Eleições na Figueira da Foz. "É um lavar de roupa suja, isto é uma guerra"

Candidato do PS admite ficar mesmo que perca as eleições. Santana só concorre a presidente, não fica para fazer oposição. Cabeça de lista do PSD também só fica se ganhar. CDU, CDS e BE são unânimes: o regresso de Pedro Santana Lopes vai afetar todos os partidos.

"É um titubeante... Está aqui, está ali, esteve com o PSD, contra o PSD, vai para o Sporting e sai para ir para a política, vem para a Figueira e depois sai para ir para Lisboa, o mesmo na Santa Casa da Misericórdia. É candidato, descandidato... a regularidade não é a marca dele. Faz parte de um tempo, passou o tempo dele. Este regresso só prova que nem sempre faz as melhores escolhas. Há aqui um empolar da situação, mas ele também não é um candidato qualquer... é um ex-primeiro ministro. Mas traiu o PSD." Um traidor, é isso que diz?, pergunta o DN. "Sim, traiu o PSD quando criou um partido contra o PSD." É uma palavra pesada, chamar traidor a alguém. "Foi o que ele fez."

Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro de Portugal e candidato social-democrata, não acredita que Santana Lopes possa provocar "erosão" nas candidaturas de PS e PSD. E a explicação é simples: "A Figueira ainda anda a pagar a fatura da dívida que deixou. E os figueirenses não esquecem que ele abandonou a Figueira." Abandonou? Mas ele cumpriu o mandato até ao fim. "Sim, mas foi ser candidato a Lisboa por "imperativo nacional", lembra-se? Insultou os figueirenses. Imperativo nacional é a Figueira." E você, fica na Figueira da Foz se não for eleito presidente de câmara? "E você acha que o Santana Lopes fica? Eu estou disponível para dar 12 anos da minha vida. A minha proposta é para ganhar." Mas pode perder, e se não saiu do Turismo do Centro é porque planeia voltar. "Só sou candidato a presidente de câmara. E não há nenhuma incompatibilidade quer moral, ética ou jurídica em estar como presidente do Turismo do Centro." Não fica um candidato mais frágil? "Não, não me sinto fragilizado."

Pedro Machado não considera que a decisão do Tribunal Constitucional de validar a candidatura de Santana Lopes, negando provimento ao recurso do PSD, seja uma "derrota": "Não, de todo. O tempo dos tribunais já passou. Agora é tempo da ação política, é tempo de clarificar, explicar, discutir o programa que temos. E não é na campanha do PSD que há problemas com a justiça, que há alguém acusado de furto qualificado [referência a Paulo Mariano, candidato à presidência da Assembleia Municipal pelo movimento liderado por Santana Lopes]." O social-democrata não receia ser acusado de ter "perdido na secretaria", mas não duvida que esse argumento possa "ser utilizado" pelos candidatos do movimento Figueira A Primeira.

E o PS? O candidato fala em "mudança de ciclo"e na "evidente perceção de que o projeto de Carlos Monteiro está esgotado. Foi vice-presidente, esteve 12 anos com o Ataíde das Neves e é há muitos anos líder do PS na Figueira. Não pode dizer que chegou agora".

"O que está aqui em causa são três modelos de governo: um, o espelho do passado [Santana Lopes entre 1997 e 2001], outro, o dos 12 anos de estagnação [Ataíde das Neves e Carlos Monteiro] e o terceiro, o nosso, virado para o futuro. É esta a tríade de modelos e perfis completamente diferentes. Dia 26, os figueirenses decidem. Querem as mesmas regras do passado? Querem um presente estagnado ou querem acreditar num projeto de futuro?", questiona Pedro Machado.

Confiar no trabalho de 12 anos

Carlos Monteiro, atual presidente de câmara, que quer "manter a maioria" socialista e acredita "nos 12 anos de trabalho feito", admite que "este regresso [de Santana Lopes] pode tirar alguns votos", mas confia na "memória das pessoas, que sabem desse percurso entre a Figueira, Câmara de Lisboa, Santa Casa e Aliança". "E não acredito que fique por cá como vereador, veio aqui tentar retomar o seu percurso. Aliás, nos últimos seis meses que aqui esteve como presidente já estava com a cabeça em Lisboa, no "desígnio nacional". Todos lhe conhecem aquela atitude de Calimero. Fim de ciclo nosso? Não acredito em surpresas nem acredito em viragens", frisa.

"O meu adversário é o PSD, o responsável pela desgraça em que ficou a Figueira. Iam hipotecando o futuro. Da dívida de 92 milhões já pagámos 62 e no meio disto tudo cumprimos o que apresentámos nos três mandatos. A Figueira estagnou? Vão ao Pordata, vejam os números do desemprego, do rendimento médio mensal, do turismo [dormidas por 100 habitantes]: estamos acima de Aveiro e de Coimbra", afirma o autarca.

O candidato socialista diz também não estar "nada preocupado" com os apoios "de fora" que Pedro Machado elenca na sua lista de apoiantes [Marques Mendes, Poiares Maduro, José Miguel Júdice, Carlos Barbosa, o ex-futebolista Hugo Almeida, Álvaro Covões, o ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Couceiro, etc.], porque "quando se vai procurar fora fica claro que não se tem a confiança de quem cá vive. Estou é preocupado com as figuras anónimas da Figueira, aqueles que cá vivem, tenho é a preocupação diária de desenvolver a Figueira".

Miguel Mattos Chaves, candidato do CDS, reconhece que Santana Lopes "deixou lembranças, umas boas, outras não, mas o que é facto é que o que fez naqueles quatros anos deixou simpatias no terreno, ficou algum trabalho feito. O clima é diferente de 1997, mas vai afetar todas as candidaturas: é um ex-primeiro-ministro, uma pessoa conhecida. E depois não se esqueça de que muitas vezes o critério é como o do futebol: são do Benfica, do Porto, do Sporting e não interessa se fez bem ou mal. É triste, mas é assim".

Direção socialista admite dificuldades na Figueira da Foz. "Forte disputa" para manter a autarquia PS desde 2009.

"PS e PSD? Olhe, o PSD tem um problema muito complicado, aquela história que todos sabem, e arrisca-se a não eleger ninguém. Não é não ganhar a câmara, é não eleger sequer um vereador. O PS... enfim, é muito curto o que fizeram. A Figueira está a definhar e não se vê caminho. Há anos que luto por aquilo em que acredito, por aquilo que a Figueira deve ser. O que importa é servir a população e não essas tricas entre eles. Se for eleito vereador, e acredito que vou ser, vou ser o provedor dos figueirenses, o controlador da qualidade do que é feito na câmara", afirma o candidato centrista.

Bernardo Reis, candidato da CDU, considera que para a sua candidatura "é um bocado irrelevante a vinda de Santana Lopes para o cenário político. Não nos afeta, é a minha opinião pessoal. O que afeta é o debate público, veja o exemplo do debate na televisão: andaram a discutir o que se fez ou não fez há 20 anos. O que falta é os figueirenses terem a perceção dos candidatos que não são capazes de respeitar o voto. O amor ilimitado pela Figueira [de Santana Lopes e Pedro Machado] cai por terra quando sabemos que se vão embora se não forem eleitos presidentes de câmara. É vaidade, uma feira das vaidades, não são capazes de descer do pedestal e servir os munícipes. Nenhum deles o assume frontalmente. Se o fizessem, as coisas seriam diferentes. Os apoiantes indefetíveis nem olham ou não se apercebem disto. É como no futebol: não importa se jogam bem ou mal, importa é ganhar".

O candidato da CDU admite a dificuldade de ser eleito vereador, apesar de o objetivo ser esse. "É uma tarefa árdua, difícil. Sabemos de antemão das reduzidas possibilidades, mas lutaremos até ao fim. Não perder o eleitorado das últimas eleições já será um bom resultado. O que temos aqui é uma bipolarização entre PS e Santana que se sente muito. O Pedro Machado, com aquela história das impugnações, na prática ganhar na secretaria acabou em perder na secretaria, deveria ter prova suficiente: não basta dizer que é assim. Essa lógica foi errada e acredito que sofrerá as consequências. Repare que muitos dos apoiantes do Santana são da mesma esfera partidária do Pedro Machado. Imagine, por hipótese, que o tribunal lhes tinha dado razão. Acha que os apoiantes do Santana Lopes iriam votar em quem? Iam todos votar no PS."

O candidato do BE, que considera que o invocado pelo PSD [em tribunal] "fazia sentido por haver uma panóplia de irregularidades", diz que uma "investigação à sequência dos acontecimentos, coisa que o Tribunal Constitucional não faz porque só analisa as papeladas finais, provaria mais irregularidades" do que a rejeição das listas para as Assembleias de Freguesia de Alqueidão e de Lavos. "O PSD não perdeu na secretaria, outro tipo de investigação mostraria o contrário", afirma Rui Curado Silva. E Pedro Machado? "Ele não é daqui, é de Montemor, veio agora sobretudo por causa da campanha, mas é genuíno, não me parece que esteja aqui por questões pessoais. Agora que existe uma guerra entre pessoas do PSD, existe. E também no PS."

Rui Curado Silva também está convencido de que Santana "vai tirar votos principalmente ao PSD, mas também ao PS. E na CDU também se percebem perdas, estão muito abaixo do que é normal. A nós vai buscar pouco, estamos a apelar ao voto útil". E a bipolarização? "Isto é uma guerra, um lavar de roupa suja. Se não houver uma maioria, na assembleia municipal e na câmara vai ser uma confusão."

O regresso

"Eles falam como se não tivesse havido ninguém depois de mim [Duarte Silva esteve de 2001 a 2009, Ataíde das Neves de 2009 a 2019 e Carlos Monteiro nestes últimos dois anos], como se não tivesse havido ninguém nestes 20 anos, mas o povo é sábio. Falam numa dívida de 92 milhões, mas a dívida era de 32 milhões e com uma diferença muito grande: aumentei a capacidade de endividamento da câmara em sete vezes. Fiz mais em quatro anos pela Figueira que os outros em 20. Uma das primeiras coisas que vou fazer é pedir uma auditoria, apurar a verdade", assegura Santana Lopes.

O candidato do movimento Figueira A Primeira diz ter "expectativas iguais às de muita gente, normais. Espero ganhar. Até ao lavar dos cestos é vindima". Ganhar com maioria?, pergunto. "É possível, é esperar." Esse cenário surgiu na sondagem do ICS/ISCTE. "Tenho as minhas sondagens, estudos de opinião, e os resultados que me dão são semelhantes a esses." O que é diferente de 1997? "Era, apesar de tudo, mais inexperiente. Agora tenho mais experiência, mais saber, mais conhecimentos, que permitem aceder, naturalmente de forma legal - é melhor sublinhar isto não vão começar para aí com conversas sem sentido - , a centros de decisão nas áreas do ensino, educação e ciência."
E fica se perder as eleições? "Sou candidato a presidente, espero ganhar. Se não acontecer, não faz sentido. Vim para mudar a Figueira, não para fazer oposição."

Santana Lopes diz existir "um pacto PS/PSD", "solidariedades e fraternidades várias entre eles, um quis-me fora das eleições com impugnações das listas em tribunal, o outro queria tirar-me os outdoors, passam a vida nisto". Fraternidades?, questiona o DN. "Esta equipa do PSD é de gente que veio do PS... fraternidades." E o Pedro Machado? "Não tenho habilitações para fazer classificações, não sei explicar, frustação talvez. Parece possuído por um sentimento muito forte." E Carlos Monteiro? "Caiu, há declínio, abandonos, parece que tudo caiu, que tudo andou para trás. A generalidade das instituições está com dificuldades e o problema dele são as obras que fiz, a mistificação em que insistem: qual das obras que fiz é que não faziam com a Europa a pagar dois terços ou três quartos dos investimentos? É preciso ter lata!" E o candidato do BE? "Nunca vi o bloco a fazer estas figuras, é um moço de recados do PS e do PSD."

artur.cassiano@dn.pt

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