António José Seguro será o novo Presidente da República. Os votos deste domingo não deixam margem para dúvidas: o candidato socialista foi eleito à segunda volta com quase 67% dos votos (66,82%, à falta dos votos de 20 freguesias que adiaram a votação para a próxima semana, devido ao mau tempo, e de sete consulados no exterior). Um resultado que fica muito perto do recorde de 70,35% alcançado por Mário Soares nas presidenciais de 1991. Porém, em termos absolutos, Seguro foi mais votado do que Soares, com quase 3,5 milhões de votos, tornando-se assim o político mais votado de sempre numas eleições em Portugal.O candidato derrotado, André Ventura, conseguiu 33,18%.No total, estavam inscritos 10 milhões de eleitores e a taxa de participação foi de 50,11%, valor que compara com 52,26% na primeira volta. Já os votos brancos e nulos foram 5% do total. A votação foi adiada em vários concelhos afetados pelo mau tempo, mas o número de eleitores residentes nesses municípios não será suficiente para alterar o vencedor. No seu discurso de vitória, Seguro prometeu manter-se leal à Constituição e contribuir para a estabilidade e com independência face a todos os partidos e parceiros sociais. “Prometi lealdade e cooperação com o Governo, cumprirei a minha palavra. Vou ser exigente com soluções e resultados, não serei oposição”, disse. “A estabilidade que defendo é para garantir governabilidade e mudanças, não para manter tudo na mesma. Terminado um ciclo de nove meses com quatro eleições, existem três anos sem eleições. É uma oportunidade única para resolver os problemas que enfrentamos: no acesso à habitação, ao emprego para os jovens, na Saúde, Justiça e melhores condições para os portugueses”, salientou.Por sua vez, André Ventura admitiu a derrota e deu os parabéns a Seguro, aproveitando o momento para reclamar a liderança da direita. “Já dei os parabéns ao doutor António José Seguro e os votos de um grande mandato. O sucesso de António José Seguro será o sucesso de todos”, disse.“Terminámos esta campanha a lutar contra todo o sistema político português. Liderámos na primeira volta o espaço não socialista português, conseguimos mobilizar uma parte do país contra um sistema de 50 anos montado no bipartidarismo e conseguimos dizer aos portugueses que pela primeira vez havia uma alternativa que não era do espaço do PS e do PSD. Liderámos a direita e vamos continuar a liderar”, afirmou.O líder do Chega terá beneficiado dos votos de eleitores que, na primeira volta, escolheram Gouveia e Melo, Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes. O Barómetro DN/Aximage, divulgado na passada quinta-feira, apontava para uma transferência de votos para Ventura na ordem dos 20%. Somados, esses eleitores que transitaram para o líder do Chega rondarão os 400 mil.O mesmo barómetro DN/Aximage previa que Seguro venceria com 65,5% dos votos e que Ventura teria 30,3%. .Seguro defende legislatura até 2029, mas vai fiscalizar Governo e com um estilo diferente de Marcelo. Montenegro promete “cooperação” e “três anos e meio sem eleições”O primeiro-ministro Luís Montenegro reagiu à vitória de António José Seguro com a promessa de “cooperação” com o futuro inquilino de Belém, para garantir a “estabilidade política”. Montenegro disse esperar que Portugal tenha agora três anos e meio sem eleições e frisou a necessidade de dar continuidade “ao programa do Governo, com ele trazendo resolução de muitos problemas que afligem a vida dos portugueses, em particular nos serviços públicos de saúde, no acesso a todos à educação, esse bem essencial para garantir igualde de oportunidade”.“Este período de três anos e meio sem eleições nacionais que se abre agora é, pois, altura de todos poderem estar com o sentido de cumprirem aquelas que foram as garantias que deram ao povo português. Todos os órgãos de soberania estão legitimados”, disse.Por sua vez, o líder do PS, José Luís Carneiro, destacou “a alegria dos socialistas” por recuperarem a Presidência 20 anos depois. Carneiro recusou a ideia de que a vitória de Seguro seja um “balão de oxigénio” para o PS e garantiu que novo Presidente vai ser “independente”. E aproveitou para deixar um recado ao Governo, dizendo que a vitória de Seguro mostra que dois terços dos portugueses pronunciaram-se a “favor dos valores constitucionais.”“Vai ser exigente mas também um fator de estabilidade”O Governo poderá esperar que Seguro seja um fator de estabilidade, disseram ao DN várias personalidades próximas do novo Presidente. Mas se Montenegro esperar que isso signifique falta de exigência, estará enganado, disseram. “Vai ser exigente, mas também um fator de estabilidade e não será por ele que não se reforma o que é necessário”, disse ao DN o médico e militante socialista Álvaro Beleza. E como é trabalhar com Seguro? “É organizado, cumpre horários e é disciplinado”, salientou Beleza, acrescentando: “Se houvesse slogan para ele, seria depois do trabalho é ‘um gajo porreiro’”.Questionado sobre com qual dos seus antecessores em Belém terá Seguro mais semelhanças, Beleza respondeu que terá algumas características que fazem lembrar o general Ramalho Eanes, nomeadamente do ponto de vista “institucional e da ética”. De Sampaio terá a “sobriedade”, de Cavaco o “rigor” e o “perfecionismo”. “E Soares foi a sua/nossa inspiração de juventude - a coragem, porque sem ela não se candidatava contra tudo e contra todos. Mas terá uma marca própria. Equilíbrio e proximidade com raízes”, concluiu.A socialista Alexandra Leitão tem uma visão semelhante, no que toca ao papel de Seguro como garante de estabilidade. “António José Seguro será sobretudo um Presidente da República que vai respeitar e fazer respeitar a Constituição, assegurando o seu cabal cumprimento. Será o garante dos direitos fundamentais dos cidadãos e do regular funcionamento das instituições democráticas. Este é o grande significado que se retira da sua vitória e, tenho a certeza, do seu mandato”, disse ao DN.O economista António Rebelo de Sousa, apoiante de Seguro (e irmão de Marcelo) considera, por sua vez, que será um Presidente “moderado, equilibrado, realista, equidistante em relação às principais forças políticas democráticas e que vai contribuir para o reforço da democracia”. .Ventura cantou vitória sobre quem não estava no boletim de voto.Uma noite tão emotiva como rápida acabou com "20 anos de porrada"