Gouveia e Melo prepara-se para quebrar o silêncio quanto à segunda volta das eleições presidenciais, e deve anunciar a sua posição até ao final desta semana, antecipando-se à reta final da campanha. No entanto, ao que o DN apurou, só é certo que o almirante que coordenou a taskforce para a vacinação contra a covid-19 exclui apelar ao voto em André Ventura, com quem almoçou durante o verão, quando o líder do Chega punha a hipótese de o apoiar, em vez de reentrar na corrida ao Palácio de Belém. Mas o candidato que foi o quarto mais votado na primeira volta estará ainda a ponderar as vantagens e desvantagens de se juntar à abrangente vaga de apoios a António José Seguro.Com alguns dos seus apoiantes a defenderem abertamente que o candidato apoiado pelo PS será um mal menor, visto que a alternativa é André Ventura, cujo discurso e propostas chocam de frente com o objetivo de “unir verdadeiramente Portugal”, Gouveia e Melo estará tentado a fazer uma indicação no mesmo sentido. Assumindo-se politicamente como centrista, nem sequer seria um dos apoiantes de Seguro mais à direita. E teria os antecedentes do também derrotado Marques Mendes, que no final da semana passada admitiu o voto no único candidato “que se aproxima dos valores que defendo”, ou até de João Cotrim de Figueiredo, terceiro mais votado na primeira volta. O eurodeputado da Iniciativa Liberal começou por dizer que não teria qualquer preferência, face à “péssima escolha” que se coloca aos portugueses na segunda volta. Mas veio agora esclarecer que não votará em branco, e que prefere ver Portugal “parado” do que “a voltar para trás”, sinalizando que também acabará por votar em António José Seguro, que aparece muito destacado nas sondagens, com intenções de voto na ordem dos 70%. Quanto ao próprio Gouveia e Melo, tudo o que disse na noite da primeira volta, em que o seu quarto lugar confirmou as sondagens reveladas nas semanas anteriores, levando-o a questionar se esses estudos de opinião eram “causa ou consequência” da sua derrota, foi que era ainda era prematuro dar uma indicação aos seus eleitores, que acabaram por ser 695.244. Mas deixou claro que iria “reservar isso para outro momento”, que acontecerá nesta semana.Entre os apoiantes de Gouveia e Melo, tão pouco homogéneos quanto vão do antigo presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, ao ex-ministro da Saúde Correia de Campos, que integrou governos socialista de António Guterres e José Sócrates, não há muitas interseções com grupos como os signatários da carta aberta Não-Socialistas por Seguro. Apenas cinco dos seus 250 subscritores iniciais constam do rol oficial de apoiantes do almirante: os sociais-democratas António Capucho e Carlos Carreiras (ambos ex-presidentes da Câmara de Cascais), a constitucionalista Teresa Violante e ainda Catarina Santos Cunha, ex-vereadora da Câmara do Porto, e Augusta Aguiar, ex-secretária regional da Madeira para a Inclusão Social e Cidadania.E, ainda que alguns apoiantes mediáticos da sua candidatura tenham dito que, com maior ou menor entusiasmo, irão contribuir para a previsível eleição de António José Seguro para a Presidência da República - no caso de Francisco Rodrigues dos Santos, antecessor do “neutral” Nuno Melo na presidência do CDS, o anúncio foi feito em direto, na CNN Portugal, durante a transmissão da noite eleitoral da primeira volta -, também há quem espere que o seu candidato se mantenha equidistante.Tal como o ex-ministro social-democrata Ângelo Correia, que disse não ter preferência entre André Ventura e António José Seguro, na medida em que não vê o seu espaço político representado - o mesmo argumento que foi avançado, logo na noite da primeira volta, pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, na qualidade de presidente do PSD -, também André Pardal, ex-deputado e atual conselheiro nacional do PSD, espera que Gouveia e Melo não apoie ninguém e que “obviamente se distancie de Ventura”.“O meu candidato não passou à segunda volta e o meu projeto político não vingou”, diz o advogado, para quem tudo aquilo que o separa de Ventura não anula que Seguro “seja um candidato que não merece confiança”. E cujos apoios no centro-direita vêm, em sua opinião, de “pessoas que não estão a prestar um bom serviço ao seu espaço político”. No sentido em que acabam por beneficiar a estratégia do líder do Chega.Igualmente apoiante de Gouveia e Melo, o CEO do Taguspark, Eduardo Baptista Correia, vai um pouco mais longe na recomendação de que o antigo chefe do Estado-Maior da Armada mantenha distância em relação ao duelo da segunda volta. Eduardo Baptista Correia revela que no dia 8 de fevereiro planeia “ir ver arte para Bolonha”, colocando milhares de quilómetros de distância entre si e as eleições presidenciais: “Enquanto português que adora o seu país, e que ativamente se preocupa com ele há décadas, nem sequer quero olhar para aquele boletim de voto.” .Votação uniforme e abaixo das expectativas iniciais.Quarto candidato mais votado na primeira volta das presidenciais, com 695.244 eleitores (12,32%) a verem-no como mais qualificado para suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, Henrique Gouveia e Melo ficou atrás de António José Seguro, André Ventura e João Cotrim de Figueiredo. E das expectativas que alimentava quando se lançou na política, passando à reserva ao terminar o mandato de chefe do Estado-Maior da Armada, culminando 45 anos de vida militar, durante os quais se tornou uma das figuras mais populares de Portugal, ao coordenar a taskforce para a vacinação contra a covid-19. Aparecendo com valores acima dos 30% em todas as sondagens realizadas até ao início do verão, Gouveia e Melo começou a ter sinais de erosão eleitoral à medida que se confirmava a entrada em cena de outros candidatos. E não teve desempenhos convincentes nos debates televisivos, embora exista o consenso de que foi eficaz a questionar as atividades profissionais de Marques Mendes, fazendo afundar as ambições presidenciais do candidato apoiado pela AD, que veio a superar nas urnas.A votação em Gouveia e Melo foi muito homogénea no território continental, oscilando entre os 10,75% no distrito de Braga e os 13,66% no distrito de Setúbal. Foi o terceiro mais votado em Castelo Branco, Portalegre e Beja, descendo para quinto em Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Viseu, Açores e Madeira, sendo nas regiões autónomas e na emigração que obteve os piores resultados, respetivamente 10,47%, 8,11% e 5,23%. No que toca aos maiores centros urbanos, destacou-se em Oeiras. Foi o terceiro mais votado, com 14,72%, num município que é presidido pelo seu apoiante Isaltino Morais..Apoiantes do almirante divergem quanto à segunda volta.Com SeguroSem surpresa, tendo em conta a má relação recíproca com André Ventura, Isaltino Morais revelou que votará em António José Seguro na segunda volta. O presidente da Câmara de Oeiras, que se refere ao líder do Chega como “andrezito” em vídeos que partilha no TikTok, é um dos apoiantes de Gouveia e Melo que votarão no antigo secretário-geral do PS. Tal como os sociais-democratas Carlos Carreiras e António Capucho, o ex-líder do CDS Francisco Rodrigues dos Santos e a constitucionalista Teresa Violante.Sem preferênciaTem sido notado o silêncio de Rui Rio, antigo líder do PSD, que foi mandatário nacional do candidato independente. Mas não faltam apoiantes de Gouveia e Melo a deixar bem claro que não tomam partido por qualquer intervenientes na segunda volta, visto que nenhum deles representa o seu espaço político. É o caso dos sociais-democratas André Pardal e Ângelo Correia, ou do CEO do Taguspark, Eduardo Baptista Correia.Com VenturaO discurso de Gouveia e Melo contra os extremos e os radicalismos torna pouco provável a transferência de votos para o candidato apoiado pelo Chega, mas existem pelo menos dois casos em que isso vai suceder. A ex-bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, que participou em ações de campanha do almirante, destacando o papel do candidato à Presidência da República na pandemia, recorreu às redes sociais para declarar apoio ao seu amigo André Ventura na segunda volta. Da mesma forma, a líder da Nova Direita, Ossanda Liber, anunciou que, depois de ter votado em Gouveia e Melo na primeira volta, o fará agora no líder do Chega..Presidenciais: estão abertas as inscrições para o voto antecipado. Quem, quando, como e onde pode votar?.Presidenciais: Montenegro reitera que não vai apoiar nenhum candidato porque está focado em governar