A tomada de posse de Luís Neves como ministro da Administração Interna, após Luís Montenegro ter assumido transitoriamente a pasta deixada vaga por Maria Lúcia Amaral, leva o até agora diretor Nacional da Polícia Judiciária (PJ) ao Governo numa altura em que abundam desafios difíceis nas áreas que vai tutelar. Com perfil claramente mais operacional do que as escolhas anteriores do primeiro-ministro, embora haja quem veja um reverso da medalha nesse currículo, Neves tem um histórico de intervenções públicas com as quais será confrontado. E que lhe garantem, desde logo, a promessa de “escrutínio político implacável” por parte do Chega.Em causa está o que o principal partido da oposição considera, nas palavras do ministro-sombra da Justiça, Rui Gomes da Silva, a “realidade cor de rosa” de Neves, enquanto diretor Nacional da PJ, quanto aos números da criminalidade grave. E, em particular, a recusa de uma ligação direta com o aumento da imigração, tendo o agora ministro dito, em audição parlamentar, que “temos a obrigação de combater os paladinos da criação do caos”, lutando contra a “desinformação”.Após ter pedido a divulgação sistemática de dados para contrariar fake news, como ministro pode articular com todas as forças de segurança e com o Sistema de Segurança Interna um modelo de recolha, tratamento e divulgação de dados.Também públicas foram as declarações de Neves quanto à necessidade de melhorar as condições de trabalho dos agentes da PSP, dizendo que “não é aceitável” haver polícias a destinar metade do vencimento a habitação, tal como “não é possível continuar a ter salários tão baixos” quando se quer atrair e fixar “gente boa”. Tendo em conta que as candidaturas às forças policiais têm diminuído, havendo concursos com lugares por preencher, há que modernizar infraestruturas, melhorar equipamentos e valorizar carreiras policiais.Visto que o agora ministro obteve um aumento na casa dos 600 euros no Suplemento de Missão dos inspetores da PJ em 2023, estabelecendo a fasquia das reinvindicações das restantes forças, vê-lo resolver o impasse nas negociações, herdado de Maria Lúcia Amaral, é uma expectativa que os representantes sindicais alimentam - e que irão cobrar. Com a condicionante de que não há perspetivas de desafogo orçamental..Sucessor de Luís Neves na PJ deverá ser uma “solução interna”, com a nomeação de um polícia.Mas o desafio estrutural do ministro será a reforma do sistema de Proteção Civil, inscrita no programa PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência. Perante a sucessão de tempestades que levou Maria Lúcia Amaral a alegar falta de condições pessoais e políticas para se manter, abrindo caminho à sua entrada, o novo governante terá de dar resposta ao consenso técnico crescente sobre a necessidade de criar uma estrutura nacional de resposta a desastres naturais.Desafio imediato é assegurar prontidão operacional e coordenação entre agentes da Proteção Civil, gerindo a vontade de um papel mais ativo para as Forças Armadas.Também sob a tutela de Luís Neves fica o SIRESP, que no último debate quinzenal mereceu elogios de Luís Montenegro. O contrato anual da rede de comunicações em situações de emergência está em final de vigência e o novo modelo de gestão ainda não está definido, com o grupo de trabalho criado após o Apagão da rede elétrica a falhar a data para apresentar soluções. Acresce a isso que há dois inquéritos em curso na PJ, investigando suspeitas de corrupção em contratos ligados ao SIRESP.Quanto à gestão das fronteiras, debilitada pela extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e redistribuição de funções entre forças policiais e AIMA, o novo ministro deve ter margem política, num Governo em que o primeiro-ministro defende “portas abertas, mas não escancaradas”, para garantir um sistema integrado de controlo de fronteiras que terá de ser acelerado devido à entrada em vigor, em maio, do Pacto Europeu para as Migrações e Asilo, implicando maior capacidade de triagem, acolhimento e segurança fronteiriça.Devendo manter os três secretários de Estado de Maria Lúcia Amaral, reconduzidos por Luís Montenegro - os sociais-democratas Paulo Simões Ribeiro (Adjunto e Administração Interna) e Rui Rocha (Proteção Civil), e o centrista Telmo Correia (Administração Interna) -, outro desafio de quem tem três décadas de carreira na investigação criminal é a articulação com políticos experientes.Mas Neves também enfrentará algumas críticas em surdina, por transitar da PJ, que participou na investigação à Spinumviva, para o Conselho de Ministros de Luís Montenegro. E outras assumidas, como as do antigo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, que não acompanhou “o entusiasmo geral” com a escolha, porque, entre outros motivos, ter um polícia à frente do Ministério da Administração Interna leva a que possam “ser facilmente transpostas para o escalão político as velhas e, até certo ponto, inevitáveis”, tensões entre PSP e PJ. E rematou que “uma mente mais malévola sempre poderia perguntar se o objetivo final de quem propõe (o primeiro-ministro) é deslocar o indigitado para o Governo ou deslocá-lo do serviço em que estava”..Luís Neves é o novo ministro da Administração Interna: um polícia “do lado da solução”, frontal e sem medo.Luís Neves alerta num podcast para salários “não aceitáveis” na PSP .Leitão Amaro elogia "trabalho de grande qualidade" de Luís Neves, após bicada do líder do PS: "Pode ser que apreenda alguma coisa"