António José Seguro, nas Caldas da Rainha, onde foi recebido por centenas de apoiantes, no Centro Cultural da cidade onde reside.
António José Seguro, nas Caldas da Rainha, onde foi recebido por centenas de apoiantes, no Centro Cultural da cidade onde reside.Gerardo Santos

Nas Caldas da Rainha, jogou-se mais pelo Seguro na hora de celebrar a ida à segunda volta

A euforia inicial foi arrefecendo, e expetativas para a próxima volta estão mais baixas. Até socialistas ficaram surpreendidos com resultados, e veem na votação de Marques Mendes crítica a Montenegro.
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Depois da derrota nas Legislativas e de resultados amargos em Lisboa, Porto, Braga e Sintra, o Partido Socialista fez nas Caldas da Rainha um festejo a lembrar tempos antigos, mesmo que ainda esteja a comemorar a passagem à segunda volta.

Ainda porque não ficou resolvida a eleição presidencial, mas, acima de tudo, porque poucos acreditariam que António José Seguro, há dois meses, fosse o candidato a aglomerar a sociedade portuguesa. Nas primeiras projeções, o Centro Cultural das Caldas Rainhas já contava com quatro centenas de pessoas que celebraram, com pompa, as indicações que os últimos apuramentos à boca de urna davam. Mas só passados três minutos é que os apoiantes se consciencializaram e cantaram: “Vamos à segunda volta.”

Foi esse mesmo o estado de espírito, o de quem sai surpreendido pelo resultado. Era a mesma a sensação dos deputados socialistas nas Caldas da Rainha: felizes, muito, mas sobretudo surpreendidos com a diferença nos votos. Reflexo de anteriores derrotas eleitorais socialistas, que fizeram o partido, durante toda a campanha, manter-se mais na retaguarda e expressar apoios públicos ténues até dezembro.

O auditório encheu-se de locais, apoiantes do candidato, que repetiram ao DN as palavras “moderação” e “integridade”. Deslocaram-se à porta do Centro Cultural, esperando pelo candidato que fizera, em cinco minutos, o caminho desde casa, acompanhado pela esposa. Seguro preferiu entrar pelo parque de estacionamento, não encarar quem o queria abraçar, estando resguardado numa sala a receber parabenizações. Foi lá que atendeu os telefonemas de Gouveia e Melo, Cotrim de Figueiredo, Marques Mendes, Catarina Martins e Jorge Pinto.

Esquerda apoia Seguro na segunda volta

O social-democrata não deu indicação para se votar no PS na segunda volta, Catarina Martins vincou que “a resposta adequada neste momento é votar em António José Seguro na segunda volta”, José Manuel Pureza confirmou que entre o Bloco de Esquerda há essa intenção também.

Jorge Pinto teve o mesmo discurso. “Disse, num debate eleitoral para esta primeira volta, que não seria por mim que António José Seguro não seria Presidente da República. Agora digo que será por mim que António José Seguro será Presidente da República”, garantiu, revelando que vai instar o seu partido a acompanhá-lo nesta intenção de voto. Também o PCP expressou apoio.

José Luís Carneiro viu do Largo do Rato a vitória na primeira volta. “António José Seguro é o vencedor da noite. Tem um grande sentido de Estado e de elevação institucional”, elencando que a “saúde, em primeiro lugar, habitação, crescimento da economia e salários, defesa da dignidade das condições laborais de todos os portugueses” foram pontos centrais do resultado. Os antigos ministros Severiano Teixeira, da Administração Interna, Alberto Martins, da Justiça, e Ana Jorge, da Saúde, foram presenças notadas, além de João Soares que tem acompanhado desde início Seguro. Quase uma dezena de deputados ladeou Seguro durante a noite eleitoral, esperando pelos resultados concluídos.

“É um candidato capaz de assegurar uma pluralidade, uma participação, ele disse-o, e corretamente, que será um Presidente para todos os portugueses. Portanto, na sua pluralidade, tendo um ponto de partida, quer aglutinar aquilo que é essencial para os portugueses, para a democracia portuguesa, para o combate às desigualdades sociais”, expressou Alberto Martins ao DN. Miguel Costa Matos, de 31 anos, falou como deputado do que Seguro representa para a juventude. “Os jovens muitas vezes são descritos como aqueles que gostam mais do radicalismo e do extremismo, mas os jovens são aqueles que vivem mais a insegurança nas suas vidas. É preciso uma mudança tranquila, que combate o ruído com a moderação”, declarou o deputado ao DN.

As principais picardias na plateia foram para André Ventura, mencionando, sistematicamente, o “extremismo”. Muitos diziam que “era bom” passar Ventura face à maior facilidade na campanha discursiva de Seguro. Mas Montenegro não escapou às críticas. Muitos sociais-democratas votaram em Seguro, mas os socialistas que estavam nas Caldas esperam que haja uma leitura política do resultado. “É evidentemente um sinal de que as notícias da morte do socialismo eram manifestamente exageradas. Mas é evidente que uma grande parte se deve à rejeição da ideia de que o Governo é intocável. Seguro foi claro quanto ao pacote laboral e esse pacote é profundamente rejeitado por estes resultados eleitorais”, advogou Miguel Costa Matos.

Naturalmente, a primeira vitória socialista nesta campanha joga-se com uma satisfação redobrada por ser um golpe em Luís Montenegro. Mas a toada de travão à euforia foi determinante. Restará saber se, agora, o candidato apoiado a partir de outubro, mas que só viu manifestações públicas fortes em janeiro, terá o PS a galvanizar uma possível onda eleitoral. Depois dos reinados de Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, a esperança socialista voltou nas Presidenciais. O que poucos diriam antes dos debates televisivos.

À medida que a noite avançou, desapareceram os principais nomes do PS presentes e apareceram, sim, os apoiantes de base, os vizinhos, os conhecidos de Seguro. Com muita juventude. Às 23h45 entrava no auditória, louvado como se ganhasse à primeira volta a Belém.

Nas respostas aos jornalistas, que puderam dividir-se para fazer três grupos de questões, Seguro descartou achar que tem a eleição encaminhada. “Nada está garantido, muito menos as vitórias. Temos de trabalhar muito para vencer”, acrescentando o “bom caminho” face a ter “mais de um milhão e 700 mil portugueses” a votarem. Depois, o socialista nega uma possível crispação com Luís Montenegro pelo primeiro-ministro não declarar o apoio à segunda volta. “Os apoios estão a surgir, tenho as caixas de mensagens cheias, com muitos apoios e parabenizações. Estou convicto de que recolheremos apoios à direita ou esquerda porque somos suprapartidários, fomos buscar muitas pessoas que não estão na política. Posso garantir que tudo farei para que as relações institucionais não sejam afetadas quando, assim espero, tomar posse dia 9 de março”, expressou, sem revelar se António Costa, presidente do Conselho Europeu, lhe dirigira parabéns.

Não detalhou o que fará de diferente em termos de discurso na segunda volta, mas adiantou que “existe um oceano de diferenças para o deputado André Ventura.” Também desvalorizou que José Luís Carneiro ficasse pelo Largo do Rato, sem se deslocar às Caldas da Rainha. “Teve a simpatia de me telefonar e de me cumprimentar. Há uma coisa que não perguntei a ninguém, qual o cartão partidário que tem. A maioria não tem cartão partidário, vêm aqui pela mesma razão que me candidatei, por amor a Portugal”, disse.

Mesmo quando foi chamado a ler os resultados, que deixam o candidato do PS e do Chega, oposição de Montenegro e da AD no Parlamento, na luta pela eleição, Seguro jogou à defesa e recusa ser mais interventivo do que prometeu ser. “Vou manter a linha que defendi no dia 15 de junho. A nossa Constituição é clara. Os partidos devem ser respeitados, mas também devem respeitar os candidatos que decidem avançar à Presidência da República. Não há contaminação alguma. Expressam os seus apoios e cabe aos políticos definir a sua intervenção política. É isso que continuarei a fazer. Os portugueses sabem o meu percurso político. Quero é ser o Presidente da República de todos os portugueses”, destacou antes de terminar, dois minutos depois da meia-noite, com uma mensagem de agradecimento aos delegados, mandatários. Concluiu-se a noite com o hino de Portugal cantado a plenos pulmões.

António José Seguro, nas Caldas da Rainha, onde foi recebido por centenas de apoiantes, no Centro Cultural da cidade onde reside.
Projeções dão António José Seguro na segunda volta e Ventura quase certo também

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