Marques Mendes repetiu várias vezes, na manhã desta terça-feira, que não foi a Fátima pedir um milagre nas sondagens, mesmo depois de a tracking poll da Pitagórica, revelada pela CNN Portugal na noite anterior, o posicionar cada vez mais distante da segunda volta, com 14,5% de intenções de voto, aquém do empate técnico com António José Seguro (21,4%) ou Cotrim de Figueiredo (21,1%). Mas nem por isso o candidato, que é católico, e vai muitas vezes à localidade, embora tenha realçado não ali estar nessa condição, desperdiçou a ocasião de revelar o segredo para poder vir a ser o próximo Presidente da República.Perto das coordenadas GPS onde a Virgem Maria terá revelado o segredo da conversão da Rússia a três pastorinhos, incluindo Jacinta Marto, que deu nome à rua onde o atual conselheiro de Estado e antigo líder social-democrata iniciou o dia de campanha, Marques Mendes antecipou que os portugueses que pensam votar no “candidato da Iniciativa Liberal”, como preferiu referir-se a Cotrim de Figueiredo - que na véspera anunciara novos apoios de militantes do PSD e do CDS -, poderão reconverter-se à sua candidatura..Pegando nas declarações proferidas pelo eurodeputado liberal na segunda-feira, quando não excluiu apoiar André Ventura caso o líder do Chega passe à segunda volta com o socialista António José Seguro, Mendes disse que haverá “sentimento de desilusão” em quem já optou pelo voto antecipado. “Provavelmente, se pudessem voltar atrás, não repetiam o voto”, previu, à mesa do Apollo Caffé, antecipando que as palavras de Cotrim de Figueiredo - recalibradas por sucessivos comunicados e vídeos nas redes sociais - poderão fazer mudar a decisão de muitos eleitores.Insistindo na ideia de que as palavras do liberal reforçam a ideia de que a sua candidatura “é a única que pode evitar o populismo, o radicalismo e o experimentalismo”, o candidato presidencial apoiado pelo PSD e pelo CDS defendeu que “no próximo domingo é preciso ter mais cuidado com a decisão”.Mesmo sem pedir milagres ou fazer promessas, limitando-se a adaptar um ditado, ao comentar que “campanha molhada, campanha abençoada”, Mendes teve direito ao milagre do reaparecimento do sol em Fátima, libertando a sua comitiva dos muitos guarda-chuvas que ainda estavam abertos quando assumiu o compromisso “que o país mais precisa, e que os portugueses mais desejam, que é o da estabilidade”. Palavra que enfatizou, separando as sílabas, num “es-ta-bi-li-da-de”, antes de anunciar, com o presidente da Câmara de Ourém, Luís Miguel Albuquerque, ao seu lado, que precisava de tomar um café.Acompanhado da família, da equipa de campanha, com Duarte Marques e Luís Campos Ferreira em destaque, e de figuras do PSD como o antigo ministro da Economia, Pedro Reis, e o eurodeputado Sebastião Bugalho - que voltou a marcar presença em Fátima, sem nunca se chegar a cruzar com o gato preto, seu homónimo, que se refugiou numa loja de produtos religiosos para escapar à confusão -, Mendes fez uma caminhada pela localidade, protegido por um impermeável, mas já quase sem os pingos de chuva que logo desapareceriam. E, após distribuir beijos, fazer acenos e esboçar um gesto de vitória churchiliano, com o Santuário de Fátima a surgir no horizonte, retomou a mensagem anti-Cotrim. “No próximo domingo, as pessoas não se podem enganar. Tornou-se ainda mais importante concentrar votos do centro”, disse aos jornalistas, aproveitando diretos televisivos para apresentar a sua candidatura como “ainda mais necessária para a defesa da democracia e da estabilidade”, bem como para evitar o populismo e radicalismo “que passaram a estar juntos”.“Para ser o Presidente da estabilidade preciso de ter uma grande votação no próximo domingo. E para ter uma grande votação no domingo é preciso uma concentração de votos ao centro. Não se podem dispersar”, insistiu, enquanto ao fundo se ouvia o ruído dos sinos. Face ao que disse ser a “contradição profundamente lamentável” daquilo a que se voltou a referir como a “candidatura da Iniciativa Liberal”, acusando o não nomeado, mas sempre referido, Cotrim de Figueiredo de ter “preferido associar-se ao Chega”, desiludindo “muitas pessoas moderadas”, o antigo líder do PSD classificou populismo e radicalismo de “maiores riscos para a democracia”, dentro e fora de Portugal..Mesmo garantindo não incorrer no autoelogio, o candidato que “representa a estabilidade, a moderação e a previsibilidade” pediu, “por favor”, votos de eleitores do centro-direita e do centro-esquerda, garantindo que está “muito confiante para o próximo domingo”. Ao ponto de ainda se ver como o vencedor da primeira volta, embalado por “uma campanha que tem vindo a crescer de dia para dia”. Sem comentários quanto à alegação de assédio sexual que incidira na véspera sobre o eurodeputado da Iniciativa Liberal, sendo logo negada, Mendes também hesitou em reagir novamente aos problemas no Serviço Nacional de Saúde, embora tenha recomendado à ministra Ana Paula Martins “maior sensibilidade em relação às questões menos boas que aconteceram”.“Não fujo a questão nenhuma”, começara por dizer o candidato presidencial. No entanto, quando o DN lhe perguntou qual seria o seu posicionamento no caso de haver uma segunda volta disputada entre André Ventura e António José Seguro, Marques Mendes limitou-se a dizer que “só se não percebesse nada de política é que responderia a isso”. “E reconhecerão que eu, de política, ainda percebo alguma coisa. Portanto, essa resposta tem de ficar para mais tarde”, acrescentou, confirmando que a pergunta que alimentou os seus ataques a Cotrim de Figueiredo só teria resposta se “fosse um imaturo político”. “E isso eu não sou”, defendeu.Terminada a passagem por Fátima, dirigiu-se a Leiria, onde tinha à espera um almoço com meia centena de empresários do distrito, e a presença do líder parlamentar centrista, Paulo Núncio. O primeiro orador foi o antigo ministro da Economia, Pedro Reis, que defendeu a eleição de Marques Mendes para Belém como “a melhor opção para a economia portugueses, para os empresários e para os investidores”. Isto por trazer “o binómio estabilidade- reformismo” quando as empresas anseiam “por estabilidade nos ciclos políticos” e pedem “menos política de calendário e mais política de profundidade”, concretizada em “menos eleição e mais ação”..Mas o almoço ficou marcado pela emotiva intervenção de Sofia Marques Mendes, apresentada como “futura primeira-dama”, que começou o seu curto discurso com uma ressalva: “Sou uma pessoa discreta e gosto de passar despercebida.” Dirigindo-se ao “Luís”, disse que resolveu fazer a “surpresa” de “demonstrar publicamente o orgulho” no marido por sentir que o marido “é a pessoa mais certa para ser Presidente da República”, realçando que todos os dias a surpreende com a sua “generosidade” e “sentido de missão”, antes de receber um beijo do maridoCuriosamente, mesmo no final do seu discurso em Leiria, já com o fato e gravata a substituir o impermeável matinal, Mendes pareceu colocar a hipótese de não atingir a segunda volta. “Se concordarem com a minha mensagem, peço a vossa ajuda. Se entenderem de outra maneira, ganhar ou perder é democracia, e respeito os votos de todos. Tento ganhar, mas respeito os votos de todos, porque todos são portugueses e Portugal precisa de todos”, disse, ressalvando que pretende “ser Presidente daqueles que votam em mim e daqueles que não votam em mim”..O dia de campanha terminou em Ansião, onde o Centro Cultural encheu para ouvir o “futuro Presidente da República”. Após Luís Campos Ferreira dizer que “as sondagens não são humanas, mas também erram”, e de o ministro de Estado e das Finanças, Miranda Sarmento, apresentar o candidato apoiado pelos partidos da AD como aquele que tem maior “experiência e competência, política e técnica”, para suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, Mendes subiu ao púlpito.Ouvido pelo líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, e pelo seu homólogo do CDS, Paulo Núncio, Mendes disse que, caso seja eleito, iniciará o mandato com uma Presidência aberta dedicada à valorização do interior de Portugal. Enquanto falava, a RTP divulgou a sondagem da Universidade Católica, que o exclui de uma segunda volta que deverá ser protagonizada por André Ventura, António José Seguro ou João Cotrim de Figueiredo.