É preciso recuar quatro décadas, até 1986, para encontrar um dos momentos mais disputados da democracia portuguesa e, por configurar um paralelismo com a atualidade – uma segunda volta nas eleições presidenciais –, esta viagem no tempo é uma oportunidade para lançar alguma luz sobre o que simboliza a ida às urnas no dia 8 de fevereiro. Por este motivo, o DN conversou com o autor João Reis Alves, que, por “impulso”, admitiu, lançou no ano passado o livro intitulado A Segunda Volta - 1986: As eleições que mudaram o país e explicou como, em 2026, nesta segunda volta, o que está em causa é um jogo de forças entre “a total incógnita e total previsibilidade”.Em 1986, nas primeiras eleições presidenciais que significariam o fim do ciclo dos presidentes militares e marcariam a primeira transição democrática plena no cargo, a disputa, na primeira volta aconteceu entre Diogo Freitas do Amaral (apoiado pelo CDS e pelo PSD) que arrecadaria 46,31% dos votos, Mário Soares (apoiado pelo PS), que terminou com 25,43% dos votos, Francisco Salgado Zenha (apoiado pelo PRD, o partido de António Ramalho Eanes, e por algumas forças de esquerda, inclusivamente, no final, pelo PCP, já depois do candidato comunista, Ângelo Veloso, ter desistido), que garantiu 20,88% dos votos, e Maria de Lourdes Pintasilgo, que foi apoiada por alguma esquerda, como movimentos feministas, tendo ficado em quarto lugar com 7,38% dos votos.Sem nenhum dos candidatos a conseguir ter mais de metade dos votos, aconteceu uma segunda volta, decidida entre Freitas do Amaral e Mário Soares. O primeiro, apesar da votação mais expressiva inicialmente, perderia no segundo turno, com 48,82% dos votos. Mário Soares, que venceria a eleição, aglutinou 51,18% dos votos..Desde então, nunca mais aconteceu uma segunda volta na corrida a Belém. Até agora, com um duelo entre António José Seguro e André Ventura.Para recuperar a eleição de 1986, João Reis Alves, além de ter mergulhado em fontes documentais e de ter falado com figuras-chave das eleições de 1986 - como António Vitorino, Proença de Carvalho e José Ribeiro e Castro - partiu da convicção de que as atuais presidenciais desembocariam numa segunda volta, antes de esta acontecer e contrariando leituras excessivamente otimistas das sondagens, que punham Henrique Gouveia e Melo, no início, como vencedor garantido.Assim, se em 1986 a disputa se dava dentro de um quadro estável – com o futuro europeu do país já traçado e as grandes figuras do pós-25 de Abril ainda no centro da vida política –, hoje o cenário é de incerteza, argumenta o autor, acrescentando que “estamos numa crise de lideranças” e “numa fase de homens fracos”.“O PS teve António Costa, mas também desapareceu, porque fez ao PS o que Durão Barroso fez ao PSD. Exilou-se na Europa”, recorda, enquanto afirma que, no caso do CDS, “mesmo que voltasse Paulo Portas, não ia dar força nenhuma” ao partido, enquanto, no que diz respeito a “Luís Montenegro, ainda não sabemos se é uma grande figura do PSD”.“E à esquerda, quem é que há? Mesmo o Louçã voltou como candidato a deputado e caiu por aí baixo”, analisa o autor, enquanto acrescenta à lista de políticos, noutro espectro, André Ventura, na qualidade de “grande figura do Chega”, mas “super instável”.“O que é que André Ventura vai fazer? Sendo Presidente da República e tendo, ao mesmo tempo, um partido que é completamente manietado por ele – porque ele é o partido – com 60 deputados no Parlamento, vai, a partir de Belém, influenciar o que se passa no Parlamento para, ao mesmo tempo, influenciar o que se passa em São Bento? Vai tentar pressionar para que Montenegro caia no PSD? Para, se calhar, vir alguma figura mais próxima de Ventura? Para conseguir fazer uma mudança à Constituição? Para que o Presidente da República tenha mais poderes?”João Reis Alves deixa estas perguntas por responder, mas adverte que “são cenários em cima da mesa de alguém que diz que vai mudar o sistema”, mesmo que “ninguém perceba bem o que é que é o sistema. É a democracia? É o parlamentarismo?”Mais perguntas às quais o autor recorre para explicar que, nestas eleições presidenciais, “a questão central passa a ser muito mais o sistema para Portugal no futuro”.“Agora, como estamos numa fase de grandes mudanças no mundo, não sabemos bem se o sistema que temos é para durar.”Analisando, por outro lado, António José Seguro como “a coisa mais óbvia que um Presidente da República pode ser”, João Reis Alves considera que “estamos numa fase de colocar mais em causa, não candidatos, mas a democracia, em si, e o sistema político em si. O que vamos ser no futuro.”.Presidenciais. Seguro quer menos megaprocessos judiciais e vai zelar pelo secretismo das investigações.Presidenciais: "Sinto-me numa campanha comigo próprio", lamentou André Ventura nas Caldas da Rainha