O Congresso do Livre, de 10 a 12 de julho em Sintra, decidirá os titulares dos cargos do partido para os próximos dois anos. A maior novidade na Lista A, que tem dez dos 15 eleitos do atual Grupo de Contacto (a direção do partido), é o recuo de Rui Tavares para número 3. Assim, a lista que tem comandado os destinos do Livre aponta Isabel Mendes Lopes para um terceiro e último mandato como porta-voz e Jorge Pinto para ladear a também deputada na liderança bicéfala do partido, substituindo Tavares. Em oposição estarão as Listas S e V (antigas listas B e C), encabeçadas, respetivamente, por Rodrigo Brito e Tiago Mota. O primeiro é professor do ensino secundário e doutorado em Psicologia, o segundo mestre em Ciências Cognitivas e professor no Instituto Piaget, em Almada.Ao DN, Patrícia Robalo, oitava da Lista S, depois de ter representado a oposição no Grupo de Contacto nos dois últimos mandatos, e Tiago Mota elencaram as principais críticas à condução do partido. “Em 2022, avançámos com uma lista de oposição. Víamos falta de iniciativa da Assembleia e de dinâmicas após a rotura com a nossa primeira deputada na Assembleia da República, Joacine Katar-Moreira. Desde aí, houve uma centralização que vai contra a ideia de um partido aberto”, principia Patrícia Robalo, cabeça de lista em 2022. Natércia Lopes liderou o movimento em 2024 e Robalo fez parte do núcleo de três dirigentes da oposição interna eleitos. Agora é oitava na sua lista e só retomará mandato no órgão diretivo se a sua lista for maioritária. “É uma forma de mostrar que é preciso rotação e que ninguém deve estar agarrado ao lugar”, explica a arquiteta, candidata à Assembleia Municipal em 2025 e vereadora por substituição de Carlos Teixeira na Câmara Municipal de Lisboa, que lembra a “divisão interna de políticas e estratégias” quando o Livre se candidatou a Lisboa e perdeu coligado com o PS de Fernando Medina, em 2021, quando já se via “um esvaziamento das freguesias centrais.”Patrícia Robalo prossegue com um pedido de abertura ao exterior, até porque o Livre superou os 4500 filiados, entre membros e apoiantes. “O colégio externo era mobilizável e podíamos fazer campanhas com pessoas que conhecíamos de outras esferas da nossa intervenção pública. Foi através dessa participação que muitas pessoas se juntaram ao Livre. A motivação que levou à alteração ao regulamento, após Francisco Paupério ser o mais votado para as Europeias, não foi a melhor. Ficou um regulamento que tenta proteger a maioria que rege o partido. Não perdemos o estatuto de partido mais democrático, mas perdemos algum do reconhecimento da distância em relação aos vícios que víamos noutros”, entende Robalo, que, estatutariamente, critica a utilização de dois porta-vozes fixos - cargos desempenhados atualmente por Isabel Mendes Lopes e Rui Tavares. .“O papel de porta-voz não existe da forma como é exercido. Existem porta-vozes rotativos baseados em áreas temáticas. Não foi testado sequer”, diz, apesar de considerar “normal a liderança bicéfala”, até pelos exemplos europeus. Robalo vinca que “o partido não pode apenas crescer através da Assembleia da República”, pedindo “mais trabalho local e temático”. Reconhece que “o partido deve muito a Rui Tavares”, que “lidera, formal e informalmente, em muitos sentidos”, e reivindica uma aproximação entre listas para a “consensualização da orientação geral para o mandato”, desejando “um maior equilíbrio de forças” no Grupo de Contacto.Tiago Mota, da Lista V, partilha as preocupações. “Não é por termos listas minoritárias que o partido é ingovernável e a Assembleia deve ter o seu papel, não apenas o Grupo de Contacto. A nossa meta é que nenhuma das listas atinja os 50%, ou seja, que nenhuma tenha maioria absoluta”, principia ao DN o professor de 34 anos, que herdou, por ser suplente da anterior lista, o lugar de João Manso, que se demitiu da direção. “Não teve o acesso aos e-mails e estou solidário com a sua decisão. O partido tem abandonado a sua praxis, a sua vontade de participação pública. A nível local, os cidadãos têm de ter ferramentas próprias para organizar e melhorar cidades. O Livre está centrado no Parlamento, não há autonomia financeira local e a descentralização é necessária. O Grupo de Contacto não pode ser uma cúpula que dá ordens”, atira Mota, concordando com os argumentos da Lista S em relação às primárias e ao cumprimento dos estatutos.“Houve um fechamento. Não se confia no apoiante da forma que se confia num membro. Deviam ser abertas. Não podemos ter receio de que as pessoas se juntem ao Livre. Lançou-se uma suspeição infundada em torno de Francisco Paupério, que mobilizou centenas de pessoas a participar [o Livre mudou as regras nas primárias após suspeitar do processo de escolha do candidato para as Europeias]. Queremos eleger os representantes da forma mais direta. Quanto à questão dos porta-vozes, deveria existir uma rotação consoante o tema. Notámos que foi feito esse esforço pelos deputados no Parlamento. Não temos nada contra o Rui Tavares e contra a Isabel Mendes Lopes, queremos que continuem nas nossas lutas, politicamente não estamos desalinhados, mas as discussões e a representação têm de acontecer de forma mais horizontal”, explana o cabeça de lista da V, ladeado por Mónica Casqueiro e Célia Figueiredo. Em 2024, o movimento teve dois eleitos.Tiago Mota aponta ainda falhas na condução eleitoral autárquica e presidencial. “O Livre tem crescido à custa de uma esquerda mais escassa e nasceu para formar convergências, é preciso mais negociações com sindicatos, com partidos de esquerda e com partidos sem representação. Não podemos ir a eleições sempre sozinhos. Nas autárquicas faltaram alianças, apesar de termos feitos progressos. Não gostámos da abordagem nas Presidenciais. Jorge Pinto foi levado ao colo. O processo não foi aberto nem negociado como devia”, critica, questionando “a falta de divulgação de ideias e candidaturas de membros e apoiantes que não estejam na lista A.” .Patrícia Robalo também pede “reflexão” quanto às “derrotas eleitorais.” “Com esta construção de poder que temos, uma lista maioritária não pode ficar em cima do muro e não reconhecer as suas responsabilidades nas derrotas eleitorais. Nas Europeias, tenho carinho por Francisco Paupério, mas perdemos por falta de comparência. E independentemente do alinhamento político com o Jorge Pinto, o resultado das Presidenciais é muito mau. Não conseguimos uma convergência, contribuímos para a partidarização, a candidatura dependeu do financiamento do partido, o que me preocupa, e foi apressada a decisão.”Na definição das diferenças para a Lista V, Patrícia Robalo entende que a S “é mais construtiva” e que “coloca o bem público à frente das divergências.” Tiago Mota relata que “não existiram negociações” entre listas, evita comparações e realça “o bom trabalho de Robalo na CML.”Instados pelo DN a comentar o nome de Jorge Pinto para a sucessão de Rui Tavares, Robalo diz que “é uma escolha de um nome que estava já nos lugares cimeiros. Há pouca pluralidade. É preciso renovação”, lamenta, vincando , no entanto, “a proximidade com Jorge Pinto na Regionalização e corporativismo.”“É bem acolhido, não temos nada contra ele e ficamos contentes por vermos novos nomes como porta-vozes, mas o fundamental é que os estatutos sejam cumpridos e o cargo devia ser rotativo”, analisa Tiago Mota. .Congresso do Livre. Rui Tavares nega afastamento e defende necessidade de novas “caras e vozes” .Jorge Pinto candidata-se ao lugar de Rui Tavares no cargo de porta-voz do Livre.Congresso do Livre será em Sintra a 10, 11 e 12 de julho.Rui Tavares ao DN: "Luís Montenegro tem usado ministros como para-raios"