O que une os deputados sub-30? Saúde mental, emancipação e salários

São nove em 230 deputados, de diferentes forças políticas mas unidos por um fator: a idade. Todos têm até 30 anos e já fizeram algum trajeto político seja nas juventudes partidárias ou no próprio parlamento. Há um economista, um engenheiro, quatro juristas, um consultor financeiro e dois gestores. Mas quem são - e o que pensam - estes jovens?

Com a contagem de votos terminada, a lista de eleitos indica: cerca de 4% do novo parlamento vai ser ocupado por deputados com 30 ou menos anos. São nove (menos dois do que na anterior legislatura), estão situados em diferentes partes do país e já com agendas bastante preenchidas. Juntá-los para uma fotografia e uma conversa não se adivinhava tarefa fácil. Depois, também um caso de isolamento por covid-19 e contratempos de última hora acabaram por ser obstáculos.

Ainda assim, o ponto de encontro ficou definido para as escadarias da Assembleia da República. À hora marcada, pelas 17h00, lá estiveram. Eduardo foi o primeiro a chegar, Alma veio depois, Rita foi a terceira e, a seguir, Alexandre e Miguel - de PSD e PS, respetivamente - chegaram juntos. Apesar de distantes politicamente, as divergências não impediram que os deputados convivessem de forma saudável durante alguns minutos. E, como o DN percebeu, até há temas que os unem nas prioridades políticas para esta nova legislatura. Ideologias à parte, partilham preocupações sobre o futuro dos mais novos no campo da saúde mental, assim como a emancipação e os salários, e mostram-se dispostos a apresentar propostas nesses e noutros campos sociais.

Para Patrícia Gilvaz (Iniciativa Liberal), o "acesso à habitação é uma preocupação, porque os jovens saem de casa dos pais muito tarde". Além disso, no entender da jovem deputada, de 24 anos, também um "olhar diferente" para o tema da saúde mental deve tornar-se prioritário, para mais tendo em conta o efeito nefasto provocado pela pandemia. Miguel Costa Matos (PS), 27 anos, concorda e acrescenta: "O SNS ainda tem uma grande lacuna na saúde mental. Isso é dramático." Por sua vez, Miguel Rodrigues, 26 anos, um dos 119 eleitos para a bancada socialista, partilha a preocupação sobre o acesso dos mais jovens a casa própria, mas acredita que "com a Lei de Bases da Habitação, o arrendamento acessível e as estratégias locais de habitação, as coisas vão resolver-se".

Um dos aspetos que, de facto, mais une os jovens deputados é a dificuldade que as gerações mais novas têm em se emancipar, pois saem de casa dos pais cada vez mais tarde - segundo o Eurostat, em 2021, a idade média para o fazerem em Portugal estava nos 30 anos. "É importante que os jovens possam construir futuro, não só em termos de qualificações, mas também poderem ter melhores salários e uma habitação digna", diz Joana Sá Pereira (PS), 28 anos.

Rita Matias (Chega), 23 anos, a mais nova do grupo, concorda e acrescenta que além da compra de casa também existem as dificuldades no mercado de arrendamento, que tem valores de rendas "desadequadas ao vencimento dos jovens, situação essa agravada pela falta de acesso a créditos à habitação".

Por isso, também os (baixos) salários preocupam os jovens deputados. "Para lá de condições de trabalho mais dignas, os jovens têm de ter salários mais altos", realça o alentejano Eduardo Alves (PS), 28 anos. Alma Rivera (PCP), 30 anos, concorda e diz que este é "um fator de vulnerabilidade e também contribui para que o mundo do trabalho esteja tão desregulado".

Por fim, Bernardo Blanco (Iniciativa Liberal) e Alexandre Poço (PSD) convergem numa outra área: o ambiente. Para o deputado liberal, de 26 anos, "os recursos hídricos são uma preocupação", com Alexandre Poço (29) a referir que esta é uma área "no centro das preocupações do partido e da JSD" há alguns anos.

De "primeiro político" da família a "recrutado por uma ideia"

Até serem eleitos deputados, todos passaram, primeiro, por uma fase de aproximação à política. Encontrada uma organização com a qual se identificassem, filiaram-se e começaram a trabalhar em torno daquilo em que acreditavam. Tal como as ideologias, também os antecedentes políticos dos jovens deputados diferem. Alexandre Poço caracteriza-se como o "primeiro político da família". "Sempre gostei muito de ler e ver notícias, de acompanhar a realidade, e conjugando esses meus gostos e outros fatores sociais, ganhei cedo uma grande consciência cívica", refere. Filiou-se na JSD em 2009, algo que lhe deu, considera, toda a "experiência política" que hoje tem, "seja a nível interno, em órgãos autárquicos, ou na Assembleia da República".

Num contexto diferente está Bernardo Blanco, eleito pela primeira vez e um dos que não conseguiram estar presentes para a fotografia de grupo por estar em isolamento profilático. "Não nasci dentro dos partidos, mas cresci a falarem de política à minha volta. Desde cedo que houve muito interesse da minha parte, porque a minha mãe chegou a ser filiada no PSD, apesar de não ser militante ativa" do partido, conta ao DN. Bernardo teve convites para se juntar à JSD mas, por não se rever nas ideias, recusou, aliando-se à IL a convite de Rodrigo Saraiva, um dos fundadores do partido e futuro líder parlamentar da bancada de oito deputados.

Também Joana Sá Pereira entrou na vida política por alguma influência de pessoas próximas. "Os meus pais não eram militantes, mas sempre tive uma dimensão e um interesse associativo à minha volta. Os anos da troika marcaram-me muito e decidi fazer parte da solução. Diria que tenho um ímpeto inconformado", explica. Eduardo Alves, um dos dois estreantes eleitos pelo PS, conta que foi recrutado para a política com 15 anos, altura em que o atual presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor, Hugo Hilário, "se estava a mobilizar e a criar uma plataforma de agregação de pessoas à volta da vida política". Uma vez filiado na JS, Eduardo Alves chegou a número três da organização a nível nacional, cargo que ocupa atualmente.

Noutro prisma, Miguel Costa Matos foi "recrutado por uma ideia", diz. "Não conhecia ninguém que estivesse a participar", começa por explicar. Então juntou-se à JS com apenas 14 anos, "a idade mínima para entrar". Fê-lo "porque olhava para o país e achava que era importante aprofundar as reformas que na altura estavam em curso, e porque havia um conjunto de coisas que estavam a ser feitas e que entendia precisarem de ser feitas de forma diferente". As causas foram também aquilo que levou Miguel Rodrigues, outro dos estreantes, a juntar-se à JS. Frequentando uma das escolas intervencionadas pela Parque Escolar, que entretanto não continuou o processo de remodelação, o agora deputado, natural de Matosinhos, fez duas coisas: "Primeiro, tentei que a câmara municipal resolvesse. Quando isso não resultou, fechámos a escola e organizámos um protesto", ao qual a JS se juntou. E, ao contactar com essa realidade, Miguel percebeu que havia ideias com as quais se identificava e decidiu aderir.

A estreante Rita Matias não foi sempre filiada no partido pelo qual foi eleita, o Chega. Começou na Juventude Popular (do CDS-PP) e, após as legislativas de 2019, desfiliou-se e juntou-se ao partido liderado por André Ventura. "Desde que me conheço que sempre me vi envolvida na participação cívica e política, sobretudo a nível local e, em particular, em causas como a defesa da vida", disse ao DN, em resposta enviada por escrito.

Outra das estreantes é Patrícia Gilvaz. "Entrei na política porque queria ter uma voz ativa na vida e nos aspetos políticos, e foi isso que me fez ficar", começa por dizer. "Fui presidente da associação de estudantes da faculdade, mas não me revia. Comecei a fazer algum trabalho de pesquisa e, fruto também da comunicação forte, acabei por juntar-me à Iniciativa Liberal", explica. Foi também a universidade que trouxe Alma Rivera, a mais velha dos jovens deputados, para a política. "Foi um processo de aproximação, primeiro à JCP e depois passou para o PCP. E teve que ver muito com questões concretas e práticas", conta. Tendo entrado no ensino superior "numa altura em que estavam a ser feitos muitos cortes a apoios e bolsas, de muita luta estudantil", Alma percebeu que "fora dos momentos altos, só encontrava uma organização com trabalho constante e sólido para tentar mobilizar mais gente". Era o PCP. "A minha adesão acabou por ser algo natural", explica.

"A maioria absoluta não é uma coisa que se vota"

Após o chumbo do Orçamento do Estado em outubro e posterior convocação de eleições, a composição do parlamento alterou-se. Depois de semanas em que sondagens apontavam para uma eleição renhida, o PS conseguiu a tão pedida estabilidade governativa (sem usar o termo "maioria", que apareceu apenas na reta final de campanha), com os restantes partidos que formavam a geringonça (PCP, PEV e BE) a terem uma redução substantiva no número de deputados. O Bloco de Esquerda passou de 19 para cinco mandatos, o PCP viu o seu grupo parlamentar reduzido para seis, metade do que tinha, e Os Verdes deixaram de estar representados. Houve também um aumento dos votos à direita. Ainda que a percentagem de votos no PSD tenha sido aproximadamente a mesma, o Chega e a Iniciativa Liberal viram as votações subir e passaram de deputados únicos para 12 e oito mandatos, respetivamente. O aumento de votos nestes dois partidos significou também a saída do CDS do hemiciclo, não tendo eleito nenhum deputado.

As leituras sobre esta alteração de votos diferem consoante o espetro político de cada um dos deputados. Para Rita Matias, "o resultado não é assim tão surpreendente", uma vez que, considera, "o PSD foi muleta do PS ao longo da última legislatura e, com isso, os eleitores apenas demonstraram que, entre o original e a cópia, preferem sempre o original". A deputada espera, agora, que os resultados sejam uma aprendizagem. Por um lado, "para uma direita complexada que se procura "travestir" de esquerda para seduzir o eleitorado" e, por outro, "para a esquerda e a extrema-esquerda que durante seis anos viabilizaram sucessivamente os Orçamentos do Estado" do PS e que sempre "procuraram desresponsabilizar-se".

Para o PS, a leitura é, naturalmente, diferente. Na ótica de Miguel Costa Matos, "o povo português votou para ter um governo de esquerda e quis dar condições de estabilidade a esse governo. A maioria absoluta não é uma coisa que se vota, não está lá no boletim "maioria absoluta: sim ou não"", considera. Para o deputado socialista, isto significa que "o PS tem agora a responsabilidade de continuar o caminho da geringonça dentro da maioria, aplicando políticas e implementando reformas que possam ter ficado bloqueadas".

Também Alexandre Poço, do PSD, tem uma leitura diferente. Da perspetiva do maior partido da oposição, o resultado obtido é "uma desilusão" e deve-se a, na ótica do deputado, o PS ter conseguido "agregar e gerar em si uma dinâmica de voto útil no espaço do centro-esquerda e da esquerda", algo que não se verificou à direita. Bernardo Blanco, da Iniciativa Liberal, concorda. Para o jovem deputado, "a estratégia de voto útil de António Costa funcionou bem".

Na ótica do PCP, o resultado pode dever-se, entre outros fatores, "ao medo que estava a ser incutido às pessoas, durante a última semana de campanha, de uma possível maioria de direita". Para Alma Rivera, este "não é um resultado positivo", pois "retira instrumentos e armas ao povo português dentro da Assembleia da República". No entanto, refere, mantém-se viva "a união, a força, a mobilização que o povo tem e isso nunca lhe vai ser retirado".

Ao ter um governo maioritário, Portugal passará, agora, por um ciclo de quatro anos liderados pelo executivo de António Costa. Esta situação pode trazer consigo novos desafios, uma vez que, com uma maioria, a oposição não conseguirá chumbar medidas propostas pelo governo.

Para Patrícia Gilvaz, da IL, o futuro próximo passa "por uma preocupação com o crescimento do país" e com foco "nas áreas da educação e da saúde", sendo também necessário "perceber como será o pós-pandemia".

Por sua vez, Miguel Rodrigues, do PS, considera que, estando num governo maioritário, "o principal desafio vai ser uma certa reconciliação" com a maioria absoluta, e mostrar que tal não significa "poder absoluto", indo ao encontro das palavras de António Costa no discurso da noite eleitoral. Eduardo Alves concorda e, além disso, refere que "é importante continuar a haver diálogo" entre os partidos da esquerda. "Será sempre uma discussão saudável e séria, independentemente da maioria absoluta", considera.

Tendo sido eleita também pelo PS, Joana Sá Pereira vai na mesma direção e, para ela, o principal desafio dos próximos anos será "continuar a trajetória" feita até aqui. "É importante continuar a combater as desigualdades. O primeiro passo para isso será a aprovação do Orçamento que foi chumbado em outubro, que tem um conjunto de medidas que permitem às pessoas ter mais condições". O companheiro de bancada Eduardo Alves tem a mesma opinião: "É importante humanizar o trabalho. O caminho passa por pagar melhor e dar condições mais justas às novas gerações."

Jovens e política: paixão ou divórcio?

O peso das gerações mais jovens na definição de políticas públicas deve ser levado em conta, sendo certo que "os mais novos podem mobilizar-se pontualmente para uma determinada causa", considera Alexandre Poço. A comunista Alma Rivera aponta como exemplo as questões ambientais, que só ficaram no centro das atenções "devido à mobilização dos jovens, que se uniram por algo em que acreditam". Estas considerações parecem, aliás, ser confirmadas por dados divulgados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) em novembro de 2021. De acordo com o documento, metade dos jovens inquiridos votam sempre que há eleições, com as petições a serem o tipo mais comum de participação cívica (40%), seguido do voluntariado (16%) e de colaborações com associações (12%).

Isto deve levar os partidos a "fazer um esforço de aproximação", considera o deputado do PSD, de modo que os mais novos se mobilizem para votar. Poço usa até a Iniciativa Liberal como exemplo: "Temos visto que tem uma maior atratividade junto dos jovens, que nos faz repensar a nossa comunicação, a nossa forma de organização e a forma como fazemos política." Bernardo Blanco, estreante eleito pela IL, concorda com esta perspetiva: "Sei que muita gente da minha idade [26 anos] não vai ver um telejornal, mas sei que vão estar no Instagram e podem ver informação sobre política lá." Por isso, explica, "o passo seguinte é pensar em como apresentar a informação", o que faz que o recurso a memes e outro tipo de linguagem mais acessível seja a primeira escolha da IL para comunicar. Miguel Costa Matos acrescenta que, mais do que os jovens serem desinteressados pela política, "os partidos é que devem ser acusados de não se interessarem pelos jovens". Com os mais novos a participar e a serem ativos nas redes sociais, "as juventudes partidárias devem fazer uma reflexão e pensar em como chamar os jovens", considera.

Rita Matias tem a mesma opinião. Na resposta por escrito, disse que "os partidos pecaram pela falta de educação para a cidadania e participação cívica, focando-se em todos os temas e mais alguns, menos no incentivo ao conhecimento dos direitos e deveres políticos enquanto jovens e cidadãos", o que conduziu a um afastamento entre as partes.

Apesar de haver alguns jovens com mais experiência nas rotinas parlamentares, há outros que serão totalmente novos na Assembleia. Para os novatos, esta eleição traz também uma mudança de rotinas. A vida de Patrícia Gilvaz "vai passar a ser dividida entre Lisboa e Porto", porque não quer deixar de contactar com a realidade do círculo pelo qual foi eleita; também Eduardo Alves, do PS, vai dividir o seu tempo entre Lisboa e a região que o elegeu (Portalegre), uma vez "cortar o cordão umbilical com a realidade é o pior que pode acontecer", considera. Miguel Rodrigues partilha a mesma intenção, "se os trabalhos parlamentares assim o permitirem", enquanto Rita Matias encara esta eleição como uma "oportunidade de representar uma geração que tem sido esquecida ao longo das últimas décadas".

rui.godinho@dn.pt

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