O secretário-geral adjunto do Ministério da Administração Interna (MAI) demissionário considera essencial assegurar “um modelo de governação transparente” na empresa que gere o SIRESP ao denunciar várias irregularidades e “um episódio suscetível de configurar conflito de interesse”.“Registou-se um episódio suscetível de configurar conflito de interesses. Nos dias que antecederam a sua saída, Carlos Leitão [ex-diretor técnico da empresa] tentou promover a celebração de um contrato de consultoria para acompanhamento da certificação ISO 27001 da SIRESP S.A., a ser prestado por si próprio através de entidade com a qual detinha uma relação familiar direta”, escreve António Pombeiro num email, a que a Lusa teve acesso, enviado a 28 de abril a elementos do gabinete do ministro da Administração Interna e no qual pede pela primeira vez a demissão, que não seria aceite.A celebração do contrato promovida por Carlos Leitão, conta António Pombeiro, foi interrompido por intervenção de Nikeba Fernandes, que ficou no conselho de administração após a saída de Viegas Nunes da presidência da empresa que gere o SIRESP, em março de 2024.Esta situação foi comunicada à tutela em novembro de 2025, tendo sido determinado o envio do processo à Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI), escreve.António Pombeiro aponta no email para uma outra situação relacionada com a contratação do consultor privado Leonel Simões “por ajuste direto” com uma remuneração mensal de 8.400 euros mais IVA, “alegadamente na sequência de uma candidatura espontânea".O secretário-geral adjunto do MAI sublinha que existia “uma relação pessoal próxima entre o referido engenheiro e o brigadeiro-general Viegas Nunes, o que suscitou alegadas dúvidas quanto à transparência do processo”.Pombeiro relembra, no email dirigido à chefe de gabinete do ministro, Joana Araújo, e à adjunta Valentina Marcelino, que Carlos Leitão regressou como coordenador do grupo de trabalho criado pelo Governo para a substituição do SIRESP, designando Leonel Simões como seu assessor, mas, devido a um potencial conflito de interesses, o grupo de trabalho foi interrompido e o seu coordenador foi demitido.Na sequência desta demissão foi nomeado António Pombeiro para coordenador do grupo de trabalho do SIRESP, cujas conclusões foram apresentadas a 05 de maio numa cerimónia em que o secretário-adjunto do MAI esteve ao lado do ministro Luís Neves.Segundo Pombeiro, Carlos Leitão e Leonel Simões pedem a demissão em novembro de 2024 “deixando um conjunto relevante de projetos em curso sem gestão direta”.Dá também conta que Carlos Leitão, no exercício das funções associadas à gestão dos contratos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), foram “identificadas diversas situações anómalas, algumas das quais já haviam sido sinalizadas em auditoria da Inspeção-Geral de Finanças, designadamente no que respeita a procedimentos de contratação e acompanhamento técnico”.“No rescaldo destes factos, considera-se essencial assegurar um modelo de governação transparente e imune a este tipo de condicionantes, garantindo que a gestão das comunicações críticas do Estado se orienta exclusivamente por critérios de interesse público, eficiência operacional e segurança estratégica”, escreve ainda.Neste email enviado a 28 de abril para o MAI, António Pombeiro solicita a sua exoneração e faz referências diretas a Viegas Nunes, nomeadamente de tentar aproximar o SIRESP da esfera das Forças Armadas, além de várias situações que envolveram o ex-diretor técnico da empresa Carlos Leitão.O secretário-geral adjunto demitiu-se do cargo na sexta-feira alegando um conjunto de “graves irregularidades” na gestão da Siresp S.A. durante a presidência de Viegas Nunes, que foi presidente da empresa entre 2022 e 2024 e regressou na segunda-feira à liderança.Pombeiro, que se demitiu do cargo no mesmo dia em que Viegas Nunes foi nomeado para a presidência da empresa, mostra a sua “total indisponibilidade” para continuar no cargo, tendo em conta que “já havia transmitido” ao ministro informações sobre “graves irregularidades” sem que tivesse sido desencadeada qualquer averiguação interna.Na segunda-feira, o ministro da Administração Interna manifestou “absoluta confiança” em Paulo Viegas Nunes na presidência da empresa que gere o SIRESP, sustentando que está “inteiramente alinhado” com o modelo que defende para tornar o sistema robusto.“O ministro da Administração Interna está inteiramente alinhado com o modelo defendido pelo major-general Viegas Nunes de tornar o SIRESP o sistema de comunicações robusto e cada vez menos dependente do setor privado, reforçando, sempre que possível, a cooperação com as Forças Armadas”, referia o gabinete de Luís Neves numa nota, em que rejeita ilegalidades na gestão da rede SIRESP durante a presidência de Viegas Nunes.A rede de comunicações SIRESP tem sido marcada por várias polémicas desde que foi criada, tendo sofrido as maiores alterações após as falhas no combate aos incêndios de 2017, mas voltou a ter limitações no apagão de 2025 e na tempestade Kristin que afetou a região centro no fim de janeiro..Emails contradizem versão do MAI sobre primeiro pedido de demissão do secretário-geral adjunto.Embate inicial no SIRESP com Luís Neves à defesa