Libertação de ex-líder skinhead Mário Machado só após uma avaliação mental

Psicólogo forense considera que o nacionalista pode ter distúrbios graves de personalidade e diz que qualquer decisão para a sua libertação deve ser antecedida por "rigorosos" exames psicológicos e psiquiátricos

Já esteve preso por racismo, roubo, agressões, sequestro entre outros crimes violentos que lhe fazem ostentar um cadastro de 20 anos. Mas a juíza que segunda-feira o condenou por uma tentativa de extorsão, com ameaça de morte, que cometeu a partir da prisão (dois anos e nove meses), ainda vê em Mário Machado uma "semente de esperança" na sua reabilitação.

A jovem magistrada, aparentemente mais nova do que Machado, de 39 anos, aconselhou-o a manter a defesa dos ideais nacionalistas, mas sem violência: "Lutar, mas no plano das ideias. Não aos socos e pontapés." Mas será possível o ex-líder dos neonazis do Portugal Hammerskins (PHS) mudar?

O professor catedrático de Psicologia Forense, da Universidade do Minho, Rui Abrunhosa Gonçalves, compreende e aprova a atitude da juíza (Filipa Rodrigues), mas adverte que "tendo em conta o seu percurso e conduta revela distúrbios graves de personalidade", logo à partida evidentes no facto de "apesar de estar preso ainda tentar cometer um crime daquela gravidade". Assim, sublinha o psicólogo, "qualquer decisão para a sua libertação deve ser antecedida de rigorosos exames psicológicos e mesmo psiquiátricos. É fundamental". Abrunhosa Gonçalves diz que as avaliações psicológicas que se fazem no sistema prisional nem sempre têm o nível científico exigível em casos como este e questiona "que trabalho foi feito nestes anos todos para a recuperação desta pessoa para que continue a ter estas atitudes?".

Conforme o DN noticiou esta terça-feira, a magistrada Filipa Rodrigues, do Tribunal de Loures, que julgou Mário Machado assinalou em vários momentos da leitura da sentença acreditar que o ex-líder dos cabeças rapadas tinha dado sinais de se estar a esforçar para mudar de conduta. Filipa Rodrigues justificou a decisão de, apesar disso, não o libertar, para que Machado pudesse aproveitar ainda o tempo de prisão para que esse "esforço" se transformasse numa realidade. O psicólogo forense entende que a "lição de vida" dada pela magistrada "faz parte das suas competências, uma vez que o sistema prisional prevê a reabilitação". No entanto, salienta, "é preciso saber o que se pode fazer até à altura da sua libertação".

O investigador Riccardo Marchi, que tem estudado o percurso dos movimentos de extrema-direita em Portugal e Espanha, tem uma análise mais crítica das explicações da magistrada. "Penso que a juíza parte de um princípio errado: a ideia que Mário Machado tenha estruturado uma organização política que utilizava a violência para alcançar objetivos políticos. Esse teorema já tinha sido aplicado ao Movimento de Ação Nacional (MAN) no final dos anos 80, após o homicídio do dirigente do PSR e já na altura não tinha levado a nada, porque de facto não existia nenhuma organização estruturada para a utilização da violência por fins políticos."

Quadro do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, Marchi lembra que "mesmo os dois casos mais mediáticos de crimes violentos cometidos por skinheads - a morte do dirigente do PSR e de Alcindo Monteiro - acontecem em situações bastantes particulares: a pretensão de um grupo de skin de assistir a um concerto na sede do PSR e uma noite de repetidos desacatos no Bairro Alto. Por detrás dos dois eventos não há nenhuma estratégia política, nenhum projeto político, nenhum objetivo político".

O investigador nota que "nos últimos 15 anos, pelo menos", não lhe parece ter visto "um grande uso da violência em defesa de ideais políticos, nem na trajetória de Mário Machado". Nesse sentido considera "a preocupação da juíza sobre a relação violência/política um tanto exagerada, perante o rol de atos de criminalidade comum que teve de julgar". "Tentativa de extorsão! O que tem isso de político?!", interroga.

Para Mário Machado a ligação é uma evidência e não hesita em utilizá-la em sua defesa. Na página do Facebook do novo partido que fundou (Nova Ordem Social) não tem dúvidas quanto à razão do processo pelo qual foi condenado esta segunda-feira. Uma "perseguição política e criminosa pelos inimigos do nacionalismo", diz.

No post em que alega que este inquérito foi "forjado" pelas autoridades com o objetivo de o manter detido, não esconde as suas convicções: "Para mim ser Nacionalista é muito mais do que uma opção política, é um combate pela vida, pela honra, por um futuro para as nossas crianças, e nesse combate exige-se ética e estilo, honra e lealdade, e o que para muitos são chavões para mim são autênticos mandamentos. A minha lealdade está com os meus ideais, acima de tudo e contra tudo."

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