Governo quer Gouveia e Melo a revolucionar a Armada

Os planos e as ideias do vice-almirante para a Marinha são conhecidos, pelo menos, desde 2019. O sucesso da sua missão à frente da task force da vacinação atestou as suas capacidades de liderança e organização e deram ao governo mais um trunfo para a escolha.

Quando o governo socialista escolhe uma figura como Gouveia e Melo para Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA) é porque não quer que fique tudo na mesma.

A "revolução" que o vice-almirante tem assumido querer fazer na Marinha, tornando este Ramo das Forças Armadas numa espécie de catalisador para novas políticas de valorização do mar como ativo estratégico nacional, é conhecida de António Costa e encaixa na perfeição na "ambição" declarada do primeiro-ministro de transformar os oceanos numa "grande causa e missão global".

O plano acabou por ser adiado quase um ano, primeiro por causa da pandemia, que levou Gouveia e Melo a entrar no que designou "guerra" de combate ao vírus, coordenando com sucesso o plano de vacinação contra a covid-19; depois foram os "equívocos" com a exoneração, em setembro passado, do atual CEMA Mendes Calado, acabaram por protelar a missão.

Nesta quinta-feira o governo aprovou em Conselho de Ministros e formalizou a proposta para a sua nomeação como CEMA a Marcelo Rebelo de Sousa e espera-se que, desta vez sem contratempos nem equívocos, possa tomar posse ainda na sexta-feira.

O timing da nomeação, antes das eleições, suscitou alguns reparos, designadamente do BE e do PCP, e do ex-CEMA Melo Gomes , que considerou mesmo, em declarações ao Expresso, que este era um "mau momento".

No entanto, esta data era mesmo a deadline para Gouveia e Melo e isto porque, conforme o DN já tinha explicado, é nesta altura que são promovidos os oficiais generais da Armada (vice-almirantes, contra-almirantes e comodoros), que constituirão o topo da hierarquia da Marinha nos próximos anos, sendo por isso necessário que essa escolha seja do novo CEMA, pois será a sua equipa dirigente, o seu estado-maior.

Ainda assim, o ainda CEMA Mendes Calado, foi fazendo algumas propostas de nomeações, recusadas pelo ministro, como foi a do seu chefe de Gabinete para o posto de Comandante Naval (o mais importante cargo operacional), voltando depois a insistir como um novo nome, igualmente recusado pela tutela.

Mar, ativo estratégico

Se até aqui, o submarinista foi deixando a sua marca em vários projetos de inovação tecnológica na Marinha, principalmente quando foi Comandante Naval, entre 2017 e 2019, as suas capacidades de liderança, organização e comunicação na coordenação da task force, confirmaram ao governo um oficial general com as capacidades para ser um trunfo no objetivo de promover novas políticas de valorização e defesa do mar. Os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência completaram o "pacote".

"Portugal tem um ativo estratégico muito importante que é o mar. É talvez o último dos seus ativos estratégicos, que terá uma grande importância geoeconómica e geopolítica muito grande. Temos de ter cuidado, senão podemos ser espoliados devagarinho desse último ativo estratégico. Gostaria de desenvolver e de ajudar a desenvolver políticas que contribuam para que esse ativo estratégico não nos seja retirado", afiançou Gouveia e Melo na tertúlia que comemorou os 157 anos do DN e onde foi o principal orador.

O vice-almirante - eleito pela redação do DN personalidade nacional do ano - apelou a que se passe da "retórica à ação" neste objetivo. Caso contrário, salientou, "alguém vai ocupar esse espaço. É preciso desenvolver tecnologia e oportunidades de emprego. Não é a buscar baldes de água salgada. Os jovens são atraídos quando há oportunidades".

Gouveia e Melo criticou até a "falta de visão" para oportunidades de negócio, quando passa pelo mar português cerca de 95% do tráfego marítimo internacional. "E porque não criar uma grande empresa de transporte marítimo com Portugal, Brasil e Angola? Basta olhar para o mapa e perceber que estes três países podem fazer coisas extraordinárias no mar", sublinhou.

Os seus planos para a Armada foram, aliás, descritos nos "Cadernos Navais", numa edição especial com 74 páginas, publicada em 2019, num texto intitulado "Uma Marinha útil e verdadeiramente significativa". Em síntese, essencialmente uma Marinha mais equilibrada, holística no mar, catalisadora da indústria e conhecimento nacionais, robotizada e avançada tecnologicamente.

"Uma Marinha útil e significativa deverá ser capaz de desempenhar as seguintes funções genéricas: Presença - por via da vigilância e fiscalização dos espaços marítimos de soberania e sob jurisdição nacional;

Dissuasão - evitando a utilização militar, contra os interesses nacionais e aliados, do espaço marítimo que une o grande arquipélago português (triângulo), assim como contribuir, nesse esforço, para a segurança cooperativa nos espaços marítimos adjacentes;

Projeção - de força, capacidade logística, de apoio e de evacuação no mar, e através dele para o triângulo nacional e para espaços marítimos adjacentes!", escreveu.

Para realizar essas funções, acrescentava, "a Marinha deverá ser capaz de desenvolver outras duas funções, multiplicadoras das primeiras: Comando, Controlo, Comunicações, Redes e Informação (C3RI) - constituída por centros de operações e respetiva estrutura de informações, redes e comunicações que permita manter o comando dos meios navais e o controlo sobre a atividade de superfície e subsuperfície, nas águas de soberania e sob jurisdição portuguesa, assim como nas áreas de interesse nacional onde a Marinha possa vir a ser empregue.

Esta atividade deverá gerar, para as entidades nacionais que dela precisem, um panorama partilhado da atividade marítima que permita que desenvolvam as suas ações no mar, salvaguardando as matérias estritamente militares; Conhecimento - constituído por navios com capacidade de prospeção marítima, visando desenvolver o conhecimento sobre o ambiente marítimo, essencial às operações militares, em particular nas áreas da cartografia, hidrografia e oceanografia, assim como apoiar outras entidades nacionais na pesquisa e conhecimento dos espaços marítimos".

Para desenvolver esta Marinha, Gouveia e Melo defende que esta tenha "como elementos indispensáveis as seguintes capacidades materiais: Superfície; Submarina; Aérea; Guerra de Minas; Guerra Robotizada; Anfíbia; C3RI" e "deverá ser composta por patrulhas oceânicos, fragatas, reabastecedores, navios logísticos/anfíbios, navios de pesquisa oceanográfica e veleiros de treino".

Uma grande aposta do vice-almirante serão os "drones aéreos, de superfície e de subsuperfície, com elevada persistência na área de operações, resilientes, discretos, alguns deles letais, a operar isolados, ou em grupo/rede, controlados à distância, ou com total autonomia" que, acredita, "constituirão a muito breve trecho uma capacidade fundamental das Forças Armadas"-

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