"Sintra está a transformar-se num enclave cada vez mais atrasado na área metropolitana de Lisboa"

Uma "perceção de insegurança terrível" , muitas pessoas num "ciclo vicioso de pobreza", jovens que "fogem" do concelho. Candidato da coligação encabeçada pelo PSD a Sintra, Ricardo Baptista Leite quer destronar Basílio Horta. E pede uma a maioria absoluta aos sintrenses.

Tem um percurso autárquico feito em Cascais. Porquê esta candidatura a Sintra?

A minha primeira oportunidade profissional como médico foi no Hospital Amadora-Sintra. Conhecia Sintra vivendo ali na proximidade, mas a partir do momento em que comecei a trabalhar no Amadora-Sintra conheci uma realidade que até então desconhecia. Aquilo a que chamamos a malha urbana, com enormes dificuldades económicas, profundas desigualdades. Lembro-me de ficar chocado, à época, com a quantidade de gravidezes adolescentes, famílias desestruturadas, problemas muito graves. Isto marcou-me profundamente, tamanhas desigualdades num território a 20 quilómetros de Lisboa, um concelho rico, património da Humanidade. Mais tarde, já na vida política, como vice-presidente e vereador de Cascais, tive oportunidade de trabalhar num concelho que tem sido um exemplo do ponto de vista do desenvolvimento. Quando surgiu este desafio de poder ser candidato a Sintra, reconhecendo as enormes dificuldades, vi aqui uma oportunidade de tentar fazer o que fizemos ali ao lado em Cascais.

Não reconhece as críticas de que é um candidato de fora? Marco Almeida, que é do PSD, disse que é candidato a Sintra, como podia ser à Amadora ou ao Porto...

O meu percurso fala por si. Quem vive em Sintra olha para Cascais, assim como olha para Oeiras, para Mafra, como modelos de desenvolvimento. O facto de ter sido vice-presidente em Cascais, uma câmara que é um caso de sucesso versus uma câmara que não conseguiu fazer isso, que é o caso de Sintra... É uma obrigação quase moral, aceitar esta missão de tentar fazer o melhor e garantir que as pessoas possam beneficiar das potencialidades que Sintra tem para oferecer.

Acha, portanto, que Sintra está a ficar para trás na Área Metropolitana de Lisboa ?

Não tenho qualquer dúvida. Sintra está-se a transformar num enclave cada vez mais atrasado na área metropolitana de Lisboa. Está rodeado de um conjunto de concelhos, particularmente Cascais, Oeiras, Mafra, até a Amadora [está melhor] em alguns indicadores... Sintra vai ficando para trás. Por exemplo, a taxa de mortalidade infantil é superior à média nacional, isto é absolutamente inaceitável. Quando olhamos para a sensação de insegurança, está pior que nos concelhos vizinhos. Quando olhamos para o desemprego, de fevereiro do ano passado a fevereiro deste ano, duplicou. Quando vemos que Sintra é o quarto concelho a nível nacional com maior número de desempregados com formação superior, é chocante. Mas há um outro indicador que diz muito: entre quem tem 30 anos de idade, são 14% aqueles que conseguiram atingir formação universitária. É praticamente metade do que vemos em Cascais ou Oeiras. Porquê? Porque existem muitas pessoas no concelho de Sintra que estão presas a um ciclo vicioso de pobreza que não conseguem quebrar. E os poucos que conseguem, a primeira coisa que fazem é fugir do concelho. O concelho ainda não está sequer na fase de poder falar de atração de talentos, ainda não consegue sequer retê-los. Sintra tem que mudar o rumo radicalmente.

Se for eleito, qual será a sua primeira preocupação?

Diria que há três coisas a fazer de imediato, nos primeiros meses. A primeira é a criação imediata de uma unidade operacional de segurança, uma força tripartida, liderada pela PSP, GNR e Polícia Municipal, para garantir a implementação imediata de videovigilância no território. Estamos a ver a transição de criminalidade do concelho da Amadora para o concelho de Sintra e, para além disso, existe uma sensação de insegurança, as pessoas não saem à noite com medo, não andam no comboio da linha de Sintra com medo. Esquadras, postos da GNR, nada foi feito ao longo destes anos.

Há um problema de insegurança no concelho de Sintra?

Há uma perceção de insegurança terrível, que condiciona a vida das pessoas. Quando uma pessoa idosa não pode sair à noite, como uma senhora que conheci, que vive no centro de Queluz, quando os jovens me dizem "vou para a universidade de manhã, em Lisboa, de comboio, mas à noite partilho um táxi ou um Uber com os meus amigos, porque temos medo de andar no comboio à noite", isto demonstra que algo vai mal.

E a segunda tarefa imediata?

A economia local. Precisamos de uma injeção imediata de capital nas empresas locais, no comércio local, que foi sendo esquecido ao longo da pandemia. Levantando-se as moratórias, ficando as empresas obrigadas a pagar os créditos, precisam que a câmara se chegue à frente onde o Governo não se chegou. O terceiro eixo tem a ver com a Saúde. Sintra tem mais de 100 mil pessoas sem acesso a médico de família, uma situação que se tem vindo a agravar.

É uma competência do Governo central e do ministério da Saúde...

Pois, tal como a segurança deveria ser do Ministério da Administração Interna. Mas nós temos que garantir que a câmara, as juntas de freguesia, intervenham onde o governo central falha.

Como é que uma câmara consegue resolver esse problema?

Olhando para os indicadores da OCDE, é claro que vai ser muito difícil o governo central conseguir resolver isto até 2023/24. A câmara tem que garantir a contratação direta, através dos meios disponíveis no setor social e privado, de médicos assistentes que possam acompanhar as pessoas sem médico de família.

Sintra vai construir um hospital. Vai resolver os problemas de saúde no concelho?

A câmara decidiu investir perto de 50 milhões de euros na construção de um edifício que chama de hospital. Tantas camas quanto a clínica da CUF, praticamente do outro lado da rua. Perante uma taxa de mortalidade infantil acima da média nacional, não tem um serviço de ginecologia/obstetrícia previsto. Mais: qual é principal causa de morte no país, incluindo em Sintra? Doenças cardiovasculares, enfartes, AVC's. Mesmo com esse edifício, com um serviço de urgência básica, se tiver um enfarte no concelho de Sintra qualquer cidadão tem de ir para o Hospital de Cascais ou para o Amadora-Sintra. Um dos objetivos que tenho é alterar aquilo que são as especificações técnicas do edifício, para que responda às necessidades efetivas da população. De uma vez por todas tem que se perceber e acho que a câmara de Sintra não percebeu: a saúde não se resolve com betão. Resolve-se com médicos de família, garantindo consultas a tempo e horas, com programas de rastreio, com políticas de saúde pública.

Sintra é segundo concelho mais populoso do país, só atrás de Lisboa. O que é que propõe para a habitação?

Temos aqui uma oportunidade extraordinária, no país e no concelho de Sintra em particular, através do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), que prevê verbas muito avultadas nesta área. O programa de habitação local que muitos concelhos já negociaram com o Governo, à data de ontem [quinta-feira] penso que eram 72... a câmara de Sintra ainda não assinou. Tenho reunido com vários parceiros da sociedade civil, a perguntar se têm sido consultados: não seria aceitável fazer um programa de resposta à habitação sem falar com os parceiros que trabalham no terreno. Ninguém foi consultado. Não se compreende, espero que não haja a falta de bom senso de apresentar algo a partir da câmara, no centro da vila de Sintra, para responder às necessidades de todo um concelho, sem falar com as pessoas. Seria um erro tremendo.

E nos transportes?

Se falarmos de um meio mais rural do concelho, há uma enorme dificuldade até para chegar ao centro da vila, à malha urbana. E temos movimentos pendulares de quase metade da população, particularmente para Lisboa, mas não só. Para resolver a questão da mobilidade temos que ter alguns objetivos muito claros. Neste momento, os problemas de segurança impedem até o uso dos meios existentes. Já foi anunciada - e nós precisamos de um presidente de câmara com uma voz ativa junto do Governo para que cumpra as suas promessas - a renovação das carruagens e o aumento da frequência das mesmas, esperemos que ocorra, de facto. Para além disso, parece-me fundamental que o metro da área metropolitana de Lisboa, que termina na Reboleira, se estenda para Sintra. Neste momento todo o investimento está a ir para oriente, nada está a vir para o concelho. A malha urbana de Sintra, o segundo concelho mais populoso do país, não pode ser excluída desta forma de transporte, que é fundamental.

Já disse várias vezes que Sintra tem de ter voz junto do Governo. Basílio Horta é apoiado pelo partido que está no Governo, porque é que um presidente de outra cor política teria mais peso?

Tive alguma esperança que Basílio Horta, sendo ele agora socialista, fosse capaz de ter esse peso e usar essa influência junto do Governo. Volvidos oito anos de governação, isso não existe. Sempre que foi preciso fazer investimentos a sério no concelho foram os munícipes a pagar. Precisamos de alguém que tenha uma voz que defenda o concelho. Recordo que ali ao lado, em Cascais, Carlos Carreiras é um social-democrata e tem tido uma voz liderante no contexto da pandemia, tem sido capaz de garantir que o Governo cumpre as suas obrigações. Sintra também merece ter uma voz audível.

Desafiou Basílio Horta para um debate às dez da noite na sexta-feira, numa estação de comboios. É um desafio pouco ortodoxo...

Ando na rua há meses e, pela minha experiência em Cascais, com Carlos Carreiras, estava à espera de ver Basílio Horta na rua. Ao longo destes meses nunca o vi. E as pessoas queixam-se muito da falta de proximidade do presidente da câmara. Ligam para a câmara, ninguém responde, mandam mails, não há resposta... Há tantas perguntas que precisam de resposta, achei que era minha responsabilidade desafiar o presidente para termos uma conversa franca, perante a população, numa das zonas com mas dificuldades, na freguesia de Queluz-Belas. Um debate de ideias, para que os cidadãos possam colocar perguntas e possam ouvir, de parte a parte, as posições e as diferenças.

Se não vencer as eleições, fica como vereador em Sintra?

Aceitei este desafio e esta missão para mudar o concelho de Sintra. É um projeto que não se faz de um dia para o outro, não será sequer num só mandato. Independentemente do resultado, ficarei no concelho de Sintra para contribuir para o seu desenvolvimento.

Admite uma coligação com o Chega, se for necessário para ter maioria na vereação?

No poder local não existe a possibilidade de geringonças: quem ganha as eleições é quem tem mais um voto. Portanto, o primeiro objetivo é garantir que sou eleito presidente de câmara. A partir do momento em que formos eleitos, naturalmente que o objetivo será governar. E aí, terei que ter muito cuidado na escolha daqueles que são os parceiros... Espero ganhar com maioria absoluta, para não ficar refém de uma situação dessas.

Mas admite ou não?

Neste momento não me revejo no Chega, é um partido que tem uma linha de pensamento com a qual não me identifico, muitas vezes acaba por ter uma posição racista que não é compaginável com a visão que defendo. Tudo farei para não depender desse partido.

Marco Almeida é uma sombra sobre a sua candidatura?

Sou líder de uma coligação de sete partidos, que inclui muitos independentes, e um conjunto de personalidades que estiveram associadas ao meu companheiro de partido Marco Almeida. Naturalmente espero que todos, também do PSD, que queiram apoiar esta candidatura o façam. Já reuni várias vezes com o Marco Almeida e estou na esperança que ele também possa vir a apoiar esta candidatura. Acima de tudo estamos preocupados com o futuro, os problemas de Sintra são demasiado sérios para nos perdermos em questões partidárias.

A direção do PSD joga o futuro nestas autárquicas?

Isso são jogos de bastidores partidários que não me preocupam minimamente. Neste momento, há um sentido de urgência de provocar uma mudança em Sintra, é a isso que estou dedicado. É o meu foco único e exclusivo.

susete.francisco@dn.pt

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