Marcelo. Governo para 4 anos e que "recupere confiança perdida"

Na mensagem de Ano Novo, Marcelo Rebelo de Sousa frisou que é preciso "virar a página" do país, da pandemia, da crise económica e com uma Assembleia da República e governo relegitimados e previsibilidade política.

A poucos dias de eleições legislativas antecipadas e com a pandemia ainda por resolver, o Presidente da República chamou este sábado todos os cidadãos ao esforço coletivo de "virar a página" neste ano de 2022.

Sem o tradicional apelo à votação nas eleições de 30 de janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que das legislativas sairão "uma Assembleia da República e um governo com legitimidade renovadas para os próximos quatro anos". E num momento em que as sondagens não apontam para nenhuma possibilidade de maioria absoluta de nenhum partido, fez votos para que o próximo Parlamento saído das eleições "dê voz ao pluralismo de opiniões e soluções" e que o "governo possa refazer também ele a esperança e confiança perdidas ou enfraquecidas e garanta a previsibilidade para as pessoas e seus projetos de vida".

Ou seja, Marcelo aponta para a necessidade da estabilidade política, seja qual for o partido vencedor a 30 de janeiro, seja o PS ou o PSD. Nunca mencionou a palavra "acordos" ou "entendimentos" , mas foi para eles que apontou ao falar de necessidade de "previsibilidade".

O Presidente da República começou por um balanço, comparando o ano de 2020 com o de 2001, considerando que este último foi "muito mais duro", precisamente aquele em que iniciou o segundo mandato em Belém. "Não começámos com dias fáceis, foram quase seis meses aqui e lá fora ainda mais duros do que em 2020". E elencou a dureza: a pandemia, a paragem económica, a crise social, a descompensação das pessoas e o desgaste nas instituições.

Mas, lembrou, "resistimos, vacinamos, abrimos escolas presenciais, pusemos a economia a arrancar, exportámos, recebemos turistas outra vez, ensaiamos começar de novo", afirmou. Passou ainda pela eleição de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas, pela aprovação do certificado digital durante a presidência portuguesa da União Europeia e pela aprovação dos fundos europeus para os próximos anos.

"Tudo no meio da pandemia", frisou e apelou ainda a maior persistência para ultrapassar os problemas derivados da pandemia de covid-19. Marcelo Rebelo de Sousa apelou às crises que Portugal viveu e ultrapassou ao longo dos séculos para acentuar a ideia de que agora "há muito mais a fazer para recuperar o tempo perdido".

"Este 2022 tem de ser mesmo um ano novo, vida nova. Num mundo com mais crescimento, menos pobreza, mais empenho nos desafios climáticos, menos egoísmos dos povos e Estados", disse e também mais atenção ao que diz respeito direto à vida dos cidadãos, como seja o aumento da energia, do custo de vida e dos bens básicos.

E Portugal?

E o que esperar e querer para Portugal? "Podemos fazer muito mais", assegurou Marcelo. E elegeu cinco ideias para avançar: consolidar, decidir, reinventar, reaproximar e virar a página.

O Presidente da República defendeu nesta primeira mensagem de Ano Novo do seu segundo mandato que é preciso consolidar o percurso de superação da pandemia. "Estamos encaminhados, mas falta o fim dos fins". Apontou de janeiro a março o "tempo crucial" para "fechar este capítulo da nossa história".

A palavra "decidir" conjugou-a com a escolha do novo Parlamento e do novo governo. A reinventar com a necessidade de ultrapassar as "nossas vidas congeladas, adiadas, trucidadas pela pandemia", usando os fundos "que são irrepetíveis" com transparência, rigor, competência e eficácia, combatendo as corrupções e os favorecimentos ilícitos.

A palavra reaproximar desembocou na defesa da solidariedade para com os que passaram mais sacrifícios, pelo desemprego e pelas insolvências, pelo cuidar dos mais idosos e mais doentes. Marcelo pediu ainda que se olhe para as crianças", cujo futuro tem ficado esquecido pela prioridade dada aos grupos de risco.

"Todos os que vivem no passeio da nossa vida com solidão vão demorar muito mais tempo a reviver após o que sofreram", afirmou Marcelo. É preciso, por isso, "virar a página" e prometeu que estará presente "mais do que nunca" e conta com os portugueses "mais do que nunca".

Crise política

Dada a proximidade das eleições e o facto de estarem em jogo todos os partidos, fez Marcelo resistira qualquer apelo ao que desencadeou uma crise política em plena pandemia.
Recorde-se que no momento em que começaram os primeiros sinais de instabilidade entre os parceiros de apoio parlamentar do governo, no caso PCP e Bloco de Esquerda, o Chefe do Estado advertiu que o chumbo do Orçamento de Estado para 2022 conduziria à dissolução do Parlamento.
E foi o que aconteceu precisamente depois de PCP e BE não terem chegado a acordo com o governo de António Costa para deixar avançar mais um Orçamento do Estado. É neste sentido, que o Presidente neste discurso de Ano Novo aponta para a necessidade de um governo para quatro anos, seja qual for a solução saída das eleições legislativas e previsibilidade política que permita aos cidadãos e às empresas reorganizarem as suas vidas.
Um governo que terá de executar os fundos, a chamada "bazuca" europeia, que traz para Portugal cerca de 6,4 mais de seis mil milhões de euros para gastar até 2029.

As mensagens anteriores

Em 2021 presidenciais silenciaram PR

A 1 de janeiro de 2021 não houve discurso de Ano Novo do Presidente da República. Isto porque foi ano de presidenciais, nas quais Marcelo Rebelo de Sousa foi recandidato ao cargo, precisamente no primeiro mês desse ano. Para não ser acusado de usar as eleições como uma forma de campana eleitoral, o Chefe do Estado prescindiu das tradicionais palavras de início de um novo ano, quando tinham passado 365 dias de crise pandémica, económica e social. A situação do país e os seus recados políticos acabaram por ser dados na mensagem de tomada de posse para um segundo mandato em que desejou para a governação "estabilidade sem pântano".

Do Corvo apelo a "governo dialogante"

O Presidente quis passar a passagem do ano nos Açores em 2020 e foi a partir da Ilha do Corvo que falou aos portugueses no primeiro dia daquele ano. Marcelo Rebelo de Sousa apontou a um novo ciclo" que tem de ser de esperança" e "em Portugal esperança quer dizer governo forte, concretizador e dialogante". O Presidente da República apelava assim à "capacidade de entendimento entre partidos". As alterações climáticas e as grandes prioridades da governação, como a saúde, governação, coesão, educação e conhecimento e investimento também estiveram presentes nas palavras de Marcelo naquela ilha açoriana.

Ano de eleições sem arrogância

Na mensagem de 2019, ano em que os portugueses foram por duas vezes às urnas (europeias e legislativas, mais as regionais na Madeira), Marcelo considerou fundamental bom senso nessas campanhas, advertindo que radicalismos, arrogâncias e promessas impossíveis destroem a democracia. Apontou ainda a objetivos para Portugal: "Podemos e devemos ter a ambição de assegurar que a nossa economia não só se prepare para enfrentar qualquer crise que nos chegue (...) Podemos e devemos ter a ambição de ultrapassar a condenação de um de cada cinco portugueses à pobreza e a fatalidade de termos portugais a ritmos diferentes".

A lição dos incêndios de 2017

A recuperar de uma intervenção cirúrgica a uma hérnia, o Chefe de Estado fez a mensagem de Ano Novo de 2018 a partir da sua casa em Cascais. Os incêndios de Pedrógão e os de outubro do ano anterior marcaram as suas palavras e Marcelo apelou a que se tirarem "lições" do que aconteceu. O Presidente elogiou ainda os sucessos económicos do país, que assinalou terem começado no governo anterior PSD/CDS. O que o levou a dizer que seria preciso colocar fasquias mais altas no combate à pobreza, às desigualdades, ao acesso e funcionamento dos sistemas sociais" E pediu que fosse o ano da "reinvenção".

Apelo a um "ano de estabilidade"

"2016 foi o ano da gestão do imediato, da estabilização política e da preocupação com o rigor financeiro. 2017 tem de ser o ano da gestão a prazo e da definição e execução de uma estratégia de crescimento económico sustentado. Aprendendo a lição de que, no essencial, tivemos sucesso quando nos unimos", disse Marcelo Rebelo de Sousa na mensagem de Ano Novo de 2017. Ao mesmo tempo destaca a subida do salário mínimo nacional e aceitação de dois Orçamentos do Estado por parte da União Europeia, destacando a "estabilidade social e política" que se vivia em Portugal.

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