Jorge Pinto será coporta-voz do Livre ao lado de Isabel Mendes Lopes se a Lista A mantiver a maioria que tem tido sempre no Grupo de Contacto, a direção do partido, após o Congresso do próximo fim de semana (10 a 12 de julho), a decorrer em Sintra. O natural de Amarante expressou ao DN a convicção de que o crescimento eleitoral nas Legislativas, apontadas a 2029, pode influenciar a governação. “O Livre tem de estar preparado para o poder nacional, temos dois anos também para organizar o partido e mostrarmos proximidade e trabalho nas cidades, nas aldeias, estando mais presentes no território nacional. É a forma de chegarmos ao próximo ciclo eleitoral e podermos assumir as nossas responsabilidades”, afirmou em entrevista ao Diário de Notícias, decorrida na sexta-feira.Jorge Pinto realça que “quanto mais força o Livre tiver, mais condições poderá impor” e abre a porta a um trajeto com o PS na governação. “O PS é de esquerda. Nunca me ouvirão dizer o contrário. E se a esquerda quer voltar ao poder, PS e Livre têm de estar nessa equação. Porque não se imagina um cenário em que o PS tenha maioria absoluta”, admite, elaborando que o Livre “não exclui ninguém” de uma negociação governativa e, ainda, que a meta “é ter o máximo de deputados para negociar, com condições, uma maioria.”Faz mira a que, em 2029, possa superar a Iniciativa Liberal, que tem atualmente nove deputados. Essa mesma meta já fora estabelecida antes da eleição de 2025, no qual o Livre conseguiu eleger seis tribunos. “Esse é objetivo do ciclo eleitoral [2029], ser o quarto partido [mais votado] nas Legislativas”, destaca, recusando abdicar de qualquer eleitor: “Olhamos para todas as pessoas, até as que votaram no Chega. Há muitas pessoas que votavam à esquerda há cinco anos e passaram a votar à direita. Sociologicamente, não deixaram de ser de esquerda.”O deputado vê espaço para crescer eleitoralmente com votos de qualquer parâmetro, mas tem, principalmente, críticas à Iniciativa Liberal: “Gostávamos que as pessoas percebam que o indivíduo só faz sentido se tiver a comunidade. E quem representa esse espaço é o Livre. Os votos e as ações da Iniciativa Liberal têm mostrado que é um partido radicalizado, muito mais à direita do que outros projetos semelhantes na Europa. Se isso ficar claro para o eleitorado que duvida entre a Iniciativa Liberal e o Livre acreditamos que podemos crescer.”Considerou ser uma “questão extemporânea”, dizer que Isabel Mendes Lopes será a candidata a primeira-ministra nas legislativas, embora a porta-voz possa fazer outro mandato na liderança do Livre (reentrou no Grupo de Contacto em 2024 depois de ter estado no mesmo entre 2015 a 2022). Lembra que são “amigos, honestos um com o outro” e que “em 2016, numa fase crítica, em que pensavam que seria a morte do Livre, provámos trabalhar bem juntos”, referindo-se a uma votação aquém nas Legislativas de 2015, em que o partido não teve representação parlamentar. Diz que no Livre se pode ser “único”, vendo valias na postura mais recatada da líder parlamentar, vincando que estão “unidos na luta pelos interesses coletivos” e no combate político. Jorge Pinto vê no facto de ser natural de Amarante uma vantagem: “Acredito que pode ajudar a provar que o Livre não representa apenas as grandes cidades.”A oposição interna contestou a entrada do Livre nas Presidenciais. “Só quem não me conhece poderá achar que fui empurrado, de alguma forma, a isso”, diz, revelando uma “decisão à última hora” que teve impacto positivo em “marcar na agenda as questões da Regionalização e da Revisão Constitucional à direita”, confiando que António José Seguro “pode ajudar na moderação dessas discussões”. Diz ainda que "não se mistura o trabalho parlamentar e as negociações com o PS" e o que entendeu ser o "necessário" entendimento de ter um candidato presidencial de esquerda na segunda volta das Presidenciais. "Era evidente que tinham de ser tomadas decisões complicadas, ponderadas e aquilo que a minha consciência ditou, e que na verdade é muito o espírito do Livre enquanto partido, era que era importante que as pessoas pudessem votar de acordo com as suas próprias consciências", explana, como tal não retirando ilações por ter tido menos de 1% de votação. "Qual seria a diferença entre 0,7% ou 2% na prática? Ou 3% ou 4% até? Na prática não haveria diferença nenhuma. Eu ter tentado agir teve um impacto bem mais positivo do que negativo", resumiu.Sem levantar preocupações financeiras pelo investimento que o partido fez na campanha, prefere não se alongar sobre se outros partidos lançarão nomes para depois liderarem os respetivos conjuntos. “Foi a primeira vez que o Livre teve um candidato presidencial. Foi uma decisão conversada, como todas no Livre, mas foi uma decisão individual. E a idade não terá sido problema, porque André Ventura candidatou-se pela primeira vez quando era mais novo do que eu [Jorge Pinto fez 39 anos a 20 de abril]”, enaltece.O deputado vinca que Rui Tavares, de saída do cargo de porta-voz, terá um papel crucial na definição de estratégias do partido. “Tem a pasta da Comunicação e da Formação, que é essencial nos próximos dois anos para termos novas lideranças e ampliar a militância no partido”, frisa, destacando “a transparência de atribuir pelouros ainda antes do Congresso”.Responde às listas S e V que pedem o cumprimento dos estatutos e de haver mais porta-vozes rotativos. “O modo como a direção se organiza é decidido pelo próprio Grupo de Contacto. Ter duas pessoas como porta-vozes é normal nos partidos europeus ecologistas. Mas esta questão foi levada ao Tribunal Constitucional e foi-nos dada razão”, afirma, vincando que “há um alinhamento político e ideológico no partido”, até nas oposições.Admite que há “vontade de mudar os estatutos”, não se compromete com a data de 2027 e deixa a entender que não repensa o regresso ao modelo de primárias que elegeu Francisco Paupério, candidato às Europeias em 2024. “Há estatutos com mais de dez anos, é normal terem de mudar-se algumas coisas, não apenas quanto às primárias. O crescimento do partido também se faz de aprendizagem, foi assim na Europa também. E o modelo de primárias que hoje temos está mais próximo de outros partidos verdes e europeus. Nós é que éramos uma exceção”, atira. “O que se tem de avaliar neste Congresso é se os membros estão contentes com o rumo e a Lista A considera que é positivo - [o Livre] passou de um para seis deputados, tem dezenas de eleitos em autarquias e quase quintuplicou a militância”, responde, desafiando os filiados. .Oposições internas acusam liderança bicéfala do Livre de não cumprir estatutos.Jorge Pinto candidata-se ao lugar de Rui Tavares no cargo de porta-voz do Livre.Visibilidade de Jorge Pinto nas Presidenciais foi pensada pelo Livre e é tida como trunfo eleitoral