André Ventura
André VenturaRui Manuel Fonseca/Global Imagens

Ventura: “A escolha é entre o Portugal de 2024 e o de 1974”

Num discurso com um bocadinho de tudo para todos, de polícias a idosos, de jovens a professores, André Ventura usou fórmulas da extrema-direita europeia e acenou com o medo do PREC e os “traidores” que dão dinheiro a um museu em Angola.
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André Ventura chegou ao palco da Convenção Nacional do Chega, em Viana do Castelo, com um discurso inflamado, pontuado por momentos musicais, pensados para gerar emoção. A enorme sala do Centro Cultural de Viana do Castelo estava cheia e foi-se levantando em aplausos e vivas ao líder que que se apresenta para a reeleição sem adversários.

Luís Montenegro “a transpirar”

À semelhança do que fez à chegada da Convenção na sexta-feira à noite, Ventura apresentou-se como candidato à liderança e não poupou nos ataques ao PSD. Luís Montenegro, aquele que Ventura viu “a transpirar” na noite eleitoral da Madeira, é alvo de ridicularização. “Na Madeira fizemos engolir o maior sapo da história”, disse.

Candidato a primeiro-ministro, André Ventura faz as primeiras promessas: a valorização salarial das forças de segurança e pensões mínimas ao nível do salário mínimo nacional em seis anos.

“Nenhuma maioria de direita existirá, nenhuma maioria de direita subsistirá” sem que seja atribuído a todas as forças de segurança o mesmo suplemento que foi atribuído por este Governo à PJ.

A teoria da grande substituição

Tentando descolar da imagem racista e xenófoba, André Ventura aproveitou o facto de na primeira noite ter tido dois brasileiros (um deles racializado) a discursar para garantir que não há xenofobia no Chega.

Um dia antes, Marcus Santos, brasileiro e negro, tinha feito um discurso que empolgou a sala, defendendo que “sangue português até mosquito tem”, o que conta é a “alma portuguesa”.

Este sábado, Ventura foi buscar o dirigente do Chega do Porto como exemplo do que deve ser a imigração, notando a forma como bateu continência à bandeira nacional quando passou por ela no fim do seu discurso.

“O que eu gostaria era que todos os portugueses tivessem este amor à bandeira que o Marcus e outros como ele têm”, declarou antes de atacar os que vêm para a Europa sem respeitar os valores ocidentais, referindo-se às mulheres de burka e ao terrorismo, e decalcando o discurso da tese da grande substituição que tem sido usada pela extrema-direita na Europa e na América, onde alguns dos seus defensores foram autores de ataques racistas.

O número manipulado para atacar a “ideologia de género”

A ideologia de género foi outro dos alvos a abater. Manipulando os números, Ventura acusou o Estado de gastar “400 milhões” para apoiar a ideologia de género enquanto subsistem idosos com pensões de “200 ou 300 euros”.

A tese foi usada por Santiago Abascal do Vox, em Espanha, que usou a globalidade do orçamento do Ministério da Igualdade (que incluía verbas para apoio a vítimas de violência doméstica) como se fosse destinado a políticas de fomento da chamada ideologia de género.

“Isto não vai ficar bem nos jornais da noite mas eu vou dizer à mesma”, anunciou antes de falar nestes supostos 400 milhões que, na verdade, dizem respeito à soma de todas as medidas constantes no último Orçamento do Estado que se considera que de alguma forma apoiam a igualdade entre homens e mulheres.

"Eu garanto-vos uma coisa, aquele dinheiro todo que damos para as ideologias de género e para promover a igualdade de género [...], vou pegar nesses milhões todos e vou dizer às associações: 'esqueçam, não vão receber um tostão'", declarou, prometendo usar esse valor, caso venha a ter responsabilidades governativas, na criação de "um fundo de apoio" às forças de segurança e aos ex-combatentes.

Trio de horrores

A tónica nacional foi dada pelo medo do PREC, a que associa Pedro Nuno Santos, e pelo “trio de horrores” que antecipa que poderá ser um governo onde estejam o líder do PS, mas também Paulo Raimundo, do PCP, e Mariana Mortágua, do BE, todos no Conselho de Ministros.

“A escolha é entre o Portugal de 2024 e o de 1974”, afirmou André Ventura, que quer posicionar o Chega como o partido da modernidade e dos jovens e se demarca do ano da Revolução de Abril que trouxe ao país a liberdade, a escola pública e o SNS.

Apesar das promessas, sem nenhuns números, Ventura apresenta-se como se estivesse acima do eleitoralismo. “Eu não quero governar para as eleições, eu quero governar para as próximas gerações”, disse.

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