Foi em São Bartolomeu de Messines, vila algarvia do concelho de Silves que há mais de duas décadas foi notícia quando desconhecidos fizeram telefonemas para dezenas de mulheres, convencendo-as de que o Serviço Nacional de Saúde estaria a oferecer “mamografias por satélite”, que André Ventura revelou que iria pedir o adiamento da segunda volta das eleições presidenciais. Perante cerca de uma centena de autarcas eleitos pelo Chega, convocados à última hora para debaterem planos de proteção civil num almoço de trabalho, Ventura só não apanhou a plateia tão de surpresa quanto os messinenses que, no distante ano de 2002, viram vizinhas assomarem-se a janelas e varandas, de corpo descoberto, para o suposto procedimento de despistagem de problemas oncológicos, pois a notícia que veio marcar o provável penúltimo da campanha eleitoral fora avançada minutos antes pela SIC. Terminada a refeição, quando subiu ao palanque da Casa de Pasto O Petisco, ornamentado apenas com a bandeira nacional, uma cadeira de plástico e uma mesa de apoio, além do fundo verde com os dizeres “Portugueses Primeiro” e “Ventura Presidente”, o candidato não demorou a explicar ao que vinha. “Como é que podemos votar tranquilamente sabendo que, em Leiria ou em Alcácer do Sal, as pessoas estão sem casa? Vou propor ao outro candidato, ao Presidente da República e aos vários poderes municipais, adiar o ato eleitoral por uma semana”, disse, defendendo que, na atual conjuntura, “a última preocupação das pessoas são os votos”.Para o candidato que obteve 23,52% na primeira volta, e que a sondagem DN/Aximage indica ter 35,1 pontos de desvantagem em relação a Seguro, a conjugação dos efeitos das depressões Kristin, Joseph e Leonardo é “uma das maiores catástrofes da História de Portugal” e torna necessário “pormos os cidadãos à frente de qualquer cálculo político”.Apresentando o adiamento da segunda volta na totalidade do território nacional como “uma questão de igualdade”, Ventura antecipou a previsível tempestade de argumentos contrários. “Há muita gente deslocada para os concelhos afetados, para ajudar os outros, que também não vão conseguir votar”, disse, responsabilizando o seu adversário na corrida ao Palácio de Belém. “Para evitar qualquer perturbação da democracia, isto deve ser feito entre os dois candidatos também”, desafiou, ainda sem saber que ficaria sem resposta.Hora e meia antes, quando saiu do automóvel, nada fazia supor que André Ventura iria voltar a revolucionar o registo da sua campanha presidencial, alterada na forma e no conteúdo a partir do momento em que a destruição causada pelo mau tempo o levou a centrar-se muito mais na denúncia do que disse ser a falha na prevenção e a ineficácia na resposta do Governo do que nos ataques à “falta de ideias” do seu adversário eleitoral. Tinha à espera alguns dos mais destacados deputados do seu partido. Lá estava, no restaurante, com o parque repleto de automóveis, e muitos outros estacionados nas bermas da Estrada dos Campilhos, o líder parlamentar Pedro Pinto, cabeça de lista pelo Círculo de Faro, e ainda Rui Paulo Sousa, Pedro Frazão, Patrícia Carvalho e João Graça. E Rita Matias, a encabeçar o contingente da Juventude Chega, sempre muito presente no apoio ao líder, tal como os seus colegas de bancada Madalena Cordeiro, Ricardo Reis e Rui Cardoso.. “Já cá vim a muitos casamentos e a muitas festas”, comentara, minutos antes, uma das convocadas para o almoço que tinha na ementa carne de porco e na agenda, em vez da anunciada discussão de planos de emergência em situações de calamidade, a tentativa de adiar a segunda volta para 15 de fevereiro. Entre muitos vereadores, deputados municipais e presidentes de juntas de freguesias, faltou Rui Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, que tinha outro compromisso agendado. O ex-deputado do PSD garantiu uma das três vitórias do seu novo partido em outubro de 2025, juntamente com Entroncamento e São Vicente, na Madeira, onde Ventura foi o mais votado na primeira volta das eleições presidenciais, tal como sucedeu no distrito de Faro. Feita a defesa do adiamento do ato eleitoral, mas também anunciado que o grupo parlamentar do Chega irá propor nesta sexta-feira um “regime penal especial”, pois quem tira partido da destruição causada pelo mau tempo para fazer assaltos “tem mesmo de ir para a prisão”, e criticada a intenção de Marcelo Rebelo de Sousa visitar Espanha neste sábado - mais tarde, comunicou que o Presidente da República voltara atrás na intenção -, quando “temos de estar ao lado das populações, em vez de andarmos em deslocações ao estrangeiro”, Ventura ouviu perguntas dos autarcas algarvios.A Dário Valente, presidente da Junta de Freguesia da Conceição de Faro, prometeu que, enquanto Presidente da República, vai “exigir resultados e consequências ao Governo” quanto à adiada construção do Hospital Central do Algarve, ouvindo logo a seguir José Paulo Sousa, vereador da Câmara de Silves, dizer que ainda não tem médico de família, embora resida na região desde o início do século. Por seu lado, Sandra Castro, deputada municipal em Loulé, realçou que o Algarve tem um quinto dos crimes de violência doméstica, levando o candidato presidencial a responder que é necessária uma mudança cultural, mas também o fim da impunidade de “99% dos agressores estarem em liberdade” e da “tolerância da esquerda com culturas que vêm de fora e que menorizam as mulheres”, deixando a interrogação: “Alguma mulher quer andar de burca por sua livre escolha?”Perguntas de outros autarcas do Chega serviram para renovar críticas à ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, e ao SIRESP, que falha “repetida e comprovadamente” nas situações de emergência em que é necessário. E, perante mais uma morte na sequência do mau tempo, perguntou “quem ajudará as pessoas a reconstruírem os seus telhados”. Pouco depois, ao seguir viagem, ouviu da dirigente distrital que fora mestre de cerimónias, que se trata de “um candidato à séria, em quem o voto é seguro”.. “Questão de consciência”.Para o fim do dia de campanha, em meia hora de viagem que não bastou para conseguir chegar à fala com Marcelo Rebelo de Sousa ou António José Seguro, ficou a reunião com Afonso Nascimento, presidente da Ascal - Associação de Criadores de Gado do Algarve, em Odiáxere, no concelho de Lagos. Ventura tirou muitas notas das queixas dos empresários, realçou as iniciativas do grupo parlamentar do Chega em defesa da agricultura e da pecuária e prometeu empenho se vier a ser eleito Presidente da República. Acompanhado pelos deputados Pedro Pinto, Pedro Frazão, Rui Paulo Sousa, Patrícia Carvalho e João Graça, tal como pelo mandatário nacional Tinoco de Faria, o candidato agradeceu as informações recebidas.À saída, numa altura em que a Comissão Nacional de Eleições excluíra a hipótese de um adiamento da segunda volta das eleições presidenciais na totalidade do país, Ventura disse que a indisponibilidade de António José Seguro para aceitar a sua proposta “é uma questão que fica com a consciência de cada um”. E repetiu que, estando dezenas de municípios em estado de calamidade - que foi prolongada precisamente até 15 de fevereiro pelo Governo - e havendo previsões de agravamento das condições meteorológicas, abrangendo a data das eleições, “quem nestas circunstâncias pensa em votos e em eleições sinceramente não está a fazer bem o seu trabalho, que é de se preocupar essencialmente com o povo português”.“O IPMA está a a dizer às pessoas para não saírem de casa e nós estamos a dizer às pessoas para irem votar”, insistiu, respondendo “bom senso” à falta de enquadramento daquilo que propôs na legislação eleitoral. “Eu e António José Seguro fomos os mais votados, estamos na segunda volta e ninguém nos vai tirar isso”, disse, admitindo que a declaração do estado de emergência poderia ser uma solução.Garantindo que não pretende “ser eleito com 10% ou 15% dos votos”, Ventura previu que a participação eleitoral possa descer abaixo de 20%. “É isto o que queremos para a nossa democracia?”, interrogou-se, colocando hipóteses como um acordo para a Associação Nacional de Municípios Portugueses fazer “uma espécie de declaração de calamidade” em todos os concelhos. “Não digam que não há solução. O que não é solução é fingirmos que as próximas horas não vão ser terríveis para o país e que as pessoas não estão a sofrer.”.CNE esclarece que não é possível adiamento geral da segunda volta das Presidenciais. O que diz a lei.Seguro categórico sobre o pedido de adiamento das Presidenciais: "Eleições devem realizar-se"