Um ADN de propostas fraturantes e temas esquecidos: o que as jotas dão aos partidos

Os jovens dos partidos organizam-se de formas distintas mas têm um objetivo comum: fazer valer junto dos partidos a que estão ligados os seus pontos de vista. Um código genético que lhes traz tensão com esses partidos

O líder da JS diz que a jota socialista tem uma visão mais progressista que o partido, o presidente da JSD situa-a "historicamente um pouco mais à esquerda" que o PSD, a JCP discute tudo no seio do partido com "uma grande discussão coletiva", a JP assume-se como uma "estrutura autónoma" do CDS e o BE recusa a ideia de que há uma "política dos grandes" e outra dos "pequenos" e não tem uma "jota".

No ADN das juventudes partidárias, há propostas fraturantes ou progressistas, temas esquecidos pelos mais velhos e sempre a vontade de pôr coisas próprias na agenda dos partidos. A JS, por exemplo, fez aprovar no início deste mês de março três moções suas na Comissão Nacional do PS: a regulamentação da prostituição, a legalização e regulação das drogas leves e a limitação de salários de gestores.

O secretário-geral da JS, Ivan Gonçalves, recordou ao DN que a regulamentação da prostituição "já é discutida" na organização "há mais de 15 anos" e não tinha a aceitação que tem agora. "Esse caminho foi feito e passou a constar da nossa agenda e conseguimos que passasse também para o partido - é dessa forma que podemos verter as propostas em alterações legislativas."

Também Simão Ribeiro, presidente da JSD e deputado social-democrata, enumerou várias propostas que, só no seu mandato, chegaram à bancada do PSD por iniciativa sua, como por exemplo a lei do arrendamento jovem; o aumento de apoios sociais a estudantes, "numa bandeira oposta ao ministro Nuno Crato; um projeto contra o abandono escolar; uma "guerra com ordens profissionais", no acesso à profissão, emolumentos das ordens ou estágios não remunerados.

Já Helena Casqueiro, membro do Secretariado e da Comissão Política da JCP, argumentou que a sua organização tem "uma ligação muito própria" ao PCP, sublinhando que o contributo dos militantes mais novos se faz no mesmo quadro dos mais velhos. "Discutimos tudo com o partido", explicou, numa "grande discussão coletiva" sobre "todas as questões que afetam mais a juventude".

Apesar de situar o trabalho da jota "dentro da orientação geral do partido", a jovem comunista reconheceu que "transportam o conhecimento da realidade para o trabalho" do PCP. Com o seu 11.º Congresso no horizonte (será a 1 e 2 de abril, em Setúbal), onde será discutido o projeto de resolução que está em debate na organização, Helena Casqueiro salientou que "tudo o que sair deste congresso reforçará o trabalho do partido".

O líder da Juventude Socialista parece concordar com a dirigente comunista. "Não somos uma estrutura que faz política para jovens, mas somos uma estrutura de jovens que faz política. Temos uma opinião e uma agenda transversais a matérias que dizem respeito aos mais jovens e menos jovens, temos é necessariamente uma forma diferente de ver a sociedade porque temos uma idade diferente", defendeu Ivan Gonçalves. "É a mais valia que podemos introduzir no partido."

À pergunta sobre se as jotas também causam engulhos aos seus partidos, Simão Ribeiro atirou que "faz parte do nosso código genético". Mas refutou críticas. "No partido também há quem olhe, como a generalidade da sociedade para as juventudes partidárias, que acham que são uma escola de crime e de maus exemplos. Eu costumo dizer (em abono de todas) que só quem não compreende o tempo, a dedicação, o número de dias, de meses e de anos, que muitos jovens dedicam à coisa pública e a causas, não entendem a importância das juventudes partidárias. Também na formação política", justificou, ele que tem "a sorte de ter um presidente no PSD especialmente sensível à posição da JSD" - Passos Coelho foi seu líder nos anos 1990.

Os bloquistas afastam-se desta organização. "O Bloco de Esquerda sempre rejeitou uma certa ideia de que existe política dos grandes e política dos pequenos. Nunca criámos uma juventude partidária justamente porque, no Bloco, todos participam nos processos de discussão e decisão", explicou fonte oficial. Apesar dos jovens do BE terem um órgão próprio, a Coordenadora Nacional de Jovens, "que aprofunda os temas relacionados com a juventude", "coordena o seu trabalho com o resto do Bloco".

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