Combatente leal ao Estado Islâmico exibe arma e bandeira do grupo terrorista nas ruas de Raqqa, na Síria

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Toda a história dos jihadistas portugueses. Os códigos, a vida, as paixões e os ódios

Dos oito portugueses acusados, um está já detido em Portugal e outro sujeito a termo de identidade e residência. Há seis "em paradeiro desconhecido", dados como mortos pelas autoridades. Deixaram dor nas suas famílias e cerca de 20 filhos que estarão em campos de refugiados na Síria.

A abrir o despacho de acusação, a que o DN teve acesso, o Ministério Público (MP) sublinha que "pela primeira vez, num processo-crime, através da investigação sistemática ao longo de seis anos, foi possível descrever e reconstruir, do ponto de vista criminal, mas também histórico e sociológico, a radicalização organizada de um grupo de indivíduos de nacionalidade portuguesa e a sua deslocalização para a Síria, com as suas mulheres e filhos, a fim de integrarem as fileiras do Estado Islâmico e cumprirem a jihad".

Todos os oito portugueses - Nero Saraiva, os irmãos Celso, Edgar e Rómulo Costa, Fábio Poças, Sandro Marques, Sadjo e Cassimo Turé - estão acusados dos crimes de adesão e apoio a organização terrorista, recrutamento para terrorismo internacional e financiamento de terrorismo. Destes oito, seis estão "em paradeiro desconhecido", dados como mortos pelas autoridades. Em relação aos outros dois, Rómulo Costa está detido em Portugal, enquanto Cassimo está sujeito a termo de identidade e residência (TIR).

Eis toda a história, na versão do MP:

Os oito acusados

1- Nero Saraiva (33 anos), com alcunhas e nomes árabes Rashid, Gordo Abdul Rashid, Abu Yacub, Abu Yakhoub Al Andaloussi. Morada em Portugal: Massamá.

Nasceu em Angola, filho de uma família católica, muito religiosa. Entre os 9 e os 15 anos foi viver e esteve como interno numa instituição católica de Aveiro, onde foi batizado e fez a primeira comunhão. Aqui tinha a alcunha de "Imperador". Emigrou depois para Inglaterra com a mãe e foram viver para Leyton, um distrito de Londres onde reside uma das maiores comunidades muçulmanas de Inglaterra. O local daria depois o nome ao grupo de jihadistas portugueses que tinham emigrado da linha de Sintra - célula de Leyton.

Nero casou-se, teve um filho e divorciou-se pouco tempo depois de ter sido pai, em 2007, com apenas 21 anos. Passado cerca de um ano, com 22, converteu-se ao islão. Conheceu, entretanto, os portugueses Sadjo Touré e os irmãos Edgar e Celso Costa, recém-chegados a Londres. A estes juntaram-se depois Sandro "Funa" Marques e Fábio Poças.

Na Síria, Nero casou-se depois com três mulheres: Amina, britânica, de quem teve dois filhos; Heidi, natural da Holanda e com nacionalidade finlandesa; Ângela, de origem portuguesa e nacionalidade holandesa, que viajou para a Síria em 2014. São-lhe atribuídos um total de dez filhos.

Em meados deste ano, Nero Saraiva foi preso pela coligação de milícias curdas e árabes SDF (Syrian Democratic Forces), no decurso da tomada de Baghouz, último reduto da organização terrorista Estado Islâmico, no norte da Síria, por ser membro da organização terrorista Estado Islâmico. Em setembro, a agência noticiosa curda ANF News difundiu uma entrevista a Nero, na qual este contou todo o seu trajeto no Estado Islâmico (EI), desde a sua chegada até à sua captura.

2 - Sadjo Turé (40 anos), com alcunhas e nomes árabes Xamanti, Xá, Chá, Shá, Picadas, Picoso, Abdul Kareem, Abdullah Al Portugal, Abubakar al Portugal, Sajid Tawriyah, Manullo Dijoura, Abu Bawsha Al Burtughali. Morada em Portugal: Massamá.

3 - Cassimo Turé (44 anos), com alcunhas Guedes e Laço. Morada em Portugal: Massamá.

Os irmãos Turé nasceram na Guiné-Bisssau. Vieram para Portugal em 1986 e foram primeiro residir na Buraca. São muçulmanos. Em 2003, Sadjo foi viver para Londres, seguindo-se depois em 2005/2006 o irmão Cassimo. Viviam juntos até Sadjo se casar com uma portuguesa que se tinha convertido ao islão.

Sadjo Turé (juntamente com Celso da Costa) foi suspeito, no Reino Unido, de autoria do rapto dos jornalistas John Cantlie e Jeroen Oerlemens, em julho de 2012, na fronteira turco-síria. E foi a partir daqui que ficaram no "radar" das autoridades britânicas, que avisaram a polícia portuguesa.

Sadjo casou-se com Zara Iqbal, britânica de origem paquistanesa. Tiveram três filhos: Yusha (7 anos), que nasceu na Tanzânia; Yunus (6 anos) e Asya (4 anos), nascidos na Síria.

4 - Edgar Costa (36 anos), com alcunhas e nomes árabes Fubas, Cydas, Batman, Bafo, Franky Pain, Abuzakarya, Abubakar, Abu Zakarya al Andalus. Morada em Portugal: Massamá.

5 - Celso Costa (33 anos), com alcunhas e nomes árabes Stone, Crebas, Sherif, Issa, Abu Isa Al Andalus, Abu Issa Al Andalusi. Morada em Portugal: Massamá.

6 - Rómulo Costa (40 anos), com alcunhas Binas, Romy, Rominho, Romny Fansony. Morada em Portugal: Massamá. - Detido pela PJ em junho deste ano, está em prisão preventiva.

Os três irmãos Costa cresceram em Massamá, Sintra. Jogavam futebol e dançavam breakdance, rap e hip-hop. Frequentaram a Escola Secundária Stuart Carvalhais, na mesma localidade. Foram colegas de Sandro "Funas" Marques.

Não tiveram em Portugal qualquer atividade remunerada. A sua rotina resumia-se aos jogos de futebol e à preparação física em ginásios de musculação. Não tinham qualquer ligação à comunidade muçulmana nem tinham por hábito frequentar locais de culto. Mesmo assim, já depois de se terem convertido, em deslocações a Portugal, há registos de terem ido à Mesquita Central de Lisboa, para orações à sexta-feira, como, por exemplo, no dia 1 de fevereiro de 2013.

Edgar licenciou-se em Gestão e Contabilidade, no Porto, tendo de seguida emigrado para Londres para continuar os estudos universitários. Foi viver para Leyton, onde já estava Nero Saraiva, e começou a frequentar a Mesquita de Forest Gate. O irmão Celso juntou-se-lhe.

Rómulo Costa estava em Londres desde 2000. Era produtor de música, com o nome artístico de Romy Fansony.

Celso Costa, juntamente com Sadjo Turé, foi suspeito, no Reino Unido, da autoria do rapto dos jornalista John Cantlie e Jeroen Oerlemens, em julho de 2012, na fronteira turco-síria. Celso casou-se com Reema, britânica de origem paquistanesa, de quem tem dois filhos, Ibraheem (6 anos) e Musa (4 anos). Casou-se depois na Síria, também com Sabina, de nacionalidade alemã, de quem teve mais um filho, Ayesta (3 anos), e com Seri, uma indonésia, de quem teve outro filho, Suleiman (2 anos).

Edgar casou-se com Fatuma, tanzaniana, de quem teve três filhos: Zakarya (6 anos), Miriam (4 anos) e Yahya (3 anos).

Os três irmãos Costa cresceram em Massamá. Jogavam futebol e dançavam breakdance, rap e hip-hop

7 - Fábio Poças (27 anos), com alcunhas e nomes árabes Tong Po, Dragão Vermelho, Red Dragon, Abdu Rahman Al Andalus, Abu Khadija Al Andalus, Abu Khadija Al Badri, Abo Khadija al Qurtobi. Morada em Portugal: Mem Martins.

Emigrou para Londres aos 19 anos e foi ao encontro dos irmãos Costa, seus amigos. Tinha como objetivo estudar artes e tornar-se jogador de futebol profissional. Tal como Nero, os irmãos Costa e Sandro "Funas" Marques, converteu-se também ao islão.

Em outubro de 2013, foi abordado pelas autoridades policiais britânicas, no aeroporto de Luton, em Londres, quando se preparava, juntamente com a sua mulher, a britânica Ruzina, para viajar para Lisboa. A Polícia britânica apreendeu-lhe um computador portátil, cinco telemóveis e cerca de 2600 libras esterlinas. Viajou depois de Londres para Faro, e não para Lisboa, para "iludir as autoridades policiais".

Fábio casou-se com Ruzina, britânica, de quem teve uma filha em 2014, ainda no Reino Unido - Noor (5 anos). Ainda tentou que ela fosse para a Síria, mas esta recusou. Relata o MP que Fábio "acusou a mulher de não querer viver segundo a sharia, querendo dizer o direito islâmico, mas sim de forma ocidental, e disse-lhe que por isso iria casar-se novamente e ter outros filhos".

Foi para a Síria em 2015. Casou-se lá com Ângela, de origem portuguesa e nacionalidade holandesa, que também tinha sido casada com Nero Saraiva. Tiveram um filho.

Fábio Poças chegou a instrutor militar no Califado, tendo treinado "mais de mil recrutas"

8 - Sandro Marques (45 anos), com alcunhas e nomes árabes Funas, Primeiro, Primo, Mohamed, Mohames Awal, Abu Yaninah Al Portughal. Morada em Portugal: Monte Abraão.

Sandro casou-se com Mayubonwe Sibanda e tiveram uma filha, Yaminah (7 anos). Celso, Edgar, Fábio, Sadjo, Sandro e Nero tiveram um total de 20 filhos e há pelo menos três com bilhete de identidade português, embora, segundo o MP, estejam caducados.

À exceção dos irmãos Turé, que já eram muçulmanos, o restante grupo são muçulmanos convertidos, de corrente sunita, com convicções político-religiosas extremistas.

O início

Esta acusação é assinada pelos procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) Vítor Magalhães, João Valente e Cláudia Porto, e é a conclusão de uma investigação de seis anos, coadjuvada pela Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária, aberta em 2013, a partir de um alerta das autoridades britânicas. Em sede de cooperação internacional, foi comunicado o envolvimento e dois indivíduos de nacionalidade portuguesa, Celso Costa e Sadjo Turé, no rapto dos jornalistas John Cantlie, britânico, e Jeroen Oerlemens, holandês, que o acompanhava.

Segundo o MP, entre 2011 e 2012 os membros da célula de Leyton tinham já aderido, em Londres, a movimentos fundamentalistas islâmicos, "defendendo-os, glorificando-os e assumindo-se como seus representantes ativos". Nessa altura, Nero, Sadjo e os irmãos Edgar e Celso viajaram para a Tanzânia, "onde frequentaram campos de treino de combate de grupos fundamentalistas islâmicos com ligações à organização terrorista Al-Shaba". Edgar tornou-se instrutor.

Dali, Nero seguiu para o Sudão, depois para a Turquia e de seguida para a Síria, juntamente com Edgar Costa. Juntaram-se a grupos salafistas que combatiam o regime sírio liderado por Bashar al-Assad.

Nero era próximo de um grupo liderado por Jihadi John, um dos mais infames terroristas do EI

Nero juntou-se a Abu al-Absi, que esteve por trás de uma onda de sequestros de ocidentais na Síria. Integrou a chamada Brigada dos Emigrantes e começou por ser sniper do batalhão. Subiu depois a comandante e ficou encarregado de registar os recrutados que chegavam da Europa. Nero Saraiva é conhecido, internacionalmente, como membro próximo do grupo de britânicos conhecido por Os Beatles, cujo líder era Mohammed Emwazi (mais conhecido por Jihadi John), responsável pela tortura e pela execução de reféns ocidentais.

Sadjo e Celso foram à Síria em 2012, com as respetivas mulheres. Sadjo passou a fronteira turca em abril desse ano, exibindo o passaporte português, e saiu em agosto. O seu filho Yusha foi registado, nesse ano, na Secção Consular da Embaixada de Portugal, em Ancara, na Turquia.

Em agosto de 2012, com exceção de Nero Saraiva, todos regressaram com as mulheres à Europa. Diz o MP que o objetivo era "obterem meios financeiros e aliciarem mais combatentes, em Londres, para integrar a organização terrorista e cumprirem a jihad na Síria". Nesta altura, estavam já radicalizados e, quando regressaram a Portugal, "delinearam uma estratégia conjunta que lhes permitisse regressar, com as respetivas famílias, à Síria, a fim de se juntarem à organização terrorista a que pertenciam".

Todos menos Cassimo e Rómulo, que nunca quiseram ir para a Síria. Mesmo assim, Cassimo Turé "assumiu um papel relevante no financiamento do grupo, nomeadamente o recebimento de quantias monetárias, distribuição por outros arguidos e guarda do suporte de ficheiros relacionados com o esquema ilegal para obtenção de subsídios praticado, em Londres, por Sadjo". Assumiu, também, segundo o MP, funções de apoio em Portugal a indivíduos aliciados e recrutados para se deslocarem para a Síria. A partir de 2014, considera o MP, o grupo da célula de Leyton passou a integrar a organização terrorista Estado Islâmico.

O modus operandi

O grupo da linha de Sintra "conhecia as rotas, o terreno e os facilitadores na Turquia e na Tanzânia. Nesse contexto, aliciaram, recrutaram, financiaram e apoiaram logisticamente a deslocação de cidadãos britânicos e portugueses para a Síria". Utilizaram o território nacional "como base de apoio aos recrutados e a todos os que se iam juntando ao grupo".

Sadjo, por exemplo, "aliciava e convencia os jovens britânicos em Londres e enviava-os para Lisboa". Edgar Costa, Sandro Marques e Cassimo Turé "acolhiam-nos em Portugal, providenciavam todo o apoio logístico, até se encontrarem reunidas as condições financeiras e logísticas para viajarem até à Turquia e depois até à Síria". Nero Saraiva, por seu turno, "assegurava toda a logística necessária para recolher, na Turquia, os que ali chegavam e, recorrendo a facilitadores locais ou militantes do grupo jihadista terrorista a que pertencia, assegurava a sua passagem, pela fronteira Turca, para a Síria".

Nas escutas a Edgar, são descritas "matanças", fala-se da "guerra" e em "limpar mais uns quantos"

Depois do alerta dos britânicos, no início de 2013, as autoridades portuguesas tinham-nos sob vigilância e escutas. No despacho de acusação são transcritas dezenas de conversas que o MP entendeu constituírem provas da sua adesão e envolvimento com os terroristas do Estado Islâmico, quer em recrutamentos quer em treinos, combates e financiamento.

Nas escutas a Edgar, são descritas "matanças", fala-se da "guerra" e em "limpar mais uns quantos". Edgar contou a Rómulo que Celso teria pedido que lhe distribuíssem uma arma de fogo automática, mais pesada e com grande capacidade de carregamento de munições, "que tem logo duzentas lá dentro." Rómulo perguntou se Celso teria "força para aguentar com o peso da arma" e Edgar respondeu que "o disparo da arma não provocava muito impacto, que pesava somente sete quilos". Edgar explicou que "aquele tipo de arma servia para fazer um primeiro varrimento, tiro de barragem e que depois seguiam-se os combatentes mais rápidos, com armas de fogo automáticas ligeiras, para se aproximarem e envolverem rapidamente o inimigo".

Em outubro, ao telefone, Sadjo comentou com Edgar Costa que o irmão Celso, que estava na Síria, tinha sido escolhido para "limpar um cão porco capturado", depois de o julgarem, querendo dizer executar um prisioneiro não muçulmano.

As exibições no Facebook

Em dezembro desse ano, as autoridades portuguesas registaram que Nero Saraiva exibiu, na rede social Facebook, uma fotografia com Celso Costa, "ambos vestindo uniformes de combate (camuflados), ostentando material de comunicações e carregadores de armas automáticas, altura em que já se encontravam os dois na Síria".

Em janeiro de 2014, Sadjo Turé e Sandro "Funas" Marques conversaram ao telefone para combinarem a viagem para a Síria deste último e da sua mulher e da filha. Sandro queixa-se de que tem pouco dinheiro para a viagem e pergunta se podem ficar em casa de Fábio. "A guita que nós temos não é muita, temos para aí um ponto oito mais ou menos. Dá para bazar os dois assim ou não? Um ponto oito? [1800 €]", questiona. Sadjo respondeu que sim, "e que sobra". "Tá-se bem, man. Há lá, há lá coiso para ti também, não te preocupes. Um casal é mais fácil, tás a ver?", acrescenta.

Sadjo tentava sossegar Sandro sobre o apoio que teria, na Turquia, de facilitadores conhecidos daquele, que iriam guiá-lo até à Síria, referindo: "Não te preocupes, que eu falo com o dread, e o dread vai-te apanhar, não te preocupes, isso já é comigo. O gajo vai-te dar o meu número, quando chegares ele liga para falares comigo até ao final. Eu falo com ele. O gajo é um dread fixe. Mal sabe que estás ali, apanha-te logo. Lembra-te que ele apanhou esses gajos, o Tong Po [referindo-se a Fábio Poças], e esses gajos todos, é na boa, é na boa. O gajo é profissional."

Nessa altura, ainda em janeiro de 2014, Fábio Poças publica uma fotografia sua no Facebook com uma espingarda automática AK47 - Kalashnikov, apresentando-se como membro da organização terrorista ISIS ou ISIL. Contou que vivia em Aleppo, na Síria, e intitulou-se mujahid/footsoldier/sniper na empresa Dawlah Islamyah fi Iqraq wa Sham, ou seja, combatente, soldado de infantaria do Estado Islâmico do Iraque e da Síria.

Nesta página de Fábio Poças, Rómulo Costa (com o nome de Romy Fansony) comentou, por três vezes, publicações, tendo escrito: "Ai não; porcos a caírem all day everyday; braaaaaaa tatatataaa."

Assim, desde finais de março de 2014, integrando as fileiras da organização terrorista EI, estavam, na Síria, Nero Saraiva, Sadjo Turé, a sua mulher, Zara, e o filho, Yusha; Celso Costa, a sua mulher, Reema, e o filho, Ibraheem; Edgar Costa, a sua mulher, Fatuma, e o seu filho Zakarya; Fábio Poças; e Sandro Marques, com a sua mulher, Mayibongwe, e a sua filha, Yaminah.

Em agosto desse ano, o Estado Islâmico publicou um vídeo da decapitação do jornalista norte-americano James Foley, cujo título era, precisamente, Mensagem para a América. E, em setembro, Celso Costa e Fábio Costa surgem no vídeo do EI, como "irmãos Mujahideen". Em outubro, numa entrevista à revista Sábado, Poças, assume-se como combatente do EI. "Matar é fácil", disse, sublinhando que era "capaz de matar qualquer um que lute contra o islão". Prometia ainda "voltar à Europa com a bandeira da tawheed (bandeira preta símbolo da unidade islâmica) numa mão e com a arma na outra".

Ao telefone, eram combinados os detalhes das viagens para a Síria

Família em Portugal "horrorizada"

Entretanto, alguns familiares em Portugal começaram a reagir mal às atividades dos jihadistas portugueses. Aneia, irmã de Celso, Rómulo e Edgar, questiona, depois de ver um vídeo de propaganda do EI, em que Celso e Edgar participavam, se "acham normal rirem-se da matança?".

Neste vídeo, lembrava o MP, Edgar e Celso empunham armas de fogo num posto de controlo do grupo terrorista Daesh, na Síria, durante as celebrações muçulmanas da Festa do Sacrifício Eid al-Adha e enaltecem a forma como na jihad sacrificavam não crentes ou infiéis.

Rómulo respondeu à irmã que "as pessoas em causa não estavam a gozar com a morte de ninguém". Aneia Costa indignou-se e pediu ao irmão que não lhe enviasse mais e-mails daqueles, dizendo que tomassem as suas decisões. "Vocês acham que estão cheios de razão, não é? Porque, pelos vistos, tu concordas com isso, é porque também estás envolvido nisso", atirou a Rómulo. O irmão advertiu Aneia Costa para ter cuidado com as palavras que estava a dizer.

A irmã manifestou-se "horrorizada com esse tipo de situações, que não era a sua vida, que não era a vida que queria tomar", pedindo que não enviassem mais e-mails. "Façam a vossa vida, epá esqueçam-nos", exclamou. Aneia Costa disse que Rómulo não sabia o que estavam a passar aqui, em Portugal, alertando que "correm até o risco de sofrerem represálias de outras pessoas", referindo-se à restante família.

Repatriamentos

Em abril deste ano, dois meses antes de ser detido, Rómulo Costa telefonou ao seu pai, Manuel Costa, e "conversaram sobre as diligências a desenvolver junto de várias entidades portuguesas, com vista ao repatriamento das mulheres e filhos dos irmãos, que se encontram na Síria". Rómulo "admitiu a dificuldade desse processo, reconhecendo que a fase seguinte será tentar localizá-los, designadamente dizendo que era complicado". O objetivo aqui, frisou ao pai, "é salvaguardar a família" e que "a prioridade" era "tirar aquelas crianças e as mulheres dali".

Estes processos de repatriamento dos familiares (mulheres e filhos) dos jihadistas portugueses tem sido alvo de atenção e preocupação das autoridades portuguesas mas, tal como na maior parte dos países europeus que também enfrentam este problema - e numa escala muito maior -, ainda não há decisão politica.

Em maio deste ano, Manuel Costa pergunta a Rómulo se os "os bandyboys", Edgar e Celso, "estão vivos ou como é que é?". Rómulo Costa respondeu que "não sabia, que não tinham dito mais nada" e que a última vez que tinham comunicado tinha sido em "dezembro de 2018". Tentou sossegar o pai dizendo que uma vez tinham estado seis meses sem comunicar. Tornou a insistir na questão de repatriamento das mulheres e dos filhos. A conversa desenvolveu-se sobre as pessoas ou entidades que, no entender de Rómulo Costa, poderiam ajudar no processo de repatriamento.

Atualmente, Sadjo Turé, Celso e Egar Costa, Sandro Marques e Fábio Poças encontram-se em parte incerta, suspeitando as autoridades de que estejam mortos - embora sem os corpos não seja possível confirmar.

As mulheres e filhos dos arguidos encontram-se nos campos de refugiados Al-Hol e Ain Issa, após terem sido capturados pelas SDF- Syrian Democratic Forces.

"Por amor se faz a guerra"

Em junho deste ano, na sequência da detenção de Rómulo, as autoridades portuguesas fizeram buscas em casa dos irmãos Costa. Entre o material apreendido estava um documento, escrito em computador, com nomes de mulheres e crianças que se encontram em campos de refugiados, na Síria, em tendas da UNICEF, entre os quais as mulheres e filhos de Celso e de Edgar.

Também foram encontrads vários textos professando o islamismo extremista, letras de músicas e projetos de Rómulo - produtor musical, recorde-se. Num projeto de filme, Rómulo Costa propunha-se abordar "a história verídica da vida e ideologia jihadista dos sete arguidos, respetivas mulheres e filhos: Nero Saraiva, Sadjo Turé, Sandro Marques, Fábio Poças, Celso e Edgar Costa e do próprio autor".

Numa pen drive de Rómulo, as autoridades encontraram letras de canções da sua autoria, textos, declarações do seu "estado de alma". Num dos ficheiros estava uma letra autobiográfica, relatando a vida e desígnios pessoais do autor, de uma música intitulada Mopeople (Meu Povo).

Referia a letra que "por amor faz a sua guerra", saúda os seus irmãos (com o sentido de muçulmanos) e que "se deus quiser (insha'Allah) estarão juntos numa nova era a fazer o inimigo sofrer".

O autor dedica a última parte do texto a dois indivíduos, Crebaz Stone e Franky Pain, alcunhas de Celso e de Edgar. Rómulo afirma que os proclamou, que são os únicos que sabem quem realmente ele é e que nunca os abandonou.

As palavras código

Os arguidos utilizavam uma linguagem codificada nas conversas captadas nas escutas das autoridades portuguesas.

- Alone Wolf - Lobo solitário, combatente isolado que prepara e comete actos terroristas.
- Amareloso ou Amarelo - Bilhete de Identidade.
- Bandyboys, Bosses - Expressões usadas quando se referem a Celso e a Edgar Costa.
- Bocuar - Embarcar.
- Bola - Dinheiro ou transferência.
- Boi Negro - Bulgária, juiz.
- Bongófia - Polícia britânica.
- Búfalo - Bulgária.
- Bules - Trabalho, esquema, fonte de receitas.
- Cães - Não muçulmanos, polícia.
- Canuco - Indivíduo mais jovem. Expressão, também, utilizada quando se referem a Ahsan Ali Iqbal.
- Clisman ou Klinsmann- Jogador de futebol alemão Jürgen Klinsmann, referindo-se ao país Alemanha.
- Coiso do beijinho - Visto.
- Cubilhas - Local, casa conhecida.
- Dar um beijinho na boca - Passar a fronteira.
- Discoteca - Síria, zona de conflito.
- Djusu, Judzo, Jutzo, Djuto, Jutsu - Expressões usadas para definir uma coisa, cena ou dissimular uma palavra (ex: porcos djusu).
- Dread - Fulano, gajo, tipo.
- Empresa - Grupo ou organização terrorista.
- Grifar - Viajar.
- Laranjal - Lisboa.
- Lisa - Lisboa.
- Máquina do Tempo - Sistema de controlo do passaporte.
- Middle Man - Facilitador.
- O, Otogar - Estação de camionagem.
- P - Paquistão.
- Pandex dos Dreads - Recrutamento de jovens, tipos, fulanos.
- Pica-pau - Facilitador.
- Picada - Esquema.
- Porcos - Não muçulmanos, apóstatas, que se desviaram do islão.
- Rabinas - Reyhanli, na Turquia, junto à fronteira com a Síria.
- Rei Binas - Reyhanli, na Turquia, junto à fronteira com a Síria.
- Rei Leão - Reyhanli, na Turquia, junto à fronteira com a Síria.
- Sócios do Orochimaru - Polícia britânica.
- Soldadinhos de chumbo - Militares turcos.
- Susana - Síria.
- Tiagão - Turquia.
- Tomás - Turquia.
- Tomoso - Turquia.
- Vermelho, Vermelhôncio, Vermelhoso - Passaporte.
- Virar - Viajar.

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