O ministro da Administração Interna, Luís Neves, acabou a conferência de imprensa, com que pôs fim ao silêncio que manteve ao longo das últimas semanas, a dizer que não vê “o mínimo motivo” para que venha a ser constituído arguido no âmbito de uma investigação do Ministério Público a decisões tomadas quando era o responsável máximo da Polícia Judiciária (PJ).Afirmando-se “sempre disponível a responder a tudo”, e brandindo décadas de carreira policial que levaram à detenção de “milhares de violadores, homicidas, portugueses e estrangeiros”, Neves questionou os objetivos da comissão parlamentar de inquérito aos seus mandatos na direção nacional da PJ lançada pelo Chega. E, afastando qualquer dúvida quanto à sua permanência no Governo, garantiu estar “absolutamente apoiado pelo primeiro-ministro” e “totalmente empoderado” para continuar no Ministério da Administração Interna, cujo auditório se encheu de jornalistas no final da tarde desta quarta-feira para ouvir, na conferência de imprensa mais aguardada dos últimos tempos, reações a notícias que marcaram a atualidade política nas últimas semanas, desde que o Nascer do Sol revelou que um empreiteiro amigo de Luís Neves, cuja empresa teve 17 contratos públicos adjudicados quando este era diretor nacional da PJ, fez obras numa propriedade do governante em Odemira. A polémica adensou-se ao ser noticiado que um atrelado apreendido numa operação de combate ao tráfico de droga foi levado de um parque da Marinha no Seixal e encontrado nas instalações da Construbarcelos, a empresa de João Santos Carvalho, a mais de 400 quilómetros de distância.A resposta ao que o governante disse serem “gravíssimas suspeitas sobre a minha honra e dignidade” começou em tom emotivo, detetável na sua voz ao mencionar “insinuações que ultrapassaram todos os limites da decência” e reconhecer “aquilo que deveria ter sido feito de outra forma”, mas depressa o antigo responsável pela PJ recuperou o registo habitual nas suas “três décadas de sacrifício, ligadas sempre ao combate ao crime organizado”.Tendo sido o caso que levou à abertura de um inquérito interno pela atual direção nacional da PJ e a uma investigação do Ministério Público, o atrelado que foi utilizado como laboratório móvel para transformação de pasta de coca teve primazia nas declarações iniciais. “Posso e devo, desde já, afirmar, de forma absolutamente inequívoca, que não houve desvio a qualquer lei, que não foi comprometida qualquer prova e não foi beneficiado quem quer que fosse”, disse o governante, que entrou no auditório do Ministério da Administração Interna, na Praça do Comércio, com os seus secretários de Estado. Sobre a entrega do atrelado a João Santos Carvalho, Neves disse que se deveu a uma proposta de um alto quadro da PJ, “cuja competência e integridade tinham então, e continuam a ter, a minha total confiança” - a CNN Portugal revelara na véspera ser o diretor financeiro e património Álvaro Pires, a quem cabe gerir bens apreendidos -, dizendo que foi “um puro ato de boa gestão”.Apontando que foram pedidos 150 mil euros à PJ para destruir o material - o atrelado tinha bidões com produtos químicos destinados à produção de estupefacientes” -, Neves garantiu que a sua permanência em qualquer armazém implicaria o pagamento de uma renda mensal de entre três a quatro mil euros, pelo que a disponibilidade do empreiteiro minhoto “poupou muito dinheiro e permitiu ganhar tempo para encontrar uma solução”.Mais tarde, ao responder a perguntas dos jornalistas, o ministro garantiu que o dono da Construbarcelos não pediu nem obteve qualquer contrapartida financeira por ir buscar o atrelado a um parque da Marinha, no Seixal, de onde essa entidade solicitou a retirada, por risco de combustão.Respondendo a uma pergunta do DN sobre o elevado valor pedido pela destruição desses produtos químicos, sem nunca identificar a entidade que apresentou o orçamento tido como imcomportável pela PJ, admitiu que o montante se tenha devido “à dimensão” do que estava em causa e acrescentou terem sido contactadas “as poucas empresas” que habitualmente realizam destruições de produtos perigosos.No que toca às obras realizadas na casa no concelho de Odemira, revelou que se trata de uma propriedade da família da sua mulher, “há algumas gerações”, tendo agora posse de dois terços do imóvel, com o resto a pertencer à sogra. Essa participação e outra propriedade mais antiga terão sido compradas com recurso a um empréstimo à banca.Quanto às obras, que começaram na primavera de 2024, Neves disse que ocorreram “quase sempre aos fins de semana” e “muitas vezes com a minha própria mão de obra e do meu filho”. E descreveu-as como “pequenas reparações, sem alterar paredes mestras nem aumentar áreas”, referindo um alpendre e uma zona para estacionamento. Também abordou as notícias sobre a utilização de madeiras que deixaram de ser usadas nos caminhos de ferro, assegurando que “não foram oferecidas pela Infraestruturas de Portugal, não foram desviadas e não foram ocultadas”.Quanto à polémica piscina que não tem licenciamento da Câmara de Odemira, o ministro disse que pediu para fazer um tanque de rega, que contra a sua vontade “depois acabou por se transformar numa piscina”. E acrescentou já ter solicitado, “com humildade”, uma reunião à autarquia, com caráter de urgência, “para esclarecer e regularizar o que tiver de ser regularizado”.Realçando que a empresa de João Santos Carvalho já tinha obtido 11 adjudicações da PJ em 2023, quando o conheceu, Neves defendeu que a Construbarcelos “nunca teve um peso determinante, ou sequer particularmente relevante”, entre os contratos públicos da entidade que liderou entre 2018 e 2026, com 8% dos 27 milhões de euros gastos em empreitadas nesse período.Quanto às obras na sua casa em Odemira, que já terão implicado um gasto de 18 mil euros, disse que os pagamentos a João Santos Carvalho foram feitos em numerário, ao longo de diversos fins de semana, pela sua mulher. No que toca a atrasos nas declarações de rendimentos, escudou-se no facto de não ter sido notificado pelo Tribunal Constitucional para entregar tais dados à Entidade para a Transparência. Em 2025, quando foram solicitados, contestou esse pedido, por conter a morada em que reside com a família, argumentando o “risco enorme de prestar certo tipo de informações de carácter pessoal” face às ameaças feitas por organizações criminosas. Foi entregue um parecer nesse sentido, prevalecendo o entendimento da Entidade para a Transparência, pelo que os dirigentes de topo da PJ tiveram de apresentar a declaração. O que, no seu caso, só aconteceu a 16 de fevereiro deste ano, pouco antes de ir para o Governo, por ter precisado de tempo para reunir documentação. E, apesar de confirmar que na declaração não consta a empresa da sua mulher, destinada a gerir um negócio de alojamento local “que ainda não se concretizou”, reiterou que “não existiu qualquer tentativa de ocultação”, sendo a informação acrescentada numa declaração corrigida.“Nunca fui um homem de expedientes”, garantiu Neves, que dedicou parte substancial de quase uma hora de conferência de imprensa a elogiar o seu legado na “instituição fragilizada” que passou a dirigir em 2018, com “meios obsoletos” e “instalações degradadas”, aumentando o orçamento anual da PJ de 105 para 360 milhões de euros..Luís Neves admite erros na propriedade em Odemira e afasta demissão: "Estou coeso, empoderado e motivado".CPI do Chega a Luís Neves também visa governantes que o nomearam diretor nacional da PJ