O Parlamento chumbou esta sexta-feira, 3 de julho, o decreto da Assembleia da República que previa "a pena acessória de perda da nacionalidade" para quem comete crimes, vetada antes pelo ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e que mereceu dois pareceres de inconstitucionalidade por parte do Tribunal Constitucional. Enquanto a esquerda considerou o diploma uma "inutilidade", porque não iria evitar crimes, para além de não haver precedentes, direita e Governo insistem em questões de segurança nacional.Na votação, a confirmação do decreto teve 152 votos contra, provenientes dos deputados das bancadas do PSD, PS, Iniciativa Liberal, Livre, PCP, Bloco de Esquerda, PAN e JPP. O decreto apenas reuniu o apoio dos deputados das bancadas do Chega e do CDS, num total de 56 votos a favor.Numa intervenção que abriu o plenário desta sexta-feira, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, vincou que "praticar crimes gravíssimos, aterrorizantes, que rompem laços cívicos com o Estado e a comunidade nacional" deve implicar a perda de nacionalidade, acrescentando que esta iniciativa é "consequente perante comportamentos que revelam não apenas agressão das pessoas e desrespeito das nossas leis, mas uma rejeição da própria comunidade, uma ação violenta para a destruição do Estado que em algum momento a pessoa disse que queria integrar"."A nacionalidade tem que ser a confirmação da pertença plena à nossa comunidade política. O que hoje discutimos é um passo adicional, acessório e, reconheçamos, que se estima de ser de rara aplicação", explicou o ministro, antes de defender que "não podemos ter um Estado de mãos atadas perante situações de limite". Leitão Amaro considerou ainda que aquilo que estava a ser proposto era "razoável, necessário", para além de acautelar "as preocupações do Tribunal Constitucional".O diploma discutido, que, de acordo com Leitão Amaro, acomodava as preocupações do Tribunal Constitucional, previa a perda de nacionalidade para quem cometesse os crimes de homicídio qualificado, escravidão, tráfico de pessoas, violação, abuso sexual, e "infrações relacionadas com um grupo terrorista" ou "infrações relacionadas com atividades terroristas e ao financiamento do terrorismo" e associação criminosa relacionada com os crimes referidos. Por outro lado, o documento também prevê a reobtenção de nacionalidade depois de um período compreendido entre 10 e 25 anos, dependendo do crime cometido.André Ventura reivindicou a perda de nacionalidade como “princípio” e como resultado direto das negociações entre o Chega e o PSD na revisão da Lei da Nacionalidade. O líder do Chega afirmou que quem obtém nacionalidade portuguesa e comete crimes graves “não merece ser português”, acusando o PS de ter transformado a nacionalidade num “passaporte vendido no mercado da Índia ou do Bangladesh”. Ventura criticou ainda o PSD por ter retirado crimes como tráfico de pessoas, escravidão e associação criminosa, acusando os sociais‑democratas de tentarem “agradar à esquerda” e de recuarem perante a pressão política.O líder do Chega defendeu que países europeus avançados já aplicam a perda de nacionalidade e que Portugal deve seguir o mesmo caminho. “Quem vem para Portugal ou cumpre as nossas regras, ou não é português", afirmou, reforçando com a ideia de que a medida é essencial para responder ao aumento de crimes como tráfico de seres humanos, que disse ter crescido “mais de 300% nos últimos anos”. Para o Chega, recuar agora seria “dizer aos gangues que estão certos”.Com o PSD isolado na defesa da reconfirmação e com o Chega a pressionar para manter o diploma original, o debate terminou sem sinais de convergência.O deputado do PSD António Rodrigues defendeu que está a cumprir “um desígnio constitucional nunca regulamentado em 50 anos”, argumentando que a Constituição prevê a perda de nacionalidade em circunstâncias excecionais e que o novo texto respeita os limites impostos pelo Tribunal Constitucional. António Rodrigues sublinhou que a proposta foi “adaptada” para evitar colisões com a jurisprudência, insistindo que há crimes “de caráter aterrorizante” que justificam uma resposta penal adicional. No entanto, a deputada do PS Isabel Moreira acusou os sociais‑democratas de seguirem “a retórica da extrema‑direita”, lembrando que a perda de nacionalidade “não resolve nenhum problema de segurança” e cria uma distinção inaceitável entre portugueses originários e naturalizados."Há derrotas políticas que resultam de divergências. E há derrotas políticas que resultam da arrogância. E esta é uma derrota da arrogância, da vossa arrogância", sustentou a deputada socialista, acusando a direitade nunca ter tidocomo objetivo legislar bem, mas "produzir títulos de jornal". "Foi transformar um tema constitucionalmente complexo numa operação de propaganda política. E quando se legisla para manchetes, acaba-se a legislar contra a Constituição", concluiu.O deputado da IL Jorge Miguel Teixeira, por seu lado, centrou a intervenção mais na política de imigração do que na nacionalidade. O partido recordou que sempre teve reservas ao diploma e que o Tribunal Constitucional confirmou essas dúvidas, mas aproveitou o debate para criticar a estratégia seguida pelo PS na área migratória, acusando-o de incoerência e de falta de visão estrutural. Com este cenário,o deputado liberal apontou como consequências da governação socialista uma "Segurança Social que não é sustentável com esta demografia" e a necessidade de "aumentar a produtividade da economia portuguesa".A IL sublinhou que a discussão sobre perda de nacionalidade não deve servir para mascarar problemas mais profundos na gestão das entradas, regularização e integração de imigrantes, deixando claro que não acompanhará a reconfirmação do decreto.O deputado único do BE, Fabian Figueiredo, observou que "o que está em causa não é a adequação da nossa lei aos problemas que o país tem, mas a adequação do PSD à retórica da extrema-direita", acrescentando, numa alusão ao esquema tornado público do grupo extremista de direita Movimento Armilar Lusitano, que "temos crimes que ameaçam a segurança do Estado, a segurança do primeiro-ministro, a segurança de grupos". No entanto, "a perda de nacionalidade não resolveria nenhum deles, não devolveria a tranquilidade pública", considerou."Nós garantimos a tranquilidade pública com polícia com meios, articulação entre serviços e uma lei penal adequada à realidade", afirmou.A líder parlamentar do PCP, Paula Santos, falou numa “inconstitucionalidade grosseira e sem remédio”, alertando que mesmo uma eventual reconfirmação não obrigaria o Presidente da República a promulgar o decreto e que os tribunais teriam o dever constitucional de não o aplicar. "Se esta enormidade fosse publicada como lei, não evitaria um único crime que fosse, e ninguém no seu perfeito juízo pensa que algum criminoso com dupla nacionalidade deixasse de cometer algum crime porque em vez de ter duas nacionalidades ficasse apenas com uma", descreveu a deputada comunista, acusando o Chega de querer "confirmar um decreto que foi vetado por ter sido declarado inconstitucional".A deputada do PAN, Inês de Sousa Real, afirmou que o Tribunal Constitucional foi “bastante claro e inequívoco” ao declarar a inconstitucionalidade do decreto, sublinhando que não está em causa “uma mera técnica legislativa”, mas sim “claros equívocos” na tentativa de transformar “algo que é inconstitucional em constitucional”. A deputada do PAN considerou ainda que o objetivo político da iniciativa éum ataque aos imigrantes. “O que os senhores deputados querem discutir é claramente afetar o direito à nacionalidade por parte de outros cidadãos, nomeadamente os imigrantes.” Por isso, concluiu, o PAN não acompanha “uma técnica legislativa que nos parece errada” e rejeita “um pressuposto absolutamente errado nesta teimosia”.O deputado do JPP, Filipe Sousa, sublinhou que a perda de nacionalidade é “uma matéria muito séria” que não pode ser transformada “em bandeira fácil de combate político”. Defendeu que crimes graves – como homicídio qualificado, tráfico de pessoas, violação, terrorismo ou crimes contra a segurança do Estado – devem ter “resposta firme” e penas “proporcionais e efetivas”, mas rejeitou que a nacionalidade seja tratada como “um instrumento de espetáculo penal”..AD vai insistir na perda de nacionalidade como sanção acessória mas para menos crimes.Ventura anuncia voto contra alterações do PSD sobre perda de nacionalidade e lei das burcas .Novo estatuto do apátrida aprovado em votação final apenas com a oposição do Chega.Parlamento rejeita fim do pagamento de subvenções vitalícias e antecipação da idade da reforma