Conjunto de esculturas em pedra em Hanzhong, na província  de Shaanxi, que representa Zhang Qian a cavalo, empunhando o 'fú' e acompanhado pelo seu guia 'xiongnu' Tangyi Fu a caminho das Regiões Ocidentais, com cavalos e provisões.
Conjunto de esculturas em pedra em Hanzhong, na província de Shaanxi, que representa Zhang Qian a cavalo, empunhando o 'fú' e acompanhado pelo seu guia 'xiongnu' Tangyi Fu a caminho das Regiões Ocidentais, com cavalos e provisões. FOTO: Macao Daily News

A história de Zhang Qian: uma missão “fracassada” que abriu a Rota da Seda

Em 138 a.C., um jovem da Dinastia Han chamado Zhang Qian recebeu do imperador uma missão extraordinária: atravessar as vastas estepes ocupadas pelos 'xiongnu' (povos nómadas) em busca de um clã que tinha desaparecido nas profundezas do deserto. A missão original fracassou, mas Zhang Qian trouxe consigo algo inesperadamente valioso...
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Treze anos após a sua partida, Zhang Qian regressou a Chang’an (atual Xi’an, na província de Shaanxi), capital do Império Han. Dos mais de cem homens que integravam a missão, apenas Zhang Qian e o seu guia, Tangyi Fu, conseguiram regressar. A missão original tinha fracassado, mas Zhang Qian trouxe consigo algo inesperadamente valioso: conhecimentos sobre terras e povos distantes. A rota que percorreu contribuiu para estreitar os contactos entre o Oriente e o Ocidente e viria a ser conhecida, vários séculos mais tarde, como a Rota da Seda..

Naquela época, a Dinastia Han e o Império Romano encontravam-se em extremos opostos da Eurásia. Embora ainda não tivessem conhecimento direto um do outro, ambos enfrentavam a pressão dos povos nómadas do norte. Para os Han, a principal ameaça vinha dos xiongnu, um povo de cavaleiros que realizavam frequentes incursões em território chinês.

O jovem imperador Wudi decidiu contra-atacar. Tinha ouvido dizer que um povo chamado yuezhi, derrotado pelos xiongnu e forçado a refugiar-se nas regiões longínquas do Oeste, se tinha estabelecido na região do rio Amu Dária, na Ásia Central. O imperador pretendia encontrá-los e formar uma aliança para atacar os xiongnu em duas frentes. O problema era que ninguém sabia exatamente onde se encontravam os yuezhi. Para lá chegar, seria necessário atravessar o Corredor de Hexi, então controlado pelos xiongnu.

O imperador Wudi decidiu, por isso, recrutar voluntários para uma missão a “Xiyu” (literalmente, “Regiões Ocidentais”), termo usado na época Han de forma genérica para designar os territórios situados a oeste das fronteiras do império, abrangendo aproximadamente partes do atual Xinjiang e da Ásia Central.

Um jovem criado da corte imperial, de estatuto modesto, aceitou esta missão extremamente arriscada. Chamava-se Zhang Qian. Acompanhava-o Tangyi Fu, de origem xiongnu, que conhecia bem as línguas e os caminhos da região e que desempenharia as funções de guia e intérprete ao longo da viagem.

À frente de mais de cem homens, Zhang Qian partiu de Chang’an levando consigo o , uma insígnia que o identificava como enviado imperial. Pouco depois de entrarem no Corredor de Hexi, foram capturados pela cavalaria xiongnu. O seu líder, o shanyu, decidiu não matar Zhang Qian, mas deteve-o e chegou a dar-lhe uma mulher xiongnu em casamento.

Durante os mais de dez anos de cativeiro, Zhang Qian casou-se, teve filhos e aprendeu a língua e os costumes locais. Apesar disso, conservou sempre consigo o símbolo da sua missão imperial e nunca esqueceu o objetivo que o tinha levado até ali.

Mais tarde, Zhang Qian conseguiu fugir para Ocidente com Tangyi Fu. Atravessaram desertos e extensas regiões áridas, transpuseram as montanhas de Congling, na região do atual planalto de Pamir, e chegaram a Dayuan, na Bacia de Fergana (no atual Usbequistão), cujo rei enviou homens que os escoltaram até ao território dos yuezhi.

Museu Memorial de Zhang Qian, na mesma cidade. O seu túmulo foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO em 2014.
Museu Memorial de Zhang Qian, na mesma cidade. O seu túmulo foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO em 2014. FOTO: Macao Daily News

Quando finalmente chegou, Zhang Qian descobriu que os yuezhi já se tinham estabelecido pacificamente na região do rio Amu Dária e não tinham qualquer intenção de regressar a leste para se vingar dos xiongnu. Apesar de Zhang Qian ter passado mais de um ano a tentar convencê-los a formar uma aliança, acabaram por recusar.

Sem alternativa, Zhang Qian iniciou a viagem de regresso. No caminho, porém, voltou a ser capturado pelos xiongnu. Após mais de um ano em cativeiro, aproveitou uma revolta interna para fugir com Tangyi Fu e regressar a Chang’an. Era então 126 a.C., 13 anos volvidos desde a sua partida.

Embora a missão de estabelecer uma aliança militar tivesse fracassado, Zhang Qian trouxe consigo algo ainda mais valioso: informações detalhadas sobre os países das Regiões Ocidentais. Relatou ao imperador Wudi a localização, a população, os produtos e os costumes de Dayuan, de Yuezhi, da Báctria (atual Afeganistão), de Kangju (atual Usbequistão), da Pártia (atual Irão) e da Índia. Estes conhecimentos ampliaram consideravelmente a visão que a Dinastia Han tinha das Regiões Ocidentais e de territórios ainda mais distantes.

Em 119 a.C., a Dinastia Han já tinha assegurado o controlo do Corredor de Hexi e o imperador Wudi voltou a enviar Zhang Qian, desta vez à frente de cerca de 300 homens, para estabelecer contacto com os Wusun, na atual região do vale do rio Ili, em Xinjiang. Ao mesmo tempo, enviou emissários para vários outros países da Ásia Central.

Desta vez, foram os próprios enviados dos Wusun que acompanharam Zhang Qian até Chang’an, onde puderam testemunhar pessoalmente a força e a prosperidade da Dinastia Han. Nos anos seguintes, emissários da Pártia, da Báctria e de outros reinos começaram também a percorrer o caminho para leste, rumo à capital Han, que nunca tinham visto.

Cinco anos depois, Zhang Qian morreu em Chang’an e foi sepultado na sua terra natal, na atual Hanzhong, província de Shaanxi. Nos séculos seguintes, comerciantes, emissários e monges percorreram continuamente estas rotas. Seda, ouro, jade e especiarias circulavam entre o Oriente e o Ocidente; o budismo chegou à China por estas vias; e produtos como nozes, uvas e romãs foram introduzidos nas regiões centrais da China, passando a fazer parte da alimentação quotidiana. Séculos mais tarde, o fabrico de papel também se difundiria para Ocidente através destas rotas. Esta rede viria a ser conhecida como Rota da Seda.

A missão de Zhang Qian ampliou o conhecimento da Dinastia Han sobre as Regiões Ocidentais e contribuiu para o intercâmbio entre as civilizações do Oriente e do Ocidente. Por isso, Zhang Qian é frequentemente considerado um dos grandes pioneiros da Rota da Seda.

Em 2014, o túmulo de Zhang Qian foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO como parte integrante de “Rotas da Seda: a Rede de Rotas do Corredor Chang’an-Tianshan”.

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