O governo e os parceiros do setor da Educação estão a negociar o novo modelo de acesso ao Ensino Superior, para ser posto em prática gradualmente a partir do próximo ano letivo e que deverá incluir três exames nacionais, um deles a Português. Da lista de mudanças mais significativas em cima da mesa faz parte o fim dos exames obrigatórios para conclusão do Ensino Secundário e um maior peso das provas no acesso à universidade. Assim, os exames para quem quer prosseguir estudos deverão ter um peso de, pelo menos, 50% na nota de acesso..Mudanças que não agradam a todos e que estão no centro do debate da comunidade educativa. Nuno Crato, ex-ministro da Educação, é uma das vozes críticas, principalmente no que se refere ao final dos exames para conclusão do Secundário. "Se isso acontecer, e eu espero que o bom senso e os interesses do país prevaleçam, será um sinal facilitador do ensino a todos os níveis. Mais do que um sinal, será um fator de redução de exigência em toda a escolaridade obrigatória. E os argumentos não colhem. Parece que estamos no século passado, quando se dizia que não é por avaliar que se progride nos conhecimentos e que a avaliação aumenta as desigualdades. Hoje sabe-se que nada disso é verdade. Hoje, sabe-se muito mais sobre educação", sublinha..Atualmente líder do projeto Iniciativa Educação, da fundação da família Soares dos Santos, Nuno Crato apresenta exemplos: "Hoje, com os avanços gigantescos da Psicologia Cognitiva e com a descoberta e estudo do chamado Efeito -teste, já na primeira década deste século, sabe-se que a avaliação desenvolve o conhecimento. A avaliação externa reforça a avaliação interna e a chamada avaliação formativa. Todas elas incentivam e reforçam o estudo. Sabe-se também hoje, sobretudo depois dos inquéritos internacionais PISA, que começaram em 2000, e dos inquéritos internacionais TIMSS, que começaram em 1995, que as avaliações nacionais, os exames, ajudam os países a progredir"..O antigo responsável pela pasta da Educação no governo de Passos Coelho entende que "os exames nacionais introduzem um grau de exigência nacional e ajudam a aferir os critérios das escolas e os critérios dos professores com os critérios nacionais. Não desempenham apenas um papel certificador - desempenham também um papel regulador", sublinha..Ainda sobre a eliminação das provas, Nuno Crato vai mais longe e afirma que, a concretizar-se, vai criar "um país a duas velocidades: com um pouco mais de exigência para os que pretendem seguir um curso superior e muito menos exigência para os que não têm isso no seu horizonte e que são, estatisticamente, os provenientes de famílias de menor escolaridade"..A mudança do peso das provas nacionais no ingresso no Ensino Superior (para um mínimo de 50%) também não colhe simpatia do ex-governante e nem o argumento de que resolveria a alegada injustiça provocada pela inflação das notas dos alunos do privado convence. "A única coisa que pode fazer, e não em relação apenas ao privado, é que potencia essa injustiça para os alunos que não prosseguem estudos. Ou seja, potencia a ilusão de uma formação adequada precisamente para aqueles que mais dela necessitam", explica..A proposta dos ministérios do Ensino Superior e da Educação prevê também um contingente especial para os alunos mais vulneráveis, de 1% de vagas nos cursos com mais alunos e de, pelo menos, uma vaga nos que são menos procurados pelos estudantes. Uma medida que, diz a Tutela, fará com que os alunos carenciados tenham uma posição preferencial no acesso ao ensino superior, embora sujeitos também à realização dos exames.."Um por cento?! Que generosidade! Estou a ser sarcástico! Não se conhece ainda a medida, e por isso não posso comentá-la. Mas, em geral, a ideia de facilitar artificialmente a vida escolar dos jovens com dificuldades económicas não os beneficia. O que é importante é introduzir medidas de apoio para esses jovens, de forma ajudá-los a alcançar os conhecimentos e capacidades necessários para o sucesso escolar", sustenta Nuno Crato..Questionado sobre o modelo mais adequado de acesso ao Ensino Superior, o antigo governante é perentório. "O modelo atual, não sendo perfeito, é incomparavelmente melhor que o fim dos exames de conclusão do Secundário"..A falta de professores é um dos maiores problemas no setor da Educação. Uma realidade que já afeta todas as zonas do país, mas que é mais grave em Lisboa e no Algarve..Trata-se de "um problema há muito anunciado", diz Nuno Crato. "Conhece-se há uns 20 anos. Lembro-me de falar continuamente desse tema desde 2006. E em 2013 e em 2014 foram alterados os regimes de acesso à profissão e o das habilitações para a docência tendo explicitamente em conta a necessidade de formação de novas gerações de professores", refere..Contudo, a maior preocupação do ex-ministro da Educação prende-se com a necessidade de recorrer a professores sem formação para fazer face ao problema. "A escassez de professores é grave. Mas, a médio prazo, a formação acelerada e a contratação de candidatos menos bem formados será uma verdadeira calamidade. Os professores, existindo um currículo e uma avaliação nacionais de qualidade, são o fator decisivo para a qualidade de formação dos nossos jovens. Professores com domínio deficiente das matérias que irão ensinar e com uma formação geral deficiente são professores que não prestarão um bom serviço. Mais uma vez, a formação dos nossos jovens deve estar em primeiro lugar", defende. Para Nuno Crato "a fraca formação dos futuros professores será um problema grave a curto prazo"..dnot@dn.pt