Sem surpresa, apesar da nuance de admitir que ela própria votará, “sem entusiasmo”, em António José Seguro, Mariana Leitão anunciou na noite de quinta-feira, 22 de janeiro, em entrevista à SIC Notícias, que a Iniciativa Liberal (IL) não irá apoiar nenhum dos candidatos que passaram à segunda volta das eleições presidenciais, pois não vê o espaço do centro-direita representado. Tal como o primeiro-ministro Luís Montenegro, falando enquanto presidente do PSD, fizera logo na noite da primeira volta, e seria defendido pela liderança do CDS na noite de quarta-feira.Oficializada a prevista neutralidade dos três partidos que estão a meio do “oceano de diferença” que Seguro cartografou entre a sua candidatura e a de André Ventura, o líder do Chega manterá a estratégia de apelar diretamente aos eleitores da AD e da Iniciativa Liberal, apresentando-se como o “líder da direita fragmentada” e do “espaço não-socialista”, embora veja uma sucessão de figuras desses partidos anunciarem publicamente que votarão no antigo secretário-geral do PS a 8 de fevereiro. Assim aconteceu com sociais-democratas como o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, o ex-ministro Poiares Maduro, e sobretudo Cavaco Silva, líder histórico do partido, recordista de longevidade como primeiro-ministro no pós-25 de Abril e duas vezes eleito Presidente da República. E ainda com os centristas Cecília Meireles, Diogo Feio e Francisco Rodrigues dos Santos, os deputados liberais Carlos Guimarães Pinto, Mário Amorim Lopes e Rodrigo Saraiva, e os mandatários nacionais dos candidatos presidenciais João Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes, respetivamente José Miguel Júdice e Rui Moreira. Além do próprio Marques Mendes, que na noite eleitoral disse apenas ter uma “opinião pessoal”, mas que nesta quinta-feira revelou ao Expresso ir votar em Seguro, por ser “o único candidato que se aproxima dos valores da defesa da democracia, garantia do espaço da moderação e respeito pelo propósito de representar todos os portugueses”. Com João Cotrim de Figueiredo apostado em manter a equidistância perante a “péssima escolha” e Gouveia e Melo ainda a definir o timing para se pronunciar, o bloco que recusa Ventura parece reforçado, mas politólogos ouvidos pelo DN acreditam que o candidato que ficou em segundo lugar na primeira volta pode beneficiar da conjuntura. Prevendo que “não vai acontecer uma transferência em massa dos eleitores de centro-direita para Seguro, como está a haver entre as elites dos partidos”, o investigador universitário Riccardo Marchi diz que as lideranças do PSD, CDS e Iniciativa Liberal “estão a fazer o que devem” ao recusarem dar indicação de voto na segunda volta e ao excluírem a intervenção dos seus partidos na campanha eleitoral.“É evidente que não podem apoiar Ventura”, diz o académico, natural de Itália, que se especializou no estudo da direita radical e acompanhou o crescimento do Chega nos últimos seis anos. Isto porque uma votação muito reforçada nesse candidato presidencial - embora ressalve que lhe será “quase impossível” vencer a segunda volta - “tornaria Ventura o líder de facto da direita portuguesa” e criaria enormes problemas a Luís Montenegro, Nuno Melo e Mariana Leitão. Ao mesmo tempo, esses líderes partidários também não podem hostilizar Ventura enquanto candidato à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, pois parte dos seus eleitores não aceitam a tese, vinda da esquerda, de que está em causa a escolha entre um candidato democrata e um antidemocrata..O que é "ganhar" e "perder"?.Apesar de ter dito, na noite da primeira volta, que a direita não foi derrotada, e que “só perderemos estas eleições por egoísmo do PSD, da IL e de outros partidos que se dizem de direita”, André Ventura tem sido parcimonioso na antevisão de uma vitória a 8 de fevereiro. Em vez disso, promete lutar, “contra tudo e contra todos”, por uma Presidência da República “diferente de todas as outras até agora”.Para Riccardo Marchi, “é quase impossível” que o líder do Chega acabe por suplantar o antigo secretário-geral do PS, por si constantemente colado a José Sócrates e a António Costa. Mas o investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE acredita que, apesar de Ventura poder culpar os restantes partidos à direita dos socialistas se não subir muito além dos 23,52% que obteve na primeira volta, as verdadeiras complicações para Montenegro decorrerão de um resultado final menos desequilibrado.Sendo complicado para o PSD caso André Ventura suba na segunda volta para a casa dos 35% a 37%, através da atração de alguns eleitores que votaram noutros candidatos e da abstenção de outros tantos, “se chegar aos 40% vai ser uma revolução, consolidando ainda mais a mudança no centro-direita”. Algo que lhe parece tanto mais possível quanto a taxa de rejeição do candidato junto do eleitorado da AD baixou muito nos anos mais recentes. Para a “vitória” que consistiria ficar a 20 pontos percentuais de António José Seguro, Riccardo Marchi acredita que Ventura deverá concentrar-se “muito mais “ no discurso do povo contra as elites. E não ter receio de parecer mais moderado, pois tem fidelizado o eleitorado radical.Para o professor catedrático jubilado José Adelino Maltez, nas próximas semanas André Ventura “quererá falar para o laranjinha médio”, procurando atrair os 2,5 milhões de eleitores que no domingo passado deram os seus votos a outros candidatos que não ele ou António José Seguro.“André Ventura quer ter um bom resultado, que seria ter mais votos do que a AD de Luís Montenegro”, defende o professor catedrático jubilado do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Como a coligação entre o PSD e o CDS obteve 1.971.556 votos a 18 de maio de 2025, isso implicaria mais 644.619 votos do que os obtidos na primeira volta.Caso assim aconteça, o candidato presidencial apoiado pelo Chega, a quem José Adelino Maltez reconhece a “virtude inegável de ter tornado a democracia portuguesa mais inclusiva, ao integrar a extrema-direita”, terá os sociais-democratas como principal vítima. Por isso mesmo, o catedrático defende que “Luís Montenegro tem de ficar calado e rezar à Nossa Senhora de Fátima para ver se não começa aqui a verdadeira erosão do PSD”.Mas também antevê que a disputa entre Seguro e Ventura - “alguém de ruralícias origens em Penamacor, e residente nas Caldas da Rainha”, e “um suburbano de Algueirão-Mem Martins” - acabará por depender de votos que “se vão decidir uns dias antes, ou mesmo nas urnas”..Apoios a Seguro.PSD: De Cavaco Silva a Marques MendesSe Luís Montenegro recusou dizer em quem irá votar, já outras figuras cimeiras do partido não esconderam a sua preferência. Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD na primeira volta, afirmou ontem defender a eleição de Seguro para a Presidência, por ser “o único candidato” que se aproxima de valores como “a defesa da democracia”. Ao DN, também Cavaco Silva, antigo primeiro-ministro e chefe de Estado, disse ir votar em Seguro. Pedro Duarte, Miguel Poiares Maduro, António Capucho e José Pacheco Pereira foram sociais-democratas que também saíram em apoio do socialista. IL e os apoios individuaisLogo após a primeira volta, algumas figuras destacadas do partido tomaram posição sobre o seu sentido de voto, casos do líder parlamentar Mário Amorim Lopes, do deputado Carlos Guimarães Pinto e do vice-presidente da Assembleia da República Rodrigo Saraiva. Os três disseram ir votar em António José Seguro, sendo que, mais tarde, a própria líder da IL, Mariana Leitão, anunciou que também ela o iria fazer, a título individual.CDS neutro, mas figuras do partido não A Comissão Executiva do CDS decidiu não apoiar nenhum candidato na segunda volta das eleições presidenciais. Ainda assim, alguns ex-deputados centristas, como Cecília Meireles, Diogo Feio e Pedro Mota Soares vieram dizer que votarão em António José Seguro. Também Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS, o fará. Por sua vez, o líder parlamentar centrista, Paulo Núncio, rejeitou, durante o debate quinzenal com Luís Montenegro, que se qualifique o presidente do Chega, André Ventura, como “candidato antidemocrata”..Cotrim de Figueiredo lança movimento cívico e não revela se vota em Seguro ou em branco.“Talismã” Cavaco animou Ventura num final de tarde para os sub-30.Ventura foi anunciar a Sacavém que a sua Comissão de Honra “é o povo português”