ao chão uma pessoa portadora de deficiência. “Ela contou-me que tentaram tirar-lhe a canadiana. E quando outra pessoa foi ajudá-la, bateram-lhe”, disse.

“Foi horrível. Eu nunca pensei ver polícias a olhar para nós daquela maneira. Estas pessoas queriam mesmo bater em pessoas”, afirmou ainda Sónia Quinche, contando que “vinham com capacete e com escudos, a enfrentar pessoas pacíficas, não violentas”.

“Acho que a totalidade da sociedade portuguesa deveria perguntar-se porque é que o Estado está a mandar as forças de segurança desta maneira contra o povo que só está a manifestar-se pacificamente”, sublinhou, denunciando um “abuso totalmente antidemocrático, anticonstitucional”.

Contrariando a Câmara Municipal do Porto, que fala numa violação da lei, a representante insiste que a autarquia recebeu a comunicação de que se iriam manifestar até ao dia 20 de outubro naquela praça portuense.

“Nós não temos de pedir autorização, comunicámos o que estamos a fazer”, insistiu. “Porque isto é um direito básico que a revolução dos cravos nos trouxe. Acho que temos de lutar mesmo por isso”, continuou.

Advogado fiz que intervenção foi “perfeitamente desproporcional”

Também o advogado do movimento Acampada do Porto pela Habitação, Tiago Machado, contestou esta quinta-feira (15 outubro) a versão apresentada pela PSP sobre a intervenção policial que, durante a madrugada, pôs fim ao protesto pela habitação na Praça D. João I. O jurista garantiu que os manifestantes estavam tranquilos e que a única exigência que lhe tinha sido transmitida pelas autoridades era a cessação do ruído. A ação policial terá provocado 35 feridos, dois dos quais em estado mais grave, segundo os números avançados pelo advogado.

“Em 49 anos de existência, eu nunca assisti a uma coisa destas”, afirmou Tiago Machado, em declarações reproduzidas pelas televisões, descrevendo a intervenção como “perfeitamente desproporcional” e adiantando que haverá uma "reação judicial" por parte do movimento à ação da PSP.

De acordo com o jurista, por volta da uma da manhã a comandante presente no local garantiu-lhe que “a única preocupação das autoridades era o barulho provocado por uma coluna de som dos participantes”. Tiago Machado diz ter transmitido essa indicação aos manifestantes, que, segundo ele, “retiraram a coluna de som e cessaram a música”. Quando saiu da praça, assegura, “o ambiente era calmo”.

“Estavam todos aqui, sentadinhos, a falar e a cantar”, relatou. “Cerca das três da manhã, recebi um telefonema a informar que a polícia tinha chegado”. Regressado à praça, deparou-se, segundo descreveu, com um uso desproporcional de força por parte da PSP: “Quando chego aqui vejo um cenário inacreditável. Um uso de força perfeitamente desproporcional com miúdos que não estavam a insultar, não estavam a resistir, só queriam estar aqui, conforme lhes tinha sido assegurado, durante a noite a descansar.”

(VÍDEO: Instagram Acampada do Porto pela Habitação)

O advogado rejeita também a informação divulgada pela PSP de que a Polícia Municipal teria pedido repetidamente, ao longo do dia, a retirada das tendas. “Não é verdade. As tendas foram colocadas às oito da noite. Foi uma medida tomada por eles [os manifestantes] em assembleia popular e com o objetivo único de marcar uma posição face ao tema que motiva este protesto [habitação]”, afirmou.  “Nunca ninguém falou em retirar tendas”, insistiu.

Sobre o início dos confrontos, o advogado reconheceu que não assistiu ao momento em que começaram, uma vez que chegou quando a carga policial já decorria, mas disse ter recebido relatos de que “um funcionário da Câmara Municipal terá ameaçado os manifestantes com um objeto de ferro ou madeira”.

A PSP, por seu lado, alegou que os manifestantes desobedeceram às ordens para retirar as tendas e que alguns ofereceram resistência à intervenção policial. A polícia confirmou também a existência de feridos entre os participantes, sem avançar um número definitivo.

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