As crianças portuguesas passam, em média, 38 horas por semana na escola, segundo dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos divulgados recentemente, e que relançam a discussão sobre o impacte que esta realidade tem nas crianças e no seu desenvolvimento.Na visão de Alberto Veronesi, diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, em Lisboa, a explicação para estes números está relacionada com a evolução do papel da escola na sociedade portuguesa. “A escola deixou de ser, na sua essência, um espaço de elevação pelo conhecimento para se tornar um simples lugar de apoio à família. O Estado, incapaz de criar políticas públicas que permitam aos pais gerir o tempo com os filhos, delega na escola a função de guardadora de crianças”, sublinha. Para o responsável, a elevada permanência em espaços escolares “não se trata de pedagogia, mas de conveniência social”. “O calendário é esticado até ao absurdo, com o encerramento em pleno final de junho para os alunos dos 3 aos 10 anos, que inclui o pré-escolar e o primeiro ciclo, não é por necessidade de aprendizagem, mas, sim, para colmatar a ausência de uma verdadeira política de conciliação familiar e laboral”, explica. As consequências, afirma, “são nefastas”, pois “não há crianças felizes num sistema que os sobrecarrega e aos professores”. E há outras repercussões, como na indisciplina. Alberto Veronesi não tem dúvidas: “Muito tempo na escola agrava as situações de indisciplina e os alunos inseridos neste caos, esgotados e cansados de tantas horas no mesmo espaço, perdem o sentido de respeito social pela instituição que deveria ser o seu porto seguro”. Questionado pelo DN sobre a produtividade dessas horas passadas na escola, nomeadamente nos resultados de testes internacionais como os PISA, o diretor escolar explica que mais horas não se refletem em melhor aproveitamento escolar, pelo contrário. “Não estamos a falar de tempo letivo, de tempo de aulas de qualidade, de trabalho intelectual rigoroso. Estamos a falar de tempo de ocupação, de custódia, de ‘estacionamento’ de crianças para que o país económico possa funcionar. Logo não tem influência nenhuma nos resultados, talvez até possa piorar devido à exaustão relativamente à escola”, sublinha.Já a Missão Escola Pública (MEP), movimento apartidário de professores representado por Cristina Mota, considera que os dados do estudo devem ser analisados com cautela. A MEP sublinha que o estudo não mede a carga letiva nem o número de horas de aulas, mas o tempo passado em contextos formais de educação, incluindo prolongamentos de horário e outras respostas de apoio às famílias. “O que os dados mostram não é que as crianças portuguesas tenham aulas a mais. Mostram que as famílias portuguesas têm cada vez menos tempo para os seus filhos”, afirma Cristina Mota, porta-voz do movimento. Segundo a docente, a escola tem vindo a assumir responsabilidades que ultrapassam a sua missão tradicional. Os horários laborais extensos, os tempos de deslocação e as dificuldades de conciliação entre vida profissional e familiar ajudam a explicar a permanência prolongada das crianças em contexto escolar. “Os dados não demonstram que as crianças portuguesas passam demasiado tempo a aprender. Demonstram, isso sim, que a escola se tornou uma das principais respostas encontradas pela sociedade para compensar a falta de tempo disponível das famílias”, defende. Cristina Mota entende que o principal risco das horas excessivas que as crianças ficam em ambiente escolar “não resulta do tempo passado na escola em si, mas da redução do tempo disponível para a vida familiar, para o brincar livre, para o descanso e para as relações sociais fora de contextos organizados por adultos”. “As crianças precisam de aprender, mas também precisam de tempo para ser crianças. Quando a maior parte do dia é passada em contextos institucionalizados, existe o risco de diminuir o tempo disponível para experiências fundamentais ao seu desenvolvimento emocional e social”, conclui.Alfredo Leite, licenciado em psicologia, professor universitário, especialista em Psicologia Organizacional e da Educação e mentor do Projeto Mundo Brilhante, lamenta que o debate público tende a centrar-se na escola, ignorando as causas estruturais do problema. O especialista acredita que “a escola deixou de ser, na sua essência, um espaço de elevação pelo conhecimento para se tornar um simples lugar de apoio à família”. “O Estado, incapaz de criar políticas públicas que permitam aos pais gerir o tempo com os filhos, delega na escola a função de 'guardadora' de crianças”, afirma. Para o especialista, “esta transformação não resulta de uma evolução pedagógica, mas de uma necessidade social”. As consequências para a saúde mental dos mais novos, indica, são muitas e preocupantes “porque a sociedade adulta está organizada de uma forma que não respeita a infância”.Na sua perspetiva, uma escola centrada no desenvolvimento da criança deve garantir diversidade de experiências, autonomia e contacto com diferentes formas de aprendizagem, distinguindo claramente entre ocupação e educação. “A criança não precisa apenas de estar guardada. Precisa de estar viva, precisa de correr, cair, negociar regras com outras crianças, aborrecer-se, inventar jogos, falar com adultos tranquilos, explorar, criar, descansar e sentir que o seu dia não é uma sucessão de blocos organizados por adultos cansados”, salienta.Para o especialista, os dados esta semana divulgados, são um aviso. “Portugal tem poucas crianças, e as poucas crianças que tem passam demasiado tempo dentro de instituições. Crianças com escola a mais não ficam automaticamente mais preparadas. Às vezes ficam apenas mais cansadas”, afirma. E antes do 1.º ciclo, defende, “a criança não precisa de mais escola, precisa de mais desenvolvimento”. E o brincar, conta, “é uma condição central para o desenvolvimento social, emocional, cognitivo e da autorregulação, e alerta para a pressão crescente para substituir experiências lúdicas por componentes mais didáticas”. Para os alunos do 1.º ciclo, o cenário é “de gravidade extrema”.Segundo um estudo da União Europeia, os alunos de 1.º ciclo, em Portugal, trabalham mais do que um adulto. Cumprem cerca de 834 horas anuais em aulas, superando a média da OCDE (800 horas) e de vários Estados-Membros da UE. Esta realidade, para este ciclo de ensino, é ainda mais “pesada”. Alberto Veronesi afirma mesmo que, para “estes pequenos trabalhadores europeus, o cenário é de gravidade extrema”. “Sujeitos a horários extensos e a um calendário que não lhes permite o necessário descanso, estes alunos pagam a fatura da incapacidade do sistema em separar a gestão de tempos familiares da missão pedagógica da escola”, explica. Para o diretor escolar é um “absurdo” que ninguém tenha coragem de confrontar esta diferença no calendário escolar face aos outros ciclos (o 1.º ciclo termina o ano duas semanas mais tarde que os restantes anos não sujeitos a exame), que “sacrifica o tempo de infância e juventude no altar de uma ocupação que, a longo prazo, apenas promove o afastamento do verdadeiro prazer de aprender”. Alfredo Leite partilha a mesma opinião e alerta para a necessidade de “proteger o brincar”. “Depois do 1.º ciclo, proteger a infância é proteger o equilíbrio entre esforço e recuperação. Em ambos os casos, a pergunta que devia orientar qualquer decisão política, pedagógica ou familiar é simples: este tempo está a desenvolver a criança ou está apenas a ocupá-la?”, questiona. Acrescenta ainda existir uma diferença enorme entre uma criança que passa muitas horas num lugar que a faz crescer e uma criança que passa muitas horas num lugar onde apenas "aprende a aguentar". “A primeira está a ser educada. A segunda está a ser treinada para sobreviver a um mundo mal organizado”, conclui. .Fusão do 1.º e 2.º ciclos: entrada em vigor em 2027 é “impossível”.Falta de professores provoca “desequilíbrio” na preparação de alunos para os exames