Professora, posso água? Posso bolachas? Frases como esta, sem verbos principais, fazem parte da linguística das crianças, desde as mais pequenas às que já estão em idade escolar. Alfredo Leite, licenciado em Psicologia (Ramo Educacional) acredita que “a falta destes verbos não acontece por acaso”. “A linguagem não é apenas um conjunto de palavras, é uma ferramenta de pensamento. Se uma criança usa menos palavras para se expressar, pode ser porque não está habituada a estruturar as suas ideias de forma autónoma. Se ninguém lhe devolve a pergunta, se ninguém a incentiva a completar a frase, ela adapta-se a esse modelo mais curto e funcional”, explica.Essa supressão dos verbos principais das frases poderá ter consequências a vários níveis, pois “as palavras constroem a autonomia ou aprisionam-na”. “Se uma criança não aprende a estruturar frases completas, poderá ter dificuldades em estruturar pensamentos completos no futuro. E isso afeta não só a linguagem, mas também a sua autoconfiança e capacidade de resolver problemas”, alerta o especialista. Mas, afinal, o que leva hoje as crianças a ‘comer os verbos”? Alfredo Leite responde à questão com a importância que a linguagem tem na forma como as crianças percecionam o que o mundo que as rodeia. “O que as crianças dizem e o que não dizem reflete muito sobre como estão a construir a sua autonomia e visão do mundo. Quando uma criança simplifica a linguagem - por exemplo, ao dizer “Mãe, posso, pão?” em vez de “Mãe, posso comer pão?” - não é só uma questão linguística. É uma janela para como ela percebe a comunicação e o seu próprio papel no diálogo”, adianta.Uso excessivo de tecnologia não é a única causa Alfredo Leite não tem dúvidas de que a tecnologia tem impacto na linguagem que as crianças utilizam, embora este não seja o único motivo para as falhas na comunicação completa. Segundo o especialista, a redução da “interação real” fez diminuir o “treino linguístico”, isto porque “se a criança passa mais tempo em frente a um ecrã do que em conversas presenciais está a perder oportunidades de praticar a comunicação completa”. Os vídeos curtos visionados pelos mais pequenos também têm impacto na forma como falam. “Muitos conteúdos digitais, como os vídeos curtos, apresentam frases simplificadas, diretas e sem muita construção lógica. Se a criança só absorve esse tipo de comunicação, tende a replicá-la no dia a dia”, explica. O psicólogo sublinha que a linguagem “não se desenvolve sozinha” e as crianças replicam o que consomem. “Se a criança não está a ouvir estruturas complexas e ricas, dificilmente as reproduzirá”, garante. Ainda sobre os vídeos curtos, um dos conteúdos preferenciais dos mais novos, o especialista salienta o impacto que têm “no tempo de atenção e na paciência para ouvir e construir raciocínios completos”. “Quando uma criança está habituada a estímulos rápidos, começa a ficar impaciente com a comunicação real, que é naturalmente mais lenta e reflexiva. O problema não é apenas a falta de palavras - é a falta de tempo para processar e formular ideias”, esclarece. Esses vídeos, acrescenta, “onde tudo acontece em segundos”, torna as crianças “menos tolerantes à espera, ao diálogo e à construção da conversa”.Contudo, Alfredo Leite acredita não ser a tecnologia em si o problema, mas sim a forma como é usada. Este deve, por isso, “ser complementada com rotinas que estimulem a comunicação ativa”.Alberto Veronesi, professor de 1º ciclo e diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, Lisboa, também aponta várias causas para os problemas de linguagem das crianças. “Fatores provavelmente interligados. Atualmente, vivemos num mundo acelerado. A comunicação é geralmente rápida e eficiente e, assim sendo, as crianças sentem que as frases completas são desnecessárias para se fazerem entender. Sobretudo porque os pais, que já conhecem os seus padrões de comunicação, não os corrigem”, explica.A forma como muitos pais e outras pessoas que lidam com a criança comunicam, refere, “pode influenciar a linguagem utilizada”. “Atualmente, há cada vez menos conversas em casa. As famílias passam muito tempo agarradas ao telemóvel. Nesse sentido, a criança fica exposta a uma linguagem com pouca variedade e estímulo, e isso faz com que tenha maior dificuldade em desenvolver o seu vocabulário e construir frases complexas”, sustenta. No entanto, o diretor escolar alerta a necessidade de avaliar a omissão de verbos, pois pode “indicar atrasos no desenvolvimento da linguagem”. “Numa situação de dúvida, é importante ir monitorizando e perceber se persiste e procurar a avaliação de um profissional”, aconselha.Pais e educadores desempenham papel crucial Alberto Veronesi também aponta o dedo à tecnologia, até porque “há estudos que comprovam isso mesmo, pelo que hoje é inegável a influência que esta tem”. “O tempo excessivo que miúdos e graúdos passam em frente a ecrãs e a diminuição da interação pessoal, seja com familiares seja entre eles, prejudica o desenvolvimento da linguagem”, afirma. O docente mostra-se preocupado com a perda de capacidade de concentração dos alunos de 1º ciclo. “Os vídeos rápidos acabam por afetar a capacidade de atenção e a compreensão de frases complexas. Aliás o que se verifica é que perante um vídeo maior, as crianças, com um toque, saltam para outro”, adianta. O diretor escolar acredita que as crianças “acabam por ter dificuldade em acompanhar narrativas mais longas e consequentemente em elaborar as suas próprias frases”. “Esta posição piora ainda mais quando esses conteúdos são em português do Brasil. Mesmo que este facto possa não causar dificuldades no desenvolvimento da linguagem tem impacto na forma como estas a usam”, conclui.O docente de 1º ciclo destaca que o papel dos pais e educadores no desenvolvimento da linguagem infantil, “numa sociedade em que tudo é fast, não é uma tarefa simples”. Mas o caminho, conta, “passa por incentivar conversas, jogos e brincadeiras que estimulem a comunicação”. “Definir limites no uso da tecnologia. Incentivar a leitura e a audição de histórias, pedir para resumir, recontar, corrigir sempre que se esquecem do verbo, mas de uma forma pedagógica, fazendo perceber que a falta do verbo invalida que quem ouve perceba o que ele quer, e usar frases completas e adequadas à idade”, aponta.Questionado pelo DN sobre o feedback dos pais e as suas preocupações nestas questões, Alberto Veronesi entende que “deveria ser natural que os pais se preocupassem com o desenvolvimento da linguagem dos seus filhos”, mas “não é uma preocupação que se sinta”. “Se assim fosse sentir-se-ia a pressão sobre as escolas em, por exemplo, proibir o uso dos telemóveis e isso não é linear nem tão pouco unânime”, conclui.Conteúdos em português do Brasil têm impacto na estrutura e ritmo da falaAs nossas crianças consomem muitos conteúdos falados em português do Brasil e Alfredo Leite garante que isso tem impacto na estrutura e ritmo de fala. “Se a criança ouve diariamente expressões e estruturas típicas do português do Brasil, ela vai incorporar esse modelo, tal como faria se estivesse a viver num país onde essa é a norma”, explica. Segundo o especialista, “o português do Brasil tem uma cadência diferente, um uso distinto dos tempos verbais e uma maior flexibilidade na estrutura das frases”. “Isso pode causar dificuldades na adaptação ao português europeu escrito e falado em contexto escolar”, alerta. Não se trata, diz, de “um debate sobre certo ou errado”, pois “não é uma questão cultural, é uma questão de exposição linguística”.Já Alberto Veronesi acredita que essa exposição ao português do Brasil “não causa necessariamente dificuldades no desenvolvimento da linguagem”, embora possa influenciar o vocabulário e as expressões utilizadas pelas crianças”. “Tive um aluno que parecia ser brasileiro. Descobri que não era depois de conhecer os pais”, recorda. O docente considera essencial “garantir que a criança tenha contacto com o português europeu”.Estratégias para corrigir a supressão de verbosAo DN, Alfredo Leite indica algumas estratégias que pais e educadores podem implementar para ajudar os mais pequenos a fazer uso dos verbos principais nas frases. Uma das formas é “transformar pedidos curtos em diálogo”. “Quando a criança diz “Mãe, posso pão?”, em vez de simplesmente responder, desafie-a a completar a frase: “Podes o quê? Como é que pedimos isso?”. Os pais devem ainda “elogiar a tentativa de comunicação, não apenas a correção”. “Se a criança erra ao falar, o importante não é corrigir de forma crítica, mas sim incentivá-la a tentar de novo. Costumamos usar um Diário das Microvitórias, uma ferramenta prática para fortalecer a comunicação sem inibições”, explica. Em casa, acrescenta, devem ser criados “momentos de conversa sem distrações”, porque, explica o especialista, “se os adultos não têm tempo para conversar sem pressa, a criança não aprende a construir frases longas”. “A rotina de comunicação importa tanto quanto o que se diz”, sublinha. Pais e educadores podem também “usar perguntas abertas que exigem respostas completas” - em vez de “Correu tudo bem na escola?”, perguntar “Qual a coisa mais interessante que aconteceu hoje?”. “Desafiar a criança a pensar antes de responder” também ajuda a resolver o problema. “Em vez de dar respostas imediatas, devolver a pergunta: ‘E o que achas que devemos fazer?’ Os adultos não precisam de corrigir tudo o tempo todo. Precisam de criar ambientes de diálogo onde a criança sinta que vale a pena expressar-se com clareza e confiança”, conclui.A experiência de uma mãe com filhos no 1.º cicloSílvia Alves, mãe de duas crianças a frequentar o 1º ciclo, não observou a “economia de palavras” antes do final do pré-escolar. “Os meus filhos começaram a comer os verbos desde que a mais velha entrou para a escola primária”, explica. A mudança, acredita, ficou a dever-se à influência dos amigos e ao comportamento de imitação “característico destas idades”. Para Sílvia Alves, a tecnologia não tem grande peso porque os filhos “ainda não estão expostos às redes sociais”. “Não possuem telemóvel, só computador, que consultam com supervisão”, afirma. Quando questiona as crianças sobre o que as leva a “comer palavras”, a resposta é simples: “porque é mais rápido assim”. Nas conversas em casa com os filhos, vai adotando comportamentos de correção. “Quando os meus filhos dizem ‘mãe, posso pão?’, pergunto afinal o que é que quer fazer com o pão, se a pergunta era se pode comer, fazer, vender, comprar, amassar o pão? Tento que entendam que é importante utilizar a frase completa para que se perceba bem”, refere. Menos preocupante no caso desta família de Braga é o consumo de conteúdos do Brasil. “Não me preocupa muito, pois atualmente ambos têm muitos colegas de turma brasileiros, mas sempre que adotam expressões ‘brasileiras’ apresento a alternativa ‘portuguesa’, frisando que ambas estão corretas, mas que preferimos que utilize a gramática e as expressões portuguesas”, conclui.