Deputada na anterior legislatura e atual adjunta da ministra do Trabalho, Clara de Sousa Alves candidata-se à presidência da JSD com alertas quanto à falta de propósito de uma organização juvenil que considera estar demasiado "fechada em si própria" e que precisa de estar mais atenta a problemas concretos.A trasmontana de 29 anos, que representou o círculo de Bragança, aponta a coesão territorial como uma das prioridades na eleição que disputa com João Pedro Luís, cinco anos mais novo e atual secretário-geral da JSD, num congresso que vai decorrer neste fim-de-semana, em Viseu. Mas também o que diz ser um acréscimo de ambição que defende ter estado ausente."Vejo a JSD muito mais como a voz dos jovens no partido do que propriamente como a voz do partido entre os jovens", defende Clara de Sousa Alves, para quem a organização juvenil social-democrata deve "fazer as suas lutas mesmo que isso incomode". Olhando para o mandato que está a terminar, o que tem a apontar de bom e o que é forçosamente necessário mudar na JSD?Antes de mais, faz sentido dizer que esta candidatura não é do contra, nem é contra ninguém ou porque alguém pediu. É uma candidatura sobretudo a favor da JSD. E vem desta visão fria e realista: no último mandato houve coisas boas e que devem continuar a ser feitas, e coisas menos boas, que se deve repensar e procurar alternativas. Do ponto de vista positivo, posso destacar que foi um mandato num período muito exigente do ponto de vista eleitoral. E a JSD sempre esteve presente e não deixou de marcar a sua posição e de acompanhar todas as eleições em que esteve envolvida. Mas, numa perspectiva do propósito de uma juventude partidária, que não serve só para acompanhar períodos eleitorais, mas também para trazer valor acrescentado para a sociedade, levando temas a debate e eventuais soluções que façam a diferença para a juventude portuguesa, temos falhado. Temos um espaço em aberto, que temos de voltar a ocupar e que tem a ver precisamente com a capacidade de falarmos dos temas reais da juventude, de pôr o dedo na ferida dos nossos problemas do dia a dia. Mais do que fazer diagnósticos ou comentários, porque toda a gente já está farta disso, há que apresentar soluções e discuti-las. Nesse aspeto, a JSD precisa de voltar a ganhar um bocadinho de ambição. Isso não decorreu da falta de qualidade, capacidade ou empenho dos nossos militantes, mas a JSD, para voltar a ocupar o espaço principal de participação política na juventude, precisa de ter bandeiras com os problemas reais dos jovens, precisa de se abrir à sociedade e não de se fechar sobre si própria, porque a partir do momento em que fica voltada para lógicas internas e não faz um serviço de dever cívico para com a sociedade, começa a perder o seu propósito e razão de existir. Procuro recuperar esta razão de existir da JSD, e é engraçado que me tenho confrontado muitas vezes com o seu hino, que tem uma frase espetacular: "Puxa por Portugal." Esse era o ímpeto reformista da JSD, quando Sá Carneiro decidiu dar espaço, para crescer dentro do partido, àquilo que ele dizia ser o fermento revolucionário para trazer discussões que, se calhar, mais ninguém trazia, trazer preocupações dos jovens para a discussão política, e é isto que a JSD tem de recuperar. .João Pedro Luís: "A JSD tem de ser ambiciosa e exigente consigo própria, com o partido e com o Governo".Neste momento, como se convence um jovem que esteja interessado em política a escolher a JSD, e não uma das juventudes partidárias à sua esquerda ou à sua direita? E ainda há a Iniciativa Liberal, que não tem juventude partidária organizada... Essa é uma das questões que costumo fazer nas minhas apresentações e nos contatos pessoais que tenho feito ao longo de todo o país. Temos de pôr a mão na consciência e perguntar o que dizemos a um jovem quando o queremos convencer de que o principal palco de participação política é a JSD. Não há dúvidas quanto ao posicionamento, mas convencemos sobretudo um jovem a juntar-se-lhe pelo facto de a democracia não existir sem partidos. Por muita participação cívica que queiramos ter em paralelo, que é importante e faz sentido do ponto de vista da sociedade, a verdade é que a nossa democracia só funciona com partidos. E a JSD foi sempre a juventude partidária com capacidade de trazer grandes temas a debate. O IRS Jovem, tal como a isenção do IMT e do Imposto de Selo, foram discussões embrionárias na JSD que fizeram o seu percurso político. Recordo que a isenção do IMT e do Imposto de Selo chumbou quatro vezes durante os oito anos de governação do PS, mas hoje é uma realidade e vi um bocado a notícia de que 100 mil jovens já beneficiaram disso. Convencemos um jovem a juntar-se à JSD ao dizer-lhe que vai encontrar o principal palco de participação política, não só no debate das questões que lhe dizem respeito, mas sobretudo na procura de soluções que consigam ver a luz do dia e fazer a diferença na vida das pessoas.Que posição deve ter a JSD na relação com o Governo no que toca aos temas que impactam a vida dos jovens, como o Pacote Laboral? A JSD sempre foi caracterizada por alguma irreverência e autonomia, e não as deve perder. Vejo a JSD muito mais como a voz dos jovens no partido do que propriamente como a voz do partido entre os jovens. Para isso, precisa de ter a irreverência que lhe é característica, de incomodar, de querer transformar, de manter essa posição de quase independência para lutar pelos desafios e pelas soluções, de dar a sua visão enquanto máximo representante da juventude dentro do partido e de fazer as suas lutas mesmo que isso incomode. Muitas vezes confunde-se silêncio com lealdade. A JSD não se deve silenciar e, mesmo assim, ser leal ao partido que suporta o Governo. Temos a responsabilidade acrescida de estar ao leme da juventude portuguesa e trazer a nossa visão, com a irreverência que é necessária, incomodando, levando algumas torcidelas de nariz, algumas viragens de cara, mas que mantenha as nossas convicções e as nossas bandeiras junto do partido e agora junto do Governo também. Quanto ao Pacote Laboral, a JSD tem de destacar o que é muito positivo para os jovens - e há muitas coisas positivas - e destacar o que é menos positivo e tentar procurar soluções alternativas. Como por exemplo?Do ponto de vista positivo, há várias alterações, desde logo a revogação do período experimental para pessoas à procura do primeiro emprego, pois é importantíssimo procurar evitar desvios à lei para prejudicar uma faixa da nossa população, nomeadamente dos jovens. Fazendo o disclaimer de que sou adjunta da ministra do Trabalho, houve também um grande envolvimento em procurar soluções, seja na questão do estatuto do trabalhador-estudante ou até nas licenças parentais, nas quais houve uma grande preocupação em aumentar a licença até seis meses, paga a 100%, com a necessidade de partilha nos últimos 60 dias, para forçar um bocado a mutação cultural para a igualdade. Há muita coisa positiva que deve ser destacada e aproveitada pela JSD para combater a desinformação. Acabo por ter essa experiência de contacto diário com a ministra, que é alguém que sabe muito do tema e que tem muita sensibilidade. Existe necessidade de trazer não só vantagens para a vida dos jovens, mas também procurar que o mercado de trabalho e que o nosso tecido empresarial tenha condições para se desenvolver, para aumentar a produtividade e aumentar a competitividade, e com isso também valorizar os trabalhadores, nomeadamente os trabalhadores jovens, que estão a iniciar a carreira profissional. Tendo feito um balanço positivo das medidas fiscais para os jovens, o que mais é necessário fazer?Muita coisa. Quando decidi apresentar a minha candidatura, lancei uma plataforma online, uma bolsa de contributos em que os militantes pudessem colocar questões e sugestões. Se inicialmente estava resistente à plataforma e com algumas dúvidas quanto ao seu efeito prático, hoje vejo que não falta envolvimento dos nossos militantes, e até de jovens que não fazem parte do partido, e nos trouxeram muitas preocupações práticas. Há muito que se pode fazer, não só na área da emancipação e da construção de um projeto de vida, mas também da educação e da mobilidade. A JSD é uma juventude partidária representativa dos jovens do país, sejam de Alfândega da Fé ou de Faro, de Lisboa ou do Porto. Tive a preocupação, quando lancei a plataforma, de desenhar dez princípios genéricos e abstratos que acompanham o percurso de vida de um jovem. Apresento várias medidas na área da educação, desde logo a flexibilidade curricular para os alunos de ensino secundário e a questão do contacto com a experiência vocacional de um jovem, que no fim do 9.º ano tem que determinar a área que segue, muitas vezes sem sensibilidade para o mercado de trabalho. Essa exploração vocacional tem de começar muito antes, até para evitar outro tipo de problemas que acabam por surgir, nomeadamente relacionados com a saúde mental, frustrações pessoais e individuais. Temos também propostas na área da mobilidade, algo que, para mim, que sou de um distrito do interior, envelhecido e desertificado, tem importância. No que diz respeito à coesão territorial, o debate da regionalização é algo que também tem de ser embrionário dentro da JSD. Temos de voltar a despertar o tema, porque a verdade é que o nosso país continua completamente desequilibrado, e só não cai para o mar porque está agarrado à Espanha. Temos de pensar em formas de garantir não só uma descentralização, mas noutra organização administrativa.A regionalização é um tema em que o PSD também não tem estado muito empenhado. Há dois anos, no congresso do PSD, eu e outros militantes decidimos apresentar uma moção precisamente para lançar esse tema a debate. Na JSD voltaremos a despertá-lo, com a irreverência que nos é característica. No que diz respeito à coesão territorial, pensamos na revisão do sistema eleitoral, para combater alguma polarização da nossa sociedade e desligamento entre representados e representantes. Isso acaba por acontecer em territórios mais do interior, com alguma desigualdade na representação, e portanto também trazemos aqui uma proposta para que o único critério não seja a densidade populacional e número de eleitores, mas que o território tenha um peso que garanta alguma majoração. E outra medida que até foi debatida recentemente na Assembleia da República, pois queremos criar um Passe Nacional Verde, que permita expandir o Passe Verde a territórios onde não há ferrovia, arranjando alternativas rodoviárias para garantir alguma ajuda do Estado e alguma igualdade entre os jovens portugueses.O que pode a JSD fazer em concreto para assegurar que o PSD se renova e para manter a vantagem que os estudos de opinião dão à AD dentro do eleitorado jovem? A JSD acaba por ser muitas vezes a porta de entrada dos jovens no partido. E é sobretudo importante pelo impacto reformista e formativo dos seus militantes, que permite essa renovação de quadros no PSD, enquanto lufada de ar fresco e renovação da própria estrutura.Quando se candidata à liderança da JSD é possível não ter em mente que entre os antigos líderes há um antigo primeiro-ministro, um atual secretário-geral e dois atuais vice-presidentes do PSD, o atual presidente da Câmara do Porto e uma atual ministra?Não é possível não ter isso em mente, fruto da qualidade e da participação viva dentro da estrutura. É um orgulho olhar para a JSD e ver que foi o embrião de grandes quadros no partido que estão a dar um serviço enorme à sociedade e a fazer a diferença nas várias formas governativas na sociedade portuguesa. São referências e - não posso mentir - elevam muito a fasquia de quem quer estar ao leme desta juventude partidária. Tenho essa responsabilidade e esse peso em cima dos meus ombros e tudo farei para não frustrar as expectativas quanto ao que pode ser o valor da JSD na sociedade portuguesa.