O DN entrevistou Rui Tavares, o homem que agora se afasta da liderança do Livre. O coporta-voz cessante traça rotas de crescimento e explana que a missão do partido deve ser contribuir para a ação governativa. Pede "coordenação" ao PS, mas deixa a porta aberta.Que balanço faz dos dois últimos anos no Grupo de Contacto?Foi um período intenso, com eleições regionais na Madeira, Europeias, Presidenciais e Legislativas. Passámos a ser o quinto maior partido, resistimos à hecatombe da esquerda e quintuplicámos os apoiantes [desde 2020], mantendo a saúde financeira. É importante rodar os pontas-de-lança, é decisivo ter outro papel, onde possa desempenhar as minhas qualidades e deixar a quem já faça bem, como a Isabel Mendes Lopes, e possa fazer melhor, como o Jorge Pinto, o que fiz antes. Estamos com quase cinco mil filiados, temos de pensar a médio prazo ter 10 mil.O maior erro nestes anos foi a falta de blindagem de Francisco Paupério nas Europeias?Francisco Paupério fez uma ótima campanha, ficámos a poucos milhares de votos de sermos eleitos. Vimos o PCP e o Bloco de Esquerda com a antiga líder Catarina Martins bem perto. Teremos representação europeia. Esta progressão faz acalentar as esperanças. Podíamos ter ficado à sombra da bananeira com uma estratégia sem grandes novidades para o congresso, mas queremos sair reforçados e ser o quarto partido em Portugal. Estamos em empate técnico com a Iniciativa Liberal e queremos disputar a juventude.Não é utópico falar-se em 10% de votação no Livre em 2029? Vai buscar votos à direita?Os votos têm de ser conquistados da direita para a esquerda, onde foram perdidos. Há alguns anos, a população estava, sociologicamente, à esquerda. Devemos conquistar eleitores em todo o lado. Temos esperança de eleger em Braga, Aveiro, Leiria, Faro, Santarém, além de consolidarmos a representação parlamentar vinda do Porto, de Lisboa e de Setúbal. Nas regiões de baixa densidade queremos mostrar que defendemos transportes públicos ecologistas, agricultura de precisão e apoios às famílias que queiram ir para o interior.Não teme que, ao mostrar disponibilidade para facilitar governo ao PS, o Livre seja prejudicado pelo voto útil?O Livre, como se prova nos atos eleitorais, tem evitado a pressão do voto útil. Cheguei a fazer um desafio a Pedro Nuno Santos de haver um entendimento programático com compromissos comuns, em que no SNS havia garantias de não privatizar, para haver um apoio para a indigitação do primeiro-ministro. Não foi possível. Conversa com José Luís Carneiro sobre essa possibilidade? Tem noção das críticas da oposição neste sentido?A conversa de que somos uma muleta do PS é uma retórica de direita. Temos voz autónoma, não estamos em coligação permanente com ninguém. Não estamos agarrados, nem proibidos de fazer coligações. Respeitamos os outros partidos, certamente o PS, que é de centro-esquerda. Temos uma relação cordial, amistosa, dialogamos bastante, mas era importante mais coordenação. Vejo propostas do Livre em que o PS abstendo-se não viabiliza. Na regulação do jogo online por exemplo, que é incompreensível [a proposta não passaria de qualquer modo por voto contra à direita no Parlamento].Olhando ao líder do PS, acha que haverá forma de uma coligação pré-eleitoral em 2029?Vamos ver. Isso não posso dizer para já porque não está na moção estratégica deste Congresso, que terá a eleição da direção até 2028. Na prática, as eleições serão daqui a três anos, mas ninguém o pode garantir. O Livre deve ter uma estratégia autónoma e analisamos, caso a caso, como fizemos nas autárquicas com PAN, BE e PS. Normal é o Livre ir sozinho a eleições.Exclui candidatar-se como número 1 do Livre em 2029?É uma pergunta ingrata, porque em política, como disse nas presidenciais, não se pode excluir nada. Tenho a intenção de cumprir o mandato de deputado até 2029, como sempre fiz em Portugal e no Parlamento Europeu.Jorge Pinto pode ser prejudicado eleitoralmente por ter sido ‘lançado’ nas presidenciais?Por essa razão certamente que não. A Isabel e o Jorge passam bem a imagem de pensar pela sua cabeça, têm traços bem vincados. Acho que houve muita gente que teve pena de não poder votar no Jorge dado o contexto das presidenciais. As pessoas gostaram da sua franqueza e capacidade nos debates. .Jorge Pinto: "Se a esquerda quer voltar ao poder, PS e Livre têm de estar nessa equação”.Congresso do Livre. Rui Tavares nega afastamento e defende necessidade de novas “caras e vozes” .Visibilidade de Jorge Pinto nas Presidenciais foi pensada pelo Livre e é tida como trunfo eleitoral.Oposições internas acusam liderança bicéfala do Livre de não cumprir estatutos