O Livre tem este fim de semana um Congresso eletivo em que serão escolhidos os 15 membros do Grupo de Contacto (o órgão executivo do partido) até 2028. A Lista A, que tem vindo a conduzir os destinos do partido desde a génese, teve dez eleitos em 2024. Isabel Mendes Lopes, coporta-voz que mantém posição de chefia na lista, realça ao Diário de Notícias que nas reuniões “se procura sempre o consenso” e que, quando esse “não existe, se avança para uma votação.” Daí que as listas de oposição, S e V, estabeleçam a meta de não haver maiorias.“No Grupo de Contacto temos o método de Hondt; quando há votação a maioria vota em bloco e impõe a sua vontade. Sentimos que há pouca disponibilidade para conciliar visões diversas”, começa por dizer Rodrigo Brito, da Lista S, que teve três eleitos em 2024. “O partido deve ser plural e para isso a Lista A tem de perder a maioria, de modo a haver cooperação no órgão executivo”, concorda Tiago Mota, da Lista V, com dois eleitos em 2024.Isabel Mendes Lopes, por seu lado, entende que o caminho deve ser de continuidade. “A lista A tem pessoas que estiveram no Grupo de Contacto, mas também novidades, pessoas ativas no território. É relevante, no nosso entender, continuar a conduzir o partido com a sua estratégia, mas sempre com a auscultação dos membros e apoiantes. Para bem do partido, achamos, a Lista A deve ter uma maioria clara e o máximo de membros eleitos, o que não quer dizer que não haja trabalho com outras listas”, realça a também líder parlamentar.Nas conversas com o Diário de Notícias, por igualdade de oportunidades, as três listas foram desafiadas a responder às mesmas questões, sobressaindo sobretudo dois pontos principais: o futuro do Livre sem Rui Tavares como porta-voz, decisão anunciada a poucas semanas do congresso abrindo caminho a Jorge Pinto para a sucessão; e a assunção da ideia de que o Livre está disponível para um governo PS.Rodrigo Brito, da Lista S, aponta ser “falsa a ideia de que Tavares se afasta da ribalta”, pedindo que Mendes Lopes e Jorge Pinto façam uma “reflexão”, dado não se poder “imputar somente a Rui Tavares as decisões” internas, critica o professor do Ensino Secundário, que entende que “não fragiliza, nem ajuda”, a saída de Tavares, porque “é o posicionamento político e ideológico que afeta o eleitorado.”Isabel Mendes Lopes vê na colocação de Tavares como número 3 da Lista A uma garantia de que não se afasta. “Não vai a lado algum. Vi títulos alarmantes, como que ‘abandona’ o Livre… O Rui continua na direção, pode dedicar-se mais à comunicação, à formação e continuará mais envolvido ainda a transmitir conhecimento”, aponta a engenheira. Já Tiago Mota, da Lista V, docente no Ensino Politécnico, relativiza o impacto eleitoral e pede, sim, mudança de rostos e de discurso. “Francisco Louçã foi importante no Bloco de Esquerda e saiu para dar oportunidade a outros. Aqui trata-se de pedir uma transformação, para voltar às bases iniciais e tocar na Assembleia dos Cidadãos, voltar às preocupações das populações. E o que vemos, como até Jorge Pinto e Isabel Mendes Lopes dizem, é uma continuidade na Lista A”, advoga, assinalando, criticamente, que é necessário ter porta-vozes rotativos. “É fundamental que seja aplicado o que se vê nos estatutos. Se a Lista A insistir neste modelo, reivindicaremos para o Conselho de Jurisdição e depois para o Tribunal Constitucional”, ameaça. "O que foi dito pelo Tribunal Constitucional foi a não pronúncia por questão de prazos, não se deu razão à lista A”, advoga, comentando não perceber “porque cita o Livre os partidos próximos na Europa na questão da liderança bicéfala”. Rodrigo Brito, da lista S, vinca que os “estatutos indicam claramente os porta-vozes rotativos, com valências diferentes, setoriais”. Também Rodrigo Brito, da Lista S, vinca que os “estatutos indicam claramente os porta-vozes rotativos, com valências diferentes, setoriais”. Embora admita o “esforço para dar destaque a todo o grupo parlamentar”, lembra as moções que salientam que “a implantação local tem sido descurada” e “que todo o trabalho estratégico do partido está na representação parlamentar”. Este rosto da oposição interna no Livre teme que “não se saiba se os assessores constantes na lista são dirigentes ou executantes”, citando o lugar de chefe de Gabinete Tomás Cardoso Pereira, deputado por substituição quando Mendes Lopes se afastou um mês do Parlamento..“Essa crítica da centralização é bastante infundada, os programas são feitos de forma colaborativa”, defende-se Isabel Mendes Lopes, explanando que, “à semelhança do que é feito nos parceiros verdes europeus, é importante para o eleitor e para a imprensa poder associar uma cara e uma voz ao partido.”Abertura ao PS divideEm entrevista ao DN, tanto Jorge Pinto, como Rui Tavares, defenderam que o Livre deve estar preparado para ser uma solução governativa e que o traço passa por angariar eleitorado da direita, e conseguir o quarto posto no Parlamento, que é da Iniciativa Liberal.“Para nós é um pouco cedo colocar isso assim. Fragiliza”, principia Rodrigo Brito quanto a uma possível aliança com o PS. “O Livre não tem um discurso acessível para pessoas com poucas qualificações académicas. Entendo tentarmos apelar a um voto jovem, que se identifica com a IL, mas todo o discurso da IL é de indiferença para os mais pobres. Tenho dificuldade em acreditar que vamos conseguir captar votos aí”, conclui, adiantando que “não houve prioridade política do Livre na taxação de grandes riquezas”, destacando que “a lista S tem “como fator diferenciador um rumo político nas diferenças socioeconómicas.”A Lista V tem similaridades na crítica. “Há um decréscimo da esquerda. O Livre está esquecido das convergências e temos de trabalhar mais com sindicatos. Mas no discurso temos passado a imagem de um partido elitista e não reivindicativo, considera o mestre em Ciências Cognitivas e professor no Instituto Piaget, em Almada.Tiago Mota avisa que qualquer acordo com o PS deve ser “decidido em referendo interno” e salienta que “o PS não tem sido sempre um partido de esquerda e que tem larga responsabilidade pelo estado do país”, expressando ainda que para combater “a tendência natural de caminhar para a direita do PS é importante que a convergência seja feita à esquerda.” “Estando sozinhos, é provável que nos aproximemos das políticas do PS, por ser o partido maior, e isso não é bom”, descreve a Lista V..Isabel Mendes Lopes vinca que o “crescimento a nível territorial e até das estruturas locais do Livre dá mais força para as eleições autárquicas e legislativas em 2029”, assumindo “não ser um partido de protesto.” “É no governar, na República, nas juntas de freguesias, câmaras e regiões autónomas que mudamos a vida das pessoas”, abrindo porta a “partidos alinhados com os valores do Livre” e relatando que é “na pluralidade que nascem as melhores soluções”. Como tal, “a convergência nacional” é parte da moção estratégica, ainda que sem compromissos com o PS: “Estamos focados no momento interno, logo se verá quando houver eleições.” As duas listas opositoras da Lista A lamentam, em uníssono, a falta de convergência nas presidenciais e a precipitação da candidatura de Jorge Pinto. “Não gostámos da abordagem nas presidenciais. Jorge Pinto foi levado ao colo. O processo não foi aberto, nem negociado como devia”, critica Tiago Mota, embora reconheça “afinidade pessoal e ideológica” com Pinto. “É um bom candidato, até no discurso, mas não se apresentou à eleição certa. E temos receio de que os eleitores tenham percebido a intenção de lhe dar algum mediatismo com a participação nas presidenciais”, comenta Rodrigo Brito. Ambos apontam os “resultados menos bons nas Autárquicas”, estão abertos a uma revisão de estatutos em 2027, mas apelam a que não haja um “maior fechamento das primárias”.“Não concordo com a análise das autárquicas, superámos os objetivos e tivemos mais eleitos. Temos quase 70 nas comunidades”, realça Mendes Lopes. “Jorge Pinto teve a coragem e a ousadia. Neste contexto, não podemos olhar para o resultado isoladamente. Havia um risco muito sério de ter dois candidatos radicais [André Ventura e Cotrim de Figueiredo]. Colocámos temas em agenda, acima de todos a revisão constitucional, e teve a generosidade de deixar explícito que percebia o que estava em causa. Tenho a certeza de que a lista A não será prejudicada. Faria tudo igual, seria um erro o Livre não se apresentar nas Presidenciais”, conclui Isabel Mendes Lopes.Politóloga não vê forma de o Livre captar na ILA politóloga e professora universitária do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Paula Espírito Santo, vê “um espaço político sobrecarregado à esquerda.” Justifica que o Livre e a IL têm “coerência programática e ideológica, mas espetros diferentes na política.” Como tal, o espaço do Livre “será o da esquerda e não tanto a atratividade junto do eleitorado de direita.” Assim, classifica como “utópico”, embora “bem intencionado e ambicioso”, o discurso de Rui Tavares de “pensar em chegar a 10% dos votos”. A politóloga entende ainda que, sem Tavares, o partido “pode ficar desamparado, a menos que apareça uma figura para ombrear com o estatuto” do antigo coporta-voz. Valorizando “debates e intervenções” de Jorge Pinto na campanha, a docente também detetou “inconsistências.” Parecia que andava para a frente e para trás”, alerta. "O PS não tem nada a ganhar em assumir possível negociação com o Livre nesta fase", advoga.Foi divulgado pelo Livre que será no domingo, pela hora do almoço, conhecido o resultado da votação. No sábado apresentam-se as listas candidatas ao Grupo de Contacto: Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto pela lista A, pela lista S Rodrigo Brito e Sara Paralta e pela lista V Tiago Mota e Mónica Casqueira. No Conselho de Jurisdição, Ricardo Sá Fernandes concorre com Paulo Muacho..Jorge Pinto: "Se a esquerda quer voltar ao poder, PS e Livre têm de estar nessa equação”.Oposições internas acusam liderança bicéfala do Livre de não cumprir estatutos.Visibilidade de Jorge Pinto nas Presidenciais foi pensada pelo Livre e é tida como trunfo eleitoral.Jorge Pinto candidata-se ao lugar de Rui Tavares no cargo de porta-voz do Livre