Rede que fazia entrar droga nas prisões era liderada por um recluso na Guarda e dinheiro era enviado para o Peru
Vinte pessoas, 17 homens e três mulheres, foram detidas pela Polícia Judiciária (PJ) por, de forma organizada, fornecerem estupefacientes para os estabelecimentos prisionais de Guarda, Viseu, Coimbra e Lamego.
Tais ações levaram à detenção sequencial de três homens e uma mulher quanto tentavam introduzir pólen de haxixe transportado no interior do corpo, cocaína dissimulada dentro de um rolo de carne e de drogas sintéticas impregnadas em supostas mensagens de crianças escritas em papel, de acordo com uma nota enviada às redações.
Em causa estão os crimes de tráfico de estupefacientes agravado, associação criminosa, branqueamento de capitais e posse de arma proibida.
Na sequência da investigação identificou-se o grupo completo, constituído pelos agora detidos, apurando-se que também disseminavam tais produtos ilícitos nas comunidades onde residiam, nomeadamente nas cidades da Guarda e Viseu.
O grupo suspeito de fornecimento de droga para os estabelecimentos prisionais era liderado por um recluso da prisão da Guarda que cumpriu pena por tráfico no Peru, disse esta quinta-feira, 13 de agosto, a PJ.
De acordo com esta polícia, o recluso enviava para o Peru “grande parte do dinheiro produto das vendas dentro das cadeias”.
“O comando estava dentro do estabelecimento prisional da Guarda. O mandante é um recluso, que cumpriu pena por tráfico de estupefacientes no Peru, para onde mandava grande parte do dinheiro produto das vendas dentro das cadeias”, revelou o coordenador do Departamento de Investigação Criminal (DIC) da Guarda da Polícia Judiciária, Alexandre Branco, em conferência de imprensa.
Esta operação, denominada “Tranca Segura”, resulta de uma investigação com a colaboração do Corpo de Guardas Prisionais e da Direção do Estabelecimento Prisional da Guarda, que decorre há cerca de um ano, motivada por ações de prevenção na prisão da Guarda, em virtude da deteção e apreensão de estupefacientes lá dentro.
Como resultado deu-se cumprimento a 23 mandados de busca domiciliária e não domiciliária, tendo sido cumpridos 19 mandados de detenção. Foi ainda detido um cidadão, em flagrante delito, por posse de arma proibida.
Paralelamente, foram realizadas buscas nos estabelecimentos prisionais de Guarda, Coimbra e Lamego.
A operação Tranca Segura permitiu apurar o modo de atuação e desmantelar este grupo formado por reclusos e pessoas no exterior, todos com antecedentes criminais por tráfico de estupefacientes.
“Já tinham esta vivência e sabia bem como as polícias atuam. Faziam, inclusivamente, manobras de proteção para tentarem evitar que soubéssemos o que andavam a fazer”.
O coordenador da PJ da Guarda acrescentou que os suspeitos introduziam nas cadeias “pequenas quantidades de droga para que, se fossem intercetados, nunca caírem no tráfico de estupefacientes”.
“Não temos muita droga apreendida, mas apreendemos muito dinheiro para esta dimensão”.
Foram apreendidas cerca de 81 mil euros em dinheiro, 80 doses individuais de heroína, 120 doses de cocaína, sete papéis impregnados com estupefacientes, duas armas de fogo, 71 munições de diverso calibre, incluindo o das armas apreendidas, quatro balanças de precisão, 31 telemóveis e ainda três viaturas.
Alexandre Branco adiantou que “as ordens saíam de dentro da cadeia”.
“Havia pessoas, que iam aos grandes centros populacionais, onde adquiriam a droga, que era entregue a outras pessoas, também só com essa função, que a traziam até à porta dos estabelecimentos prisionais”.
Depois, essa droga era distribuída por visitas, “que não estavam no esquema criminoso”.
“Algumas das quais suspeitamos que tenham atuado, mesmo sabendo do crime que estavam a cometer, com medo que acontecesse algum mal aos seus entes queridos reclusos”, disse Alexandre Branco.
O caso começou a ser investigado há ano e meio depois de uma participação da direção do estabelecimento prisional da Guarda, em abril de 2025.
“Conseguimos evidências desta entrada de droga trazida por visitantes. Era necessário saber como se processava e quem eram e pedimos, mais uma vez, a cooperação da PJ, que durante este ano e meio de investigação chegou a estes bons resultados”, declarou Luís Couto, diretor da prisão da Guarda, na conferência de imprensa.
O responsável assegurou ainda haver “a certeza que não há ninguém que trabalhe no estabelecimento prisional que esteja nesta organização”.
“Recebemos, por ano, praticamente entre 17 a 20 mil visitantes e nem todas as pessoas estão disponíveis para cumprir as regras. Este é um exemplo. Temos muitas dificuldades em controlar tudo e todos. Vamos fazendo, não diria o nosso melhor, mas mais do que o nosso melhor”.
O estabelecimento prisional da Guarda tem cerca de 287 reclusos e 105 profissionais.
Os detidos irão ser presentes ao DIAP da Guarda, cujo inquérito é ali titulado.
