Entre os motivos que condicionam as escolhas dos alunos no acesso ao ensino superior, a distância surge como um dos mais penalizadores e os alunos com menos recursos são, por isso, os mais penalizados. Estas são algumas das conclusões do estudo “Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior”, do Centro de Reflexão da Fundação Belmiro de Azevedo, Edulog. A investigação analisa as desigualdades regionais e a mobilidade dos estudantes no acesso ao ensino superior ao longo da última década, baseada em dados administrativos de cerca de 724 mil diplomados do ensino secundário residentes em todos os municípios de Portugal Continental, no período de 2013 a 2023. O estudo aponta as dificuldades como “persistentes” ao longo dos anos.Em declarações ao DN, Rui Tomás, secretário-geral do Piaget, entende que a falta de evolução na resolução do panorama que penaliza alunos de regiões do Interior do país existe porque as desigualdades regionais continuam a marcar o acesso ao Ensino Superior “não são apenas educativas: são territoriais, económicas e demográficas”. Nesta conta é preciso englobar todos os gastos não só a propina. “Quando um estudante vive longe de um grande centro, o custo real de estudar não é só a propina; é o alojamento, o transporte, a distância à família, a necessidade de conciliar trabalho com estudo e, muitas vezes, a ausência de redes de apoio. E há ainda um fator menos visível, mas determinante: a expetativa. Em alguns territórios, o ensino superior continua a ser visto como algo distante, ‘para os outros’, e isso condiciona escolhas muito cedo”, explica. Para o responsável, “o país tornou-se mais assimétrico ao longo do tempo” e “a concentração de emprego qualificado, serviços e oportunidades em determinadas áreas cria um ciclo difícil de quebrar”. “Quem pode sai, quem fica tem menos condições e o território perde massa crítica. Por isso, quando falamos de acesso, temos de olhar para o percurso completo do estudante, não apenas para o momento da candidatura”, sustenta.Rui Tomás acredita que as instituições de ensino superior localizadas fora dos grandes centros urbanos têm um papel fundamental. “Instituições como o Piaget podem reduzir desigualdades com modelos pedagógicos mais centrados no estudante, com metodologias ativas e com uma relação próxima e exigente entre docentes e estudantes, que identifique dificuldades cedo e evite que o abandono seja a “solução silenciosa” para quem tem menos recursos”, sublinha. O responsável defende o papel que as universidades e politécnicos podem desempenhar “na ligação ao tecido económico e social, integrando estágios, projetos aplicados e experiências reais que facilitem uma transição mais sólida para o trabalho”.Concentração de estudantes na faixa litoralSegundo a investigação do Centro de reflexão da Fundação Belmiro de Azevedo, verifica-se uma forte concentração de estudantes na faixa litoral do país, em particular entre a Península de Setúbal e Viana do Castelo. Os municípios de Lisboa (7,9%), Porto (4,8%), Sintra (2,8%), Braga (2,8%) e Cascais (2,3%) concentram, no seu conjunto, cerca de um quinto dos diplomados do ensino secundário. No interior, sobressaem sobretudo as capitais de distrito - Beja, Évora, Castelo Branco e Guarda - que, “apesar de apresentarem números mais modestos, funcionam como polos locais de formação secundária”. Dos 278 municípios em Portugal continental, 19 não registaram qualquer diplomado do ensino secundário no período em análise. Trata-se de municípios sem oferta de escolas secundárias públicas ou privadas, “o que limita de forma estrutural as oportunidades de prosseguimento de estudos dos jovens residentes”. A concentração mais baixa de diplomados nas regiões do Alentejo e do Algarve está, refere o documento, “possivelmente associada ao envelhecimento da população e à consequente menor procura por cursos de ensino secundário nestas áreas”.O estudo também confirma a persistência de desigualdades territoriais ao longo da última década. Os diplomados das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são particularmente sensíveis à distância, “uma vez que beneficiam de uma rede ampla de instituições próximas, que tornam menos atrativos os destinos mais distantes”. Pelo contrário, os estudantes do interior revelam menor sensibilidade, dado que a frequência do ensino superior implica quase sempre deslocação ou mudança de residência, independentemente da distância.Como reduzir o impacto das condições socioeconómicas e demográficas no percurso dos estudantesOs investigadores propõem mudanças para mitigar as desigualdades no acesso ao Ensino Superior. É necessária, por exemplo, a implementação de apoios diferenciados para a mobilidade e “é crucial reduzir os custos adicionais associados a transporte e alojamento, mitigando desigualdades territoriais no acesso”. Devem ainda ser criadas ou reforçadas bolsas específicas de deslocação e residência para estudantes do interior, bem como outros apoios de transporte e alojamento, “sobretudo para os estudantes provenientes de regiões periféricas”. Mas os apoios, por si só, não são suficientes para reduzir as desigualdades. Para os responsáveis pelo estudo, deve haver um reforço do ensino superior no interior em áreas estratégicas. “As instituições localizadas no interior enfrentam dificuldades acrescidas em captar massa crítica, mas podem ganhar atratividade se reforçarem a sua ligação ao tecido económico regional. A especialização em áreas estratégicas pode aumentar a procura e contribuir para o desenvolvimento local”, pode ler-se no estudo. Rui Tomás também defende “o apoio direto e previsível ao estudante, com políticas robustas de ação social, alojamento acessível e transportes compatíveis com a vida académica”. “Sem isso, continuaremos a pedir a muitos jovens que escolham entre estudar e sobreviver, e essa não é uma escolha aceitável num país que quer qualificação”, afirma. É ainda essencial, diz, antecipar o risco, com “mecanismos nacionais de acompanhamento do percurso, que identifiquem precocemente sinais de fragilidade académica e social, e que articulem instituições, serviços e comunidades”. A solução deverá também passar por “uma estratégia territorial coerente, que trate a coesão como política de qualificação”. “Isso passa por reforçar a oferta onde ela faz falta, por criar incentivos à fixação de talento e por ligar formação a desenvolvimento local. Um território que perde jovens perde futuro; e o ensino superior pode e deve ser parte da solução”, conclui..Instituições de Ensino Superior podem aumentar em 5% vagas dos cursos.Reitor afirma que Universidade de Coimbra teria o mesmo posicionamento de Harvard