As eleições presidenciais são valorizadas sobretudo pelos eleitores que menos acompanham a política e que votam de forma irregular - um resultado que contraria a ideia de que um maior interesse político conduz necessariamente a um maior envolvimento eleitoral. O dado, avançado pelos politólogos João Cancela e José Santana Pereira no estudo Abstenção Eleitoral em Portugal: Mecanismos, Impactos e Soluções, publicado em setembro de 2025 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, mostra que são os abstencionistas e os votantes intermitentes quem mais tende a atribuir importância às presidenciais, possivelmente devido ao seu carácter mais personalizado. Já os eleitores assíduos continuam a eleger as legislativas como o momento central da democracia representativa, conforme sublinha ao DN João Cancela, valorizando a forma como diferentes perfis de eleitores valorizam distintos atos eleitorais. Segundo o investigador, os chamados eleitores intermitentes - cidadãos que não votam de forma consistente em todos os atos eleitorais - tendem a atribuir maior importância às presidenciais quando comparadas com as legislativas. Já os eleitores mais assíduos identificam as eleições para a Assembleia da República como o momento central da decisão democrática. Uma das explicações avançadas prende-se com a natureza do cargo em disputa: “Talvez porque são eleições onde há mais personalização”. A centralidade das figuras individuais, em detrimento da competição partidária, parece funcionar como um fator de mobilização para segmentos do eleitorado menos atentos à política quotidiana. Os dados do estudo confirmam essa leitura. Apenas 9% dos inquiridos consideram que as eleições presidenciais são aquelas com maior impacto direto na sua vida. Ainda assim, essa perceção é significativamente mais frequente entre abstencionistas e votantes intermitentes (16%) do que entre eleitores regulares (6%). Para os investigadores, isto indica que, enquanto os cidadãos politicamente mais envolvidos encaram as legislativas como o principal mecanismo de escolha e responsabilização política, os menos mobilizados encontram nas presidenciais um ponto de contacto mais acessível com o sistema democrático. Do ponto de vista sociológico, as diferenças não se explicam sobretudo por estratos sociais. “Não encontrámos diferenças expressivas”, assinala João Cancela, ressalvando, contudo, dois fatores relevantes: a regularidade do voto e a idade. “Os eleitores mais jovens tendem a considerar as presidenciais mais importantes, possivelmente pelo mesmo facto - serem mais personalizáveis”. Paradoxalmente, são também os mais jovens que apresentam níveis de participação substancialmente mais baixos, ao passo que os cidadãos com 66 ou mais anos revelam uma propensão claramente superior para votar sempre neste tipo de eleições e uma menor incidência de abstenção persistente.A competitividade eleitoral surge como outro fator decisivo. Eleições sem Presidente em funções candidato tendem a gerar níveis de mobilização superiores, enquanto recandidaturas com resultados previsíveis estão associadas a taxas mais elevadas de abstenção. No caso de 2021, este efeito foi agravado por um contexto pandémico particularmente adverso à participação presencial.Mais participação no litoral e áreas urbanas, menos no Interior A geografia eleitoral reforça tendências conhecidas. Tal como nas legislativas, a participação é mais elevada nas áreas urbanas e no litoral, enquanto o interior, as zonas menos densamente povoadas e as Regiões Autónomas — em particular os Açores — registam níveis mais baixos de votação. As desigualdades sociais continuam igualmente a pesar: eleitores de classes sociais mais baixas e cidadãos sem ensino superior votam menos em presidenciais, enquanto as diferenças de participação por género são estatisticamente pouco relevantes. Entre os fatores práticos, a distância ao local de voto mantém um impacto significativo. O estudo mostra que 79% dos eleitores que residem a menos de cinco minutos das urnas dizem votar sempre, valor que desce para 46% entre aqueles que vivem a mais de 30 minutos de distância. Para os autores, este dado ilustra como barreiras aparentemente menores podem produzir efeitos expressivos na participação eleitoral. À medida que Portugal entra em contagem decrescente para a sua 11.ª eleição presidencial em democracia, os dados mais recentes revelam um paradoxo persistente: embora o Presidente da República continue a ser uma das figuras políticas mais reconhecidas e personalizadas do sistema político português, as eleições presidenciais têm registado, nas últimas décadas, uma trajetória continuada de queda da participação. O declínio da participação e Santarém como padrão O retrato de longo prazo, traçado com base nos dados da Pordata, é preocupante. Desde a década de 1990, a participação nas eleições presidenciais tem vindo a diminuir de forma consistente. Se nas primeiras eleições democráticas os níveis oficiais de participação variavam entre 75% (1976) e 84% (1980), o valor mais elevado após 1991 foi registado em 1996 (66%). Em 2021, atingiu-se um mínimo histórico de 39%. Os dados alertam, contudo, para as limitações das taxas oficiais, fortemente influenciadas pelo alargamento do recenseamento aos emigrantes após a revisão constitucional de 1997. Em 2021, embora a participação global tenha sido de 39%, entre os recenseados em território nacional situou-se nos 45%. Uma estimativa ajustada aponta para uma participação real próxima dos 51%. Os dados permitem enquadrar estes fenómenos numa perspetiva histórica mais ampla. Em 50 anos de democracia, Portugal realizou 10 eleições presidenciais. Entre 1976 e 2021, o número de eleitores em território nacional aumentou 44%, crescimento que sobe para 70% se forem incluídos os círculos do estrangeiro. Todos os Presidentes eleitos para um primeiro mandato foram reconduzidos. As eleições mais disputadas ocorreram em 1986, quando Mário Soares venceu Freitas do Amaral por uma margem de pouco mais de 150 mil votos. Em quase todas as reeleições presidenciais, a abstenção aumentou, com exceção das eleições de 1976 e 1980. Apesar disso, os Presidentes reeleitos — à exceção de Ramalho Eanes — obtiveram sempre uma percentagem superior de votos válidos no segundo mandato. Nas eleições presidenciais, o padrão de votos do distrito de Santarém esteve sempre próximo da votação nacional - nas 10 eleições realizadas, o desvio percentual de qualquer candidato foi sempre inferior a cinco pontos percentuais. O mesmo aconteceu com os distritos do Porto e de Castelo Branco em oito eleições. Em sentido inverso, o distrito de Beja apresentou sempre um padrão de votação muito distinto do nacional, com diferenças superiores a dez pontos percentuais, de acordo com a base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos. De regresso ao estudo de João Cancela e José Santana Pereira, a conclusão central é clara: a abstenção não é um fenómeno homogéneo, mas o resultado combinado de desigualdades sociais, obstáculos materiais e atitudes políticas diferenciadas. O dever cívico surge como a motivação mais consistente para votar, funcionando como proteção contra o desinteresse e as dificuldades logísticas. Em contrapartida, o afastamento da política continua a penalizar sobretudo os mais jovens, os menos escolarizados e os cidadãos de classes sociais mais baixas. Perante este diagnóstico, os autores defendem medidas orientadas para o reforço da participação eleitoral, como o investimento na educação para a cidadania desde os primeiros ciclos de ensino e a expansão do voto em mobilidade. Ficam de fora soluções mais controversas, como o voto obrigatório ou o voto online. Num contexto de declínio persistente da participação, as eleições presidenciais continuam, assim, a expor de forma particularmente nítida as tensões entre personalização, envolvimento cívico e desigualdade democrática em Portugal. O estudo combina métodos quantitativos e qualitativos, incluindo um inquérito a 2.405 eleitores — amostra representativa da população — aplicado entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022, seis focus groups com abstencionistas e votantes intermitentes e três encontros com representantes políticos..Seguro afasta euforia das sondagens. Cotrim assume que teve dia "particularmente difícil".Defesa. Ameaças de Trump fazem candidatos presidenciais pedir autonomia europeia