André Ventura demorou a falar, numa noite de eleições presidenciais que o líder parlamentar do seu partido reconhecera “não ter grande história”, porque queria saber se tinha derrotado o seu adversário. Não o que estava no boletim de voto, bem entendido, pois a eleição de António José Seguro para a Presidência nunca esteve em causa neste domingo, após a revelação de projeções que abriam a hipótese de ter 40 pontos percentuais de vantagem na segunda volta das eleições presidenciais, mas sim o primeiro-ministro Luís Montenegro, líder do PSD.Com 33,18% dos votos, quando faltava apurar os votos de sete consulados e das 20 freguesias onde as eleições não decorreram neste domingo, pelos efeitos do mau tempo, André Ventura somou 1.729.381 votos, a cerca de 240 mil dos 1.971.558 obtidos pela AD nas legislativas de 2025, mas acima dos 31,21% que permitiram à coligação entre o PSD e o CDS aumentar para mais de oito pontos percentuais a margem em relação ao segundo partido mais votado, que foi o PS.Quando finalmente se dirigiu aos apoiantes, depois das 22.30, André Ventura realçou o “melhor resultado de sempre”, permitindo ao Chega e a si próprio dizer que “vamos liderar a direita”. Muito aplaudido por quem esperou horas para o ouvir, defendeu que “é justo dizer que os portugueses nos colocaram no caminho para governar este país”.Com mais de 400 mil votos do que os obtidos na primeira volta, num claro indício de que a neutralidade do PSD, CDS e Iniciativa Liberal - com muitos atuais e antigos dirigentes a anunciarem o voto em Seguro, de Cavaco Silva a Marques Mendes e Paulo Portas, passando por Rui Rio, Leonor Beleza e Mariana Leitão - não impediu que parte do eleitorado de centro-direita tenha aderido à candidatura, que repetiu ser “contra tudo e contra todos”, Ventura atirou para segundo plano o facto de ter menos de metade dos votos do seu adversário na segunda volta.Ao contrário do que acontecera há três semanas, o líder do Chega entrou pela garagem do hotel lisboeta em que festejara a passagem à segunda volta, "fintando" jornalistas e apoiantes, e foi através das redes sociais que garantiu aos seguidores que “não vencemos estas eleições presidenciais, mas estamos a fazer História”, referindo-se ao facto de bater o recorde de votos, superando os 1.437.881 que o seu partido conseguiu nas legislativas de 2025.Para os muitos deputados e dirigentes do Chega presentes, que no final da tarde temiam uma votação abaixo dos 30%, o escrutínio acabou por superar expectativas assaz sombrias. Ao reagir às projeções das televisões, pouco depois das oito da noite, o líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, admitira de imediato a derrota na segunda volta das eleições presidenciais. “Achamos que a candidatura de André Ventura merecia mais, mas os resultados são o que são. Cabe-nos aceitá-los e dizer que se perdeu uma oportunidade de mudança”.A primeira reação de Ventura foi à saída da Igreja de São Nicolau, cumprindo a tradição eleitoral de assistir à missa das sete. Além de declarar ter esperança de que Seguro “seja um bom Presidente, porque o país precisa”, repetiu a tese de que superar percentualmente a AD “significaria uma reconfiguração do espaço e liderança da direita”.. Assim manteve no discurso em que, por entre elogios aos emigrantes, onde mantinha vantagem sobre Seguro (51,88%-48,12%) quando faltava apurar sete consulados, fez referência a um "movimento imparável", "da base contra as elites deste sistema", que conduzirá ao que disse ser a mudança em Portugal."O que deve sair desta noite é continuar a luta de um povo inteiro, dos homens e mulheres, jovens comuns deste país, contra as elites que os tentaram destruir", disse, citando o nome do fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro, ao mencionar "o sonho de conseguir uma maioria que não em nome das elites, mas em nome do povo faça a diferença e a mudança"..Lisboa e Porto foram pontos fracos.Entre as votações mais fracas do fundador do Chega na segunda volta destacaram-se as dos distritos de Lisboa, com 29,55% (sem as freguesias de Arruda dos Vinhos) - descendo para 23,09% na capital e para 21,80% em Oeiras - e do Porto, com 29,50%. Pior ainda foi o distrito de Coimbra, no qual não passou de 27,82%. Em sentido inverso, mesmo sem repetir as vitórias da primeira volta, face à transferência de votos de outros candidatos para Seguro, atingiu 44,04% na Madeira, ficando à frente em São Vicente - único dos três municípios em que o Chega conquistou a câmara municipal nas autárquicas em que ficou à frente -, tendo 43,11% no distrito de Faro, 40,11% no de Portalegre e 39,58% no de Santarém, onde ninguém pôde exercer o direito ao voto na Golegã e algumas freguesias de outros concelhos ribatejanos, afetados por inundações..André Ventura superou os votos do Chega nas legislativas de 2025.Luís Montenegro saúda António José Seguro e apela à estabilidade