Mais recente acontecimento numa sequência tão movimentada quanto o filme Batalha atrás de Batalha, nomeado para 13 Óscares, em que Leonardo DiCaprio tem o papel principal enquanto antigo revolucionário, a segunda volta das eleições presidenciais encerrou um ciclo de eleições sucessivas em que André Ventura começou por tornar-se deputado único do Chega e acabou com mais de 1,7 milhões de votos ao ser derrotado por António José Seguro. Pelo meio, passou a ter o segundo maior grupo parlamentar, liderando a oposição ao Governo, e conquistou a presidência de três câmaras municipais.Terminado um ciclo em que protagonizou duas candidaturas presidenciais, e conduziu o partido em quatro eleições legislativas e duas autárquicas, abdicando de ser cabeça de cartaz somente nas europeias de 2024, nas quais o Chega teve o resultado mais desapontante em menos de sete anos de existência, Ventura defendeu que os 33,18% obtidos “contra um sistema ainda mais intenso e ainda mais feroz” são prenúncio de liderança da direita portuguesa. O que lhe permite afirmar que “é justo dizer que os portugueses nos colocaram no caminho para governar este país”. Ainda assim, nos responsáveis do Chega ouvidos pelo DN prevalece a ideia de que não há pressa para esse passo seguinte. Sem eleições de âmbito nacional pela frente nos próximos três anos, pelo menos se os microciclos governativos dos últimos anos se juntarem à “geringonça” no arquivo da política portuguesa, é hora de consolidar o estatuto de maior força da oposição, com tudo o que isso implica, na Assembleia da República e no espaço público..Ventura cantou vitória sobre quem não estava no boletim de voto.Apesar de o tripartidarismo ter sofrido um revés nas autárquicas de 2025, pois a subida de votação no Chega fez eleger 137 vereadores (mais do que a CDU), mas só permitiu conquistar três câmaras municipais (Albufeira, Entroncamento e São Vicente, na ilha da Madeira), quando havia expectativas de mais de uma dezena de vitórias no Algarve, Alentejo, Península de Setúbal e Ribatejo, o resultado da segunda candidatura presidencial de André Ventura reanimou as hostes. E a neutralidade de Luís Montenegro, que manteve a tese de que os sociais-democratas não estavam representados por nenhum dos candidatos à segunda volta, facilita que se mantenha o equilíbrio parlamentar em que o Chega vai gerindo, numa navegação à vista, aproximações e distanciamentos em relação à AD. Sem problemas internos evidentes entre “veteranos” e “reforços” de um partido que tem vários antigos membros do PSD entre os eleitos - além da antiga deputada do PAN Cristina Rodrigues e do ex-conselheiro nacional da Iniciativa Liberal Nuno Simões de Melo -, os próximos meses devem ficar marcados pelo aumento de visibilidade do Governo-sombra que Ventura apresentou no ano passado. E que tem figuras como o antigo ministro social-democrata Rui Gomes da Silva, o atual vereador da Câmara do Porto Miguel Corte-Real, também vindo do PSD, ou a investigadora universitária Teresa Nogueira Pinto. . Os últimos resultados eleitorais também entusiasmam responsáveis do Chega no que toca à implantação ao longo do território nacional, pois a desvantagem que existia no Norte em relação ao Sul parece ultrapassada, ao ponto de a votação de Ventura nas presidenciais indicar que seria possível eleger um deputado por Bragança, único círculo onde o partido nunca obteve representação parlamentar. No entanto, as presidenciais reforçaram a maior preocupação do Chega, que não está a atrair o eleitorado das maiores cidades. Ventura teve apenas 23,09% dos votos em Lisboa - apesar do bom resultado nas freguesias de Marvila e de Santa Clara -, 22,01% no Porto e 21,80% em Oeiras.. Sondagem anteviu transferência de votos.Mesmo que nem todos os votos conquistados por André Ventura na segunda volta tenham sido de outros candidatos a 18 de janeiro, sendo provável que o líder do Chega deva parte do crescimento eleitoral a abstencionistas, tudo indica que parte dos que optaram por Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e Marques Mendes tenham ignorado o apoio a António José Seguro - explícito nos dois últimos, enquanto o eurodeputado liberal só deixou claro que não votaria em Ventura. Essa transferência foi antecipada na sondagem DN/Aximage, revelada na quinta-feira, que atribuía a Ventura 19% dos eleitores de Cotrim de Figueiredo, 16,6% dos eleitores de Gouveia e Melo e 13,7% dos de Marques Mendes..Uma noite tão emotiva como rápida acabou com "20 anos de porrada"