Na corrida presidencial muito se falou em dar resposta aos jovens. João Cotrim de Figueiredo e António José Seguro capitalizaram, sob o signo da esperança, do direito a sonhar, a principal fatia do eleitorado mais novo. Uma mudança, possivelmente, face a outros tempos, em que a esquerda cativava mais ambições de transformação. Agora, a prosperidade económica, o crescimento individual e algum sentido de estabilidade pautam o discurso de quem andou na campanha presidencial. A mobilização, efetiva, em torno de Seguro foi crescendo no pré-campanha eleitoral, angariando mais pessoas em dezembro, após os debates, quer a partir de faculdades, quer de empresas, e nem sempre via partidária. Esse foi um contrapeso importante à dinâmica que Gouveia e Melo e Marques Mendes, por exemplo, nunca conseguiram acumular junto da juventude.Nas várias ações de campanha do agora Presidente da República eleito, que o DN acompanhou, foi sempre possível ver uma a duas dezenas de jovens, vestidos a rigor, munidos de megafones, cartazes, alguns adereços publicitários e, acima de tudo, da voz, para poderem marcar a compasso as arruadas e as iniciativas mais preenchidas de população. Acabava uma ação, entravam na carrinha género furgão, de porta de correr, para acelerarem para outra.“Não consigo responder com grande certeza sobre quantos éramos, porque alguns estavam 100% no terreno, apanhávamos sempre frio e chuva, enquanto outros estavam em certos locais mais perto de casa. Fixos na caravana, diria que éramos nove - fizemos o país todo”, afirma Salvador Varges ao DN, ainda de voz rouca nas Caldas da Rainha, pouco depois de perceber que as projeções davam Seguro como Presidente da República.“Tínhamos jovens locais de diferentes estruturas, que vinham ter connosco vendo a agenda, muitos deles não tinham partido”, recorda. Varges era um dos ‘apóstolos’, sempre na carrinha, para todo o lado. “Sou estudante, de outra forma não teria sido possível”, vinca, explicando a dedicação exclusiva à campanha durante os últimos dois meses, de verdadeiro périplo pelo país.Com 20 anos frequenta o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa. É vice-presidente do Núcleo de Comissão Política e foi aluno de Seguro. “Tenho de vos dizer que foi uma das maiores honras da minha vida, ter o António como professor. Nas aulas dava uma visão do país muito semelhante àquela que trouxe aqui, também, para a candidatura à Presidência da República. Pedia rigor, era muito rigoroso, pedia investigação e que provássemos com dados estatísticos tudo o que queríamos dizer. Essa dedicação, essa exigência marcou-me”, explica.E não é de somenos a afirmação. Salvador é vogal da Comissão Política Nacional da Juventude Popular. “A minha posição não vincula a posição da instituição, até porque a instituição teve uma postura muito coerente de não apoiar nenhum candidato a estas eleições”, destaca o centrista, elogiando que o CDS “respeitou a decisão” e que “isso mostra uma nova visão de política, uma visão em que as pessoas estão numa casa, num partido, mas, acima de tudo, respeitam-se umas às outras.”Aos 20 anos tomou uma decisão individual de mostrar apoio a um candidato socialista, apesar das críticas dos deputados do CDS. Paulo Núncio chegou a dizer que “o inimigo natural” do partido era o socialismo.Paulo Lopes Silva, deputado do PS pelo Círculo Eleitoral de Braga, foi o diretor de campanha e entregou a André Abraão, de Vila Real, que trabalha na secretaria-geral do Governo como jurista, a missão de organizar os jovens pelo país. O socialista teve a ajuda da líder da JS e deputada Sofia Pereira, esta na capital, e dos mandatários para a juventude, Rita Saias, que era consultora de Marcelo Rebelo de Sousa, e Renato Daniel, antigo presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC). .“Foi uma candidatura suprapartidária. Tivemos pessoas do PSD, do CDS, do Livre, da IL e de outros quadrantes políticos. Isso ajuda muito, foi o passar das palavras aos atos."Salvador Varges, apoiante de Seguro e membro da Juventude Popular.Empreendedores e líderes, todos muitos associados pela visão de país mais do que pela cor partidária. A Juventude Socialista depositou vozes e esperança na multidão, mas nunca foi dominante. Tal como o próprio ‘PS graúdo’, que apoiou via federações, mas sem ter os principais líderes no terreno ao lado de Seguro.“Esta candidatura foi uma candidatura suprapartidária. Tivemos pessoas do PSD, do CDS, do Livre, da IL e de outros quadrantes políticos. Isso ajuda muito, foi o passar das palavras aos atos”, elabora Salvador Varges, que concorda que a presença de André Ventura teve o condão de unir a oposição em certos momentos. “André Ventura pertence a um tipo de direita que não é a minha, coloco-me na direita humanista, pluralista, onde o Estado tem um papel de apoio, mas sem esquecer o crescimento, o desenvolvimento da sociedade e dos negócios”, explana, rápido a identificar o que Seguro transmitiu à faixa mais jovem: “Significou estabilidade, mudar o que está mal, sem revoluções. Falou muito de emprego, de inovação, de dar condições a todos e aos jovens também. Há alguma esperança.”Sem penalizar a decisão do CDS de não apoiar qualquer candidato, Varges diz até que “os resultados estão à vista” e que “Luís Montenegro, como primeiro-ministro, está a fazer um bom trabalho.” O paradoxo, possível, de defender um primeiro-ministro criticado pelo partido de origem do candidato presidencial que apoia. E uma campanha que, também por isso, ficará para a História. A agregação em torno de Seguro transcendeu, efetivamente, barreiras partidárias e a sua colocação ao centro é identificada pela população.Depois de festejar efusivamente a vitória de um projeto em que esteve diariamente envolvido, após saltar abraçado a socialistas, outros centristas, liberais ou filiados no Livre, Varges acredita que o caminho na política passará por essa congregação: “Vimos o país, trocámos ideias, temos a nossa forma de pensar. Este respeito, e a perceção de que é possível sermos mobilizadores e agregadores, pode ser uma nova configuração para fazer política.” .A prosperidade económica, o crescimento individual e algum sentido de estabilidade pautaram o discurso de quem andou na campanha presidencial. E a mensagem encontrou eco nos eleitores mais jovens. As novas preocupações dos jovens.Dos pactos de regime à gestão do equilíbrio parlamentar. Seguro entra em Belém já com caderno de encargos .Quem são os conselheiros de Seguro: Saúde e diplomacia em destaque.PS: Governo quer "tratar os jovens como jovens a dias" - António José Seguro