Quase tudo afastou Henrique Gouveia e Melo de António José Seguro num debate, esta terça-feira (9), na SIC, em que as únicas convergências aconteceram na necessidade de haver uma reforma da Justiça e no eleitorado que ambos dizem representar: o do PS.Logo no início, Seguro ofereceu a receita que considera ser a correta para o perfil de Presidente da República, que excluía Gouveia e Melo: "Precisamos de ter um presidente com experiência política, que não venha ao improviso, não venha a aprender no cargo." "Precisamos de ter um Presidente da República agregador e que seja inspirador e exigente. Há muita coisa boa no nosso país, mas há muita mudança que precisa ser feita e eu venho com esse espírito, com essa iniciativa e com essa convicção", rematou.Por seu turno, Gouveia e Melo evocou "toda a estima" que disse ter pelo seu opositor, mas acusou António José Seguro de não ser "um líder dos tempos modernos". "O doutor Mário Soares, há 11 anos, disse isso de forma clara, disse que o senhor era inseguro e que os seus eleitores não deviam confiar em si", contra-atacou o almirante, lembrando que o antigo líder do PS esteve "11 anos fora da política"."11 anos em que aconteceram muitas coisas, o país passou por muitas dificuldades e agora, de alguma forma, vai tentar reciclar a sua carreira política, passado esses 11 anos. Nesses 11 anos, aconteceram coisas graves, eu estive presente. Estive sempre presente", lembrou, com referências aos incêndios de Pedrógão e à gestão da vacinação no período da pandemia, mesmo não sendo essa a sua "missão", vincou.Perante esta constatação, Gouveia e Melo apelidou Seguro como uma "candidato nem nem". "É um candidato que não é um líder", sustentou.No contra-ataque, António José Seguro considerou que a grande diferença entre os dois reside da forma como utilizam o poder."Eu não utilizo o poder para humilhar os meus subordinados, como o senhor fez na Madeira", disse, lembrando o episódio do navio Mondego, quando os militares se recusaram a embarcar, em 2023, alegando falta de segurança, resultando em castigos disciplinares por Gouveia e Melo que foram anuladas pela justiça."Quando nós respeitamos a dignidade humana, não fazemos coisas como o senhor fez na Madeira", insistiu o antigo líder socialista."Em segundo lugar, o senhor apresenta-se nestas eleições. Qual é o seu pensamento político?", atirou ao almirante."O seu comentário é que o desqualifica para o comandante supremo das Forças Armadas, porque não percebeu a situação. A situação foi uma revolta grave. Era um rastilho que podia implicar com a disciplina das Forças Armadas, e os revoltosos, para além da revolta, publicitaram a revolta e politizaram a revolta", argumentou Henrique Gouveia e Melo.Questionado sobre como é que pode provar que não chegará a Belém com uma postura militar, Gouveia e Melo explicou que, "naturalmente", há uma adaptação "às missões e às tarefas"."Para mim é uma missão e já provei que tinha essa capacidade", explicou.Lembrando que a Presidência da República é um cargo político, Seguro atacou Gouveia e Melo com uma série de perguntas sobre a experiência política, que culminaram com acusações de que votar no almirante é um "tiro no escuro", para além de ser uma "aventura"."Que experiência é que tem de diálogo com os partidos? Que experiência é que tem de diálogo com os governos? O que é que o senhor conhece do sistema de governo e do sistema político?", perguntou de forma retórica o candidato apoiado pelo PS."Aliás, um dos exemplos da sua ausência no direito de experiência, até de sensibilidade, foi que o senhor anuncia a sua candidatura numa semana de campanha eleitoral para as legislativas", lembrou, enquanto continuava a dar a receita sobre o que significa ser Presidente da República: "Liderar em democracia é fazer compromissos, alianças, promover consensos. E é isso que o nosso país precisa. Há coisas fantásticas em que o país progrediu, mas há outras áreas, na saúde, no acesso à habitação, num futuro bloqueado pelos nossos jovens", observou.Depois de frisar que está à altura do desafio, Gouveia e Melo acusou Seguro de ser "o líder para a estagnação", recordando que, no tempo da Troika, Seguro "tinha, do outro lado da governação, uma maioria absoluta que não precisava" que o líder do PS "se abstivesse no Orçamento do Estado"."Mas precisava o país", retorquiu Seguro. "Passou leis inconstitucionais, que prejudicaram a população", insistiu o almirante, antes de ter o opositor a retificar que o Orçamento do Estado é uma lei e não são várias leis."Está outra vez a atacar com o promenorzinhos", destacou Gouveia e Melo.Dentro do campo de acusações partidárias, António José Seguro questionou de forma retórica quem é que tinha ido almoçar com o líder do CDS e do Chega, da mesma forma trazendo para a discussão o facto de ter sido Gouveia e Melo que escolhera como mandatário um ex-líder partidário do PSD."CDS, Chega, PSD. Tudo junto. É isso que o senhor representa?", perguntou."Eu represento outro campo político também, que é o PS", atirou Gouveia e Melo, deixando Seguro a perguntar: "O PS?""O senhor representa uma fração do PS, nem consegue fazer o pleno do PS", acusou o almirante, enquanto Seguro dizia que queria ser o "Presidente de todos os portugueses".."A política em Portugal tem de ser baseada em factos, evidências e em estudos", declarou Seguro, defendendo que os "recursos" devem ser utilizados "para aumentar salários, pensões e reforçar o estado social". Por isso, "se merecer a confiança dos portugueses, Seguro promete reunir com o primeiro-ministro "todas as quintas-feiras".Defendendo que a Constituição é a linha que separa os abusos da Justiça da sua aplicação, Seguro admitiu que é seu "desejo chamar o procurador" para terem "uma conversa séria sobre esses procedimentos".Sublinhando que "a justiça tem de ser transparente, equitativa e célere" e que "os próprios atores da justiça têm de estar envolvidos" numa reforma do setor, Henrique Gouveia e Melo afirmou que o procurador-geral da República "pode dizer que não tem agendas, mas tem de parecer que não tem agendas".Referindo que "nos momentos em que há eleições há libertação de casos e dados", o almirante ainda criticou aquilo que classificou como "justiça de pelourinho".Para concluir o tema, António José Seguro assumiu-se como "um defensor da nossa Constituição", mas "a justiça é um pilar que está a precisar de obras".Questionado sobre as características próprias de um Presidente da República e de que forma é que o conhecimento conhecimento em defesa é importante para um cargo que não governa, Gouveia e Melo argumentou que o chefe de Estado "tem um poder de influência muito grande"."Eu não sou europeísta" admitiu o almirante, que disse ter "um pé na Europa e um pé no Atlântico"."Isso dá-nos liberdade estratégica e abre as opções", afirmou, enquanto explicou que "é preciso perceber o que se passa na Ucrânia"."Eu considero que Portugal deve continuar a fazer parte da Nato", respondeu António José Seguro, enquanto defendia que é preciso "aumentar a nossa autonomia estratégica".É isso que o separa de Henrique Gouveia e Melo, admitiu o candidato apoiado pelo PS."O documento que os Estados Unidos acabam de publicar, (29:44) com ataques à Europa, demonstram a necessidade de nós reforçarmos a nossa autonomia estratégica. Não temos que dar cabo de nenhuma aliança. Agora, temos que depender mais de nós próprios. Temos que comprar europeu", rematou Seguro. .O ataque do candidato apoiado pelo PS ao almirante continua, lembrando a controvérsia envolve marinheiros do navio Mondego que se recusaram a embarcar em 2023, alegando falta de segurança, resultando em castigos disciplinares que foram anuladas pelo Tribunal Central Administrativo e Supremo Tribunal Administrativo. "A grande diferença entre nós é que não utilizo o poder para humilhar os meus subordinados", lembrou Seguro, afirmando que não é conhecido o pensamento político de Gouveia e Melo.Para justificar o episódio do Mondego, o almirante garantiu que a sua ação "parou um rastilho perigoso para as forças armadas"."O senhor é um líder para a estagnação", acabou por atirar Gouveia e Melo a António José Seguro..António José Seguro usou a cartada da experiência política face a Gouveia e Melo e garantiu estar "muito confortável pelo apoio" que tem recebido, apesar das sondagens dar um sinal de queda de ambos os candidatos na intenção de voto."A minha preocupação é dizer aos portugueses" que é importante o próximo Presidente da República seja alguém "que tenha experiência política" e "que não venha aprender no cargo", atirou o candidato apoiado pelo PS.Acusando o opositor de "trazer a candidatura ao campo da pequena política", Gouveia e Melo afirmou que Seguro "não é um líder para os tempos modernos".Para justificar esta afirmação, o almirante disse que Mário Soares tinha visto António José Seguro como alguém que "não é seguro"."Mesmo não sendo a minha missão, estive em Pedrógão, estive no processo de vacinação", lembrou Gouveia e Melo, acabdando por acusar Seguro de ser "um candidato nem-nem"..Tanto Henrique Gouveia e Melo como António José Seguro disputam um eleitorado de centro-esquerda, mas o primeiro critica o papel dos partidos enquanto o segundo traz no currículo uma história ligada ao PS, que é o partido que o apoia.Nos estúdios da SIC, onde o debate vai acontecer, Gouveia e Melo, o primeiro a chegar, defendeu que "estas eleições não são para escolher nenhum partido, são para escolher um líder para os tempos difíceis que se avizinham"."É isso que anima a estar aqui", garantiu, antes de assegurar que não vai "usar nenhuma cartada especial", como o facto de ser um candidato independente.