"A comunidade muçulmana em Portugal dá-nos uma grande tranquilidade na prevenção do terrorismo"

Pela primeira vez, no plano académico, uma investigadora foi procurar respostas sobre a, até agora, imunidade de Portugal ao terrorismo jihadista. No âmbito da sua tese de doutoramento, defendida na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Cátia Moreira de Carvalho falou com a comunidade muçulmana em Portugal e apresenta os seus contributos para a prevenção da radicalização extremista.

Foi recentemente conhecida a acusação sobre dois refugiados iraquianos que estavam em Portugal, suspeitos de terem feito parte do daesh em Mossul. Soube-se que um deles tinha causado problemas e tido ordem de expulsão (sem no entanto ter sido executada), enquanto o outro, de personalidade mais discreta, tinha conseguido autorização de residência. Como perita em radicalização e extremismo violento / terrorismo, que leitura faz deste caso e que riscos estiveram em causa? Principalmente quando passaram quatro anos desde que foram sinalizados como suspeitos e a sua detenção?
Correram-se alguns riscos com este caso porque estiveram imenso tempo em Portugal. Não conheço os contornos todos, mas o país pode ter corrido alguns riscos por ter acolhido estes dois homens. Por outro lado, acho que este caso mostra que o percurso das pessoas que aderem ao terrorismo não é sempre linear.

Aquilo que vemos enquanto sociedade é que, a partir do momento em que uma pessoa é classificada como terrorista, é terrorista para sempre. Este caso mostra precisamente o contrário, ou seja, estas pessoas aderiram ao terrorismo, pertenceram ao Estado Islâmico, mas depois vieram para Portugal e até conseguiram manter uma vida estável.

Um deles foi até bastante bem-sucedido na integração no nosso país. Isto mostra que o percurso de radicalização não é linear e que tanto pode escalar mais, como pode ser revertido.

Mas, pelo que foi divulgado publicamente, um deles demonstrou comportamentos agressivos e fez até ameaças quando o seu processo não estava a correr como queria...
Sim, houve essa diferença. Há pessoas que vão aderir ao terrorismo e constituir-se como um risco a vida toda e acho que esse é um caso desses, esta pessoa podia ter trazido riscos para Portugal.

Não conheço os contornos todos, não sei até que ponto já estaria, ou não, a ser vigiado desde que chegou a Portugal e se alguma coisa foi evitada ao longo destes anos ou não.

De acordo ainda com a acusação, estes dois suspeitos jihadistas tiveram algum apoio, à margem da lei, de pessoas ligadas ao SEF e a ONG's, tendo um deles conseguido mesmo uma renovação da sua autorização de residência provisória depois da ordem de expulsão. Acha que pode haver pouca sensibilização nas organizações que intervêm nestas situações para o facto de, além da questão humanitária, também a questão de a segurança ter de estar sempre em cima da mesa?
É um equilíbrio difícil de conseguir e digo isto até por experiência própria. Antes de ter começado a estudar a questão do terrorismo e da radicalização, estive envolvida num estudo com refugiados e o equilíbrio é difícil de se conseguir.

Existe uma vontade muito grande de se querer ajudar aquelas pessoas, de confiar nelas, mas ainda assim, em Portugal, existe uma grande falta de sensibilização para o terrorismo.

Já falei com pessoas de várias áreas, que prestam serviço público, e não existe um conhecimento médio daquilo que é o terrorismo ou dos indicadores para sinalizar alguma situação.

Já falei com pessoas de várias áreas, que prestam serviço público, e não existe um conhecimento médio daquilo que é o terrorismo ou dos indicadores para sinalizar alguma situação.

Sei que quem entra nesta área dos estudos da segurança e do terrorismo depois fica sempre um bocadinho desconfiado e vê riscos em todo o lado. No entanto, acho que as pessoas que trabalham na área humanitária devem estar atentas.

Também é importante dizer que a literatura que existe, e que fala sobre a ligação entre refugiados e terrorismo, mostra-nos números muito pouco significativos. Ou seja, a correlação é mesmo muito pouco significativa entre terrorismo e refugiados ou migrantes.

Mas, obviamente, podem sempre existir casos que fujam à regra e, assim sendo, é necessária alguma sensibilização por parte das pessoas que trabalham nesta área e isso passaria por alguma formação.

Na sua tese de doutoramento "O outro lado da moeda: contributos para prevenir e combater a radicalização islâmica", assinala que em Portugal não se conhecem processos de radicalização de terrorismo islâmico. A que conclusões chegou que justifiquem esse facto?
A comunidade muçulmana em Portugal tem raízes muito antigas. No anos 60 do século passado começaram a chegar os primeiros membros desta comunidade que agora vive cá, vindos das ex-colónias, portanto, estavam familiarizados com a língua e com a cultura portuguesa.

Quando chegaram cá, instalaram a Comunidade Islâmica de Lisboa e têm ajudado a acolher e a integrar novos membros chegados à comunidade. Esses fatores de familiarização com a língua e até as relações próximas que foram sendo construídas com figuras próximas do poder, ajudaram a essa integração em Portugal.

Houve sempre valorização da lei portuguesa, ou seja, se havia coisas que a lei portuguesa dizia que não se podia fazer, mas o islão dizia que se podia, prevalecia o respeito pela lei portuguesa.

Por exemplo, houve sempre valorização da lei portuguesa, ou seja, se havia coisas que a lei portuguesa dizia que não se podia fazer, mas o islão dizia que se podia, prevalecia o respeito pela lei portuguesa.

Fiz estas entrevistas no final de 2019 e estas práticas ainda se mantinham e a comunidade continua sempre a ter este papel muito importante de integração, tanto em Lisboa como por todo o país.

Dentro da própria comunidade, ao longo do tempo, tem sempre havido disponibilidade por parte dos membros para dispensarem um bocadinho do seu tempo para conversarem com as pessoas que chegam sobre como é a vida aqui, o trabalho e a escola.

Mas o facto de a comunidade islâmica em Portugal ser um caso de sucesso não se deve apenas à integração. Também tem havido muito, nos últimos anos, a prevenção da radicalização violenta.

Digo radicalização violenta porque, na verdade, não tenho dados que me digam que não exista radicalização em Portugal, até porque no último Relatório Anual de Segurança Interna é apontado que houve casos de portugueses que se radicalizaram.

Mas uma coisa é a radicalização cognitiva, outra é radicalização física que se traduz na radicalização violenta. Em Portugal, ainda não houve nenhum caso de alguém radicalizado violentamente.

Como o explica?
Tentei perceber quais são as razões para isto e aquilo que a literatura mostra sobre as pessoas que se radicalizaram e foram para o Estado Islâmico é que, a maior parte, estão convertidos para o islamismo ou são muçulmanos.

Daí que tenha ido estudar a comunidade muçulmana para perceber o que está a ser feito para proteger Portugal contra a radicalização violenta.

Houve uma iniciativa dos próprios membros da comunidade de construírem relações próximas e ativas com as autoridades. O objetivo é que, sempre que houvesse um caso mais suspeito a chegar à comunidade, essa pessoa pudesse ser sinalizada.

O que percebi é que houve uma iniciativa dos próprios membros da comunidade de construírem relações próximas e ativas com as autoridades. O objetivo é que, sempre que houvesse um caso mais suspeito a chegar à comunidade, essa pessoa pudesse ser sinalizada.

Diziam-me eles que aquilo que querem é não ser associados com casos de terrorismo, querem tornar-se impermeáveis a isso. Outra coisa muito importante é que nas madraças - escolas muçulmanas ou casas de estudo islâmicas -, também vai sendo feita prevenção da radicalização nas crianças.

Por exemplo, sempre que existe um atentado no estrangeiro, isso é explicado às crianças, assim como a diferença entre terrorismo e Islão. A comunidade islâmica em Portugal implementa uma série de mecanismos de controlo social, que reforça os laços das pessoas às sociedade, por exemplo, através da entreajuda para a integração, ir à escola ou à universidade, ter um trabalho, e isto faz com que as pessoas correspondam às expectativas da sociedade.

Quando as pessoas correspondem às normas e expectativas da sociedade, tendem a criar vínculos muito mais duradouros e sólidos e a não ter tanta tendência para se desviar das normas da sociedade.

A comunidade muçulmana em Portugal deve rondar as 100 000 pessoas, cerca de 1% da população, e a maior parte são portugueses. Ou seja, são portugueses que se sentem muçulmanos e não muçulmanos que por acaso são portugueses.

Na sua tese analisa o processo de radicalização dos seis portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico. Este chamado grupo de Leyton (cidade inglesa onde se radicalizaram), com rapazes nascidos e criados em Portugal, teve um processo muito rápido de radicalização em Inglaterra. Porque é que isso aconteceu?
Para começar, o mais importante a dizer é que nenhum deles se radicalizou em Portugal, radicalizaram-se todos em Londres e num curto espaço de tempo. Radicalizaram-se entre 2011 e 2012.

Antes de terem ido para a Síria, alguns deles já tinham ido para a Tanzânia onde conseguiram algum treino militar. É importante dizer isto, porque temos o caso de Moçambique, mesmo ao lado da Tanzânia, que já tem um grande historial de terrorismo.

A radicalização aconteceu porque alguns deles tinham contactos familiares com pessoas associadas ao terrorismo, ou porque casaram com mulheres que tinham irmãos envolvidos em atividades terroristas, ou através de outros conhecidos.

Tentei perceber um pouco mais de detalhes sobre este processo de radicalização rápido, mas não consegui.

Tentei entrevistar os familiares e, embora tenha conseguido falar com os pais de alguns, todos se recusaram a falar sobre os filhos.

Aquilo que fiz foi ler o que foi produzido sobre eles, nomeadamente o acórdão e a sentença do tribunal português. Além disso, entrevistei algumas pessoas associadas ao processo criminal e outras que os contactavam através de chats de redes sociais.

E o que permitiu descobrir?
Não se identificou um padrão naquilo que pode ter constituído o "gatilho" que espoletou esta radicalização tão rápida e em massa. No entanto, com a minha investigação percebi que este processo de radicalização se encaixa numa teoria que já existia, a "Teoria dos 3 N" (Need, Networks, Narrative).

Esta teoria diz que as pessoas se radicalizam quando têm a necessidade de procura de significado para a sua vida, radicalizam-se quando estão em contacto com narrativas extremistas e radicalizam-se nas redes sociais, físicas e virtuais.

De facto, isso acontecia, porque quando se fez a investigação criminal descobriu-se na sua posse material extremista, como várias palestras dos predicadores extremistas mais conhecidos.

Isto fez com que se radicalizassem de forma muito rápida. Para piorar, à medida que se foram radicalizando, foram tornando-se um grupo cada vez mais fechado para o exterior e deixou de haver contacto quase por completo.

Nestes casos, o processo de radicalização é ainda mais exacerbado porque deixar de haver contacto com o contraditório e com opiniões diferentes.

Nestes casos, o processo de radicalização é ainda mais exacerbado porque deixar de haver contacto com o contraditório e com opiniões diferentes.

Quando estavam em Portugal já estavam sujeitos aos fatores de risco que identifica na sua tese?
Existem vários fatores como a discriminação, a falta de integração, a falta de confiança nas instituições para responder às suas necessidades, o contacto com a propaganda e discurso extremista.

A pobreza também poderá ser um fator, mas em África, porque no resto do mundo não se constitui como fator de risco para a radicalização, é o que a evidência científica mostra.

Tentei perceber se o facto de terem nascido e crescido na linha de Sintra - zona considerada sensível socialmente -, poderia ter constituído um fator de risco. Contudo, todas as pessoas com quem consegui falar disseram que eles tinham uma vida normal.

Eram pessoas vistas como amigáveis e bem integrados, não parece ter havido influência desse fator.

Possivelmente, se não tivessem ido para Londres a radicalização não teria acontecido...
Porque em Portugal não tinham o que em Londres tiveram de forma muito rápida que foi o acesso a propagandas extremistas e a pessoas que já tinham contacto próximo com redes terroristas.

Inclusive, a parte de Londres onde estavam a viver é uma zona de difícil acesso e conhecida por ter vários problemas de terrorismo. Chamam-lhe Londonistan, uma alusão a Afeganistão e Paquistão.

Há muitas pessoas que estão sujeitas a esses fatores de risco, mas poucos se viram para o extremismo. O que é que estas pessoas podem ter que as diferencia das outras que não se viram para o extremismo?
Os fatores de risco podem ser fatores que empurram as pessoas para o terrorismo e outros podem ser os que atraem as pessoas para o terrorismo.

Os primeiros, são os de contexto social como já falámos, a questão da integração, os estereótipos; os fatores atraentes já são os próprios grupos terroristas, os líderes carismáticos, a propaganda.

Os fatores atraentes também passam pelo que os grupos terroristas oferecem. Por exemplo, ouvimos falar que o Estado Islâmico dizia que oferecia dinheiro, armas e mulheres.

Depois, existem ainda os fatores pessoais que já são mais da ordem da saúde mental e traços de personalidade. A saúde mental está a ser cada vez mais estudada na sua relação com o terrorismo, embora a relação ainda seja uma relação fraca.

As características pessoais podem passar por uma necessidade muito grande de aventura ou uma procura constante de um significado para atribuir à vida. Não existe um fator único, é um conjunto de fatores, numa determinada altura.

E mesmo o peso de alguns desses fatores ainda está a ser estudado, aliás, a saúde mental é exemplo disso. Alguns dados indicam que perturbações do espectro do autismo ou esquizofrenia podem, aliados a outros fatores, contribuir para a radicalização.

Como é que foi falar com as famílias destes jovens?
Quando tentei o contacto com estas famílias tentei ter muito cuidado porque sabia que estaria a tocar na ferida. Não deve ter sido nada fácil ver a vida dos filhos virada do avesso.

Tentei dizer-lhes que uma das coisas que queria fazer era oferecer-lhes algumas respostas para aquilo que tinha acontecido.

O que me disseram foi que lhes era muito difícil falar sobre o que aconteceu, porque ainda nem sabiam bem o que pensar. Houve uma das pessoas que me disse que sofria imenso, que continuava a sofrer constantemente e ainda estava a aprender a lidar com isso.

O que me disseram foi que lhes era muito difícil falar sobre o que aconteceu, porque ainda nem sabiam bem o que pensar. Houve uma das pessoas que me disse que sofria imenso, que continuava a sofrer constantemente e ainda estava a aprender a lidar com isso.

Isto em si já demonstra, no âmbito da investigação, que não é fácil para a família e que eles não tinham respostas para me dar porque eles próprios estavam a tentar processar a situação.

A PGR pediu a extradição de Nero Saraiva, o único do "grupo de Leyton" que estará ainda vivo e que está detido no Iraque, onde enfrenta a pena de morte. Por outro lado, o Governo ainda não assumiu uma posição sobre familiares, mulheres (13) e filhos (23) dos portugueses jihadistas. Entende que estas pessoas devem vir e como é que o país se prepara para isto?
Sei que para a generalidade da população, traz-lhes mais segurança se souberem que estas pessoas não vêm para Portugal, mas a médio e longo prazo é muito melhor estas pessoas voltarem para os seus países onde vão ter um tratamento adequado.

Ao nível de justiça criminal e ao nível de serem integradas em processos de desradicalização e de afastamento da violência, era mais benéfico voltarem.

Ao continuarem em campos de detenção com condições completamente desumanas, não sabemos se não estão a ser formadas pessoas que vão ser futuros terroristas.

Ao continuarem em campos de detenção com condições completamente desumanas, não sabemos se não estão a ser formadas pessoas que vão ser futuros terroristas.

Estas crianças têm direito à nacionalidade portuguesa e o Estado português tem responsabilidade sobre elas. É muito melhor virem para os países onde vão ter um tratamento adequado.

Há países que estão a ser seletivos, estão a ir buscar as mulheres e crianças e deixam lá os jihadistas. À partida, as mulheres e crianças não colocam tantos riscos à segurança, mas devem delinear-se planos e redes de apoio para estas pessoas.

Obviamente não existem fórmulas mágicas, é uma situação muito delicada que pode provocar cisões na sociedade. Mas isto deve ser feito por uma questão de segurança a médio e longo prazo.

Nesta sua "viagem" para fazer a tese, houve alguma coisa que a tenha surpreendido especialmente?
A comunidade muçulmana em Portugal, que mostra ser muito responsável. Em termos académicos e pessoais foi maravilhoso falar com estas pessoas e aprendi imenso sobre o processo de integração em Portugal.

A comunidade muçulmana em Portugal dá uma grande tranquilidade sobre o terrorismo por toda a ação preventiva que tem.

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