Paulo Portas. Europa está a perder o comboio da inovação

Só três países investem 3% do PIB em I&D. E isso traduz-se na capitalização das empresas. EUA e China dominam - e esta ganha gás.

Suécia, Áustria e Alemanha. São os únicos países a investir mais de 3% do PIB em Investigação e Desenvolvimento (I&D) - Portugal fica-se por 1,4%. E, com isto, a Europa está a perder terreno, e muito, num campo essencial quando se fala de criar valor e se pensa no futuro da Europa. Basta pensar, por exemplo, que a China tem o recorde de patentes no 4G, 5G e 6G, tecnologia que estará presente em todos os setores e que determinará a forma como o próprio mercado evoluirá. O antigo vice-primeiro-ministro falava na conferência da GS1, abrindo o tema: "Descodificar o Futuro".

A explicação para Portas está nas políticas de longo prazo de Pequim. Não é por acaso que as previsões apontam que, entre 2028 e 2033, ultrapasse os EUA como maior economia mundial. Mas há vida além da inovação. O mais importante é olhar a crescente tensão entre EUA e China. O país desafiador, que cresce a uma velocidade incrível e desafia o incumbente, o poder instituído. Paulo Portas defende a criação de um sistema internacional de gestão de crises entre estes dois países. Porque é uma tensão que irá continuar e terá impacto mundial.

Basta pensar que a ascensão da China cria tensão na própria Ásia (é o único país que já teve conflitos com todos os vizinhos) - o Japão afirmou há dias que qualquer intrusão em Taiwan será considerada um ataque a Tóquio. Tomando a energia como exemplo, a China importa mais de 60% do que consume, o que tem de passar pelos vizinhos. Estes voltam-se para os EUA como forma de proteção, agravando ainda mais a tensão entre as duas potências.

Do rural para o digital

Em poucas décadas, a China passou de país rural a uma das economias mais desenvolvidas. Para se ter uma ideia, quando se fala do digital o país conseguiu replicar todos os segmentos. Compras? O mundo tem a Amazon, a China a JD.Com. Pagamento? Em vez do PayPal pense Alipay. Além da deslocalização das indústrias (a Europa foi pródiga nisso) para mercados asiáticos, com ênfase na China. Com isto, hoje, Pequim é simultaneamente o principal fornecedor, parceiro e cliente. De todo o mundo.

"Houve uma migração da riqueza para a Ásia, que é hoje responsável por 47% do crescimento real (ajustado) mundial", referiu Portas, acrescentando que, na Ásia, à China deve-se 19% do crescimento global (em 1980 representava menos de 3%). Ou seja, um pequenino problema ali é sentido em todo o mundo.

Essa dependência tornou-se óbvia na pandemia. O confinamento trouxe restrições à produção e, mais tarde, à logística e transporte. E ainda se sente. As matérias-primas estão mais caras e o preço dos contentores marítimos nunca foi tão alto.

As lições da pandemia

Para percebermos os efeitos da covid, há que interiorizar que a pandemia foi e é global, mas não é nem nunca foi simétrica, lembra Portas. Cada bloco (geográfico e económico) teve o seu tempo, quer de implementação do vírus quer do impacto (na maioria dos casos, retrocesso) na economia da vacinação e da passagem para a situação endémica. E isso tem consequências ao nível da saúde, mas sobretudo económicas. Veja-se o caso dos EUA, os que mais rapidamente investiram no desenvolvimento e implementação da vacina. Ainda assim, o facto de ser o segundo país com mais negacionistas condicionou a recuperação. O que também está, a par da "democracia digital, a paralisar os governos".

Feitas as contas, com a pandemia, a China perdeu seis meses, os EUA um ano e a União Europeia 18 meses. Isto para recuperar para níveis de 2019. "Irlanda, China e Turquia foram as únicas economias que começaram a crescer em 2020", constata Paulo Portas, acrescentando que "devíamos olhar para o que a Irlanda está a fazer bem" em vez de só criticarmos o mau. Porque esse crescimento só é possível através de uma estratégia de comércio aberto e livre e do investimento na inovação. É essencial para tirar as pessoas da pobreza e gerar crescimento.

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