As armas da Airbus para vender caças a Portugal: soberania e presença reforçada no ecossistema industrial

As armas da Airbus para vender caças a Portugal: soberania e presença reforçada no ecossistema industrial

A Airbus realizou a sua “cimeira” anual de Defesa num momento em que Portugal debate a compra de caças. O DN falou com os responsáveis da empresa e ouviu o “pitch” ao Governo português.
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Com Portugal prestes a lançar o concurso para a compra de quase 30 caças para substituir os F-16, a Airbus aposta forte em três grandes argumentos para convencer as autoridades políticas portuguesas de que há vantagens em optar pelo Eurofighter Typhoon. O DN esteve na Airbus Defence Summit 2026, que decorreu esta semana em Manching, na Alemanha, e as conversas com vários responsáveis da empresa permitiu sintetizar os pontos fortes da proposta: “soberania” de Portugal na decisão; o reforço das parcerias industriais já existentes e acesso a outro equipamento militar e espacial avançado.

Vamos por partes. “O nosso principal argumento é dizer que vamos permitir a Portugal e à Força Aérea Portuguesa (FAP) operar o caça de uma forma soberana. Não vamos colocar limitações. Não vamos controlar a forma como vão planear as missões. Vão ser livres para operar o aparelho da forma que quiserem. Sem limitações, de forma transparente e partilhando completamente a tecnologia do Eurofighter”, diz, ao DN, Ivan Gonzálex, o diretor de vendas do Eurofighter. Ou seja, a Airbus quer capitalizar a principal crítica que é feita ao caça preferido da FAP, o americano F-35 Lightning II, a de que a Lockheed Martin não transfere tecnologia para os países que o adotam. A mensagem é clara e foi reiterada ao DN - e à imprensa portuguesa presente no evento - pelo CEO do Grupo Airbus. “A Airbus é uma empresa que coopera à escala europeia. Garantimos a soberania da solução que desenvolvemos. E gostamos de acreditar que a Europa precisa mesmo de crescer e progredir na área da Defesa, não só comprando equipamento, mas também comprando equipamento europeu”, disse Guillaume Faury. O responsável máximo do grupo - a maior empresa de Defesa europeia - tocou, assim, num aspeto repisado até à exaustão no decorrer do evento. O setor da Defesa europeia só se fortalece com inovação e mais e melhores equipamentos, se os Estados-membros da UE comprarem material europeu. Aliás, os países europeus só compram às empresas europeias de Defesa cerca de 10% do que o Governo dos EUA compra às empresas de Defesa americanas. É, portanto, o argumento do “ajudem-nos a ajudar-vos”.

A viver há mais de um ano em Portugal, precisamente para trabalhar na potencial venda de Eurofighters à FAP, Ivan González tem vindo a reunir-se, todos os meses, com empresas portuguesas com quem pode fazer parcerias para participarem no projeto. Muitas já estão estão assinaladas. E aqui reside o segundo grande argumento: a Airbus já tem uma forte presença em Portugal.

“O memorando de entendimento (MoU) entre a Airbus e o AED Cluster Portugal, no contexto do Eurofighter, é um exemplo perfeito desta abordagem, porque cria um quadro estruturado para interagir com o ecossistema industrial português, para mapear as capacidades e identificar áreas potenciais de cooperação”, salienta Ivan González. O MoU em causa permitiu à Airbus identificar novos parceiros industriais para a Defesa, diz ao DN. Além dos 13 acordos já assinados, há contactos com 10 empresas industriais: Aernnova, EEA, CEiiA, Mecachrome, Critical SW, Tekever, ETI, OGMA, Lauak e a Orion Technik. Objetivo: avaliar o potencial papel de cada uma delas na cadeia de abastecimentos global do Eurofighter.

Nada, no entanto, que se aproxime à ideia de Portugal poder vir a acolher montagem de quaisquer partes do aparelho que comprar. Essa ideia foi admitida por outro concorrente, os suecos da SAAB, que querem vender a Portugal o seu JAS-39 Gripen E.

“Isso é muito fácil de dizer, mas muito difícil de implementar. Quando se compra uma pequena quantidade de aviões, a matemática do negócio tem de bater certo. Quando falamos de 20, 24 ou 28 aparelhos, uma linha de montagem final não é comercialmente viável. Normalmente, se alguém vos diz o contrário, talvez não esteja a ser completamente honesto convosco. Mas a realidade é esta: a montagem final só se justifica com um número sufiente de caças, e falamos de 50 a 70 caças”, sublinha Iván González.

“Esta é a resposta honesta que estamos a dar ao país. Não podemos vender fumo ou ar quente ou prometer coisas e depois não as cumprir. Não, a realidade é que vemos potencial para o fabrico de peças e componentes para o caça, o fabrico de peças para o motor, equipamento que pode ir a bordo do Eurofighter. E também potencial para manutenção e para treino. Mas a montagem final, isso é diferente”, conclui.

O terceiro argumento surgiu sob a forma de um catálogo extenso de equipamento que a imprensa vinda de todo o Mundo - mas sobretudo europeia - analisou, observou em demonstrações ao vivo e questionou na Defence Summit. Apesar de não ter sido dito explicitamente pelos responsáveis da Airbus, a ideia está presente: uma compra de Eurofighters abre o caminho a melhores negócios noutro equipamento. Para a Airbus, que tem nos helicópteros os seus produtos mais vendidos, é claro: Portugal pode ser comprador e utilizador dos helicópteros de última geração do grupo, como o Eurocopter Tiger (aparelho de ataque), ou o NH-90, considerado um dos melhores helicópteros multiusos do mundo. Mas também drones e tecnologia espacial em que a Airbus tem apostado.

“A Airbus está pronta para apoiar Portugal nos seus programa de Defesa. As decisões acerca do quadro de compras, janelas temporais ou financiamento - seja através do SAFE, da Lei de Programação Militar ou outro instrumento - ficam inteiramente do lado do Estado português. O nosso papel é oferecer capacidade de alto valor e transparente do nosso extenso portfolio, que vai dos aviões militares aos sistemas espaciais, passando por comunicações seguras e soluções ciberresilientes”, completa o responsável.

Por último - e não sendo um argumento ainda em cima da mesa, porque está embrionário e com problemas de desenvolvimento - a Airbus tem mais um ponto a fazer: Portugal pode colocar um pé na porta para o programa do caça de 6.ª geração.

“Ao invés de ser uma compra única, esta parceria permitiria assegurar fabrico de alto valor acrescentado e transferência de tecnologia para os fornecedores nacionais, o que serviria como uma ponte para os futuros sistemas de combate de 6.ª geração”. Não é um quarto argumento, mas poderá dar que pensar ao ministro da Defesa Nacional, no momento de decidir.

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Caças Eurofighter em Portugal? "A solução da Airbus garante soberania", diz CEO do grupo
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