Dois monólogos frente a frente. Costa e "Chicão" discordaram de tudo

Os líderes do PS e do CDS-PP, António Costa e Francisco Rodrigues dos Santos. Cada um disse o que queria dizer e não concordaram em nada. Dois tempos de antena partilhados em comum no mesmo estúdio.

António Costa, líder do PS, e Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS-PP, enfrentaram-se este domingo à noite na SIC - um frente a frente que serviu apenas os dois passarem as respetivas mensagens, confirmando-se o que de antemão já se previa: não há nada em que concordem.

Moderado pela jornalista Clara de Sousa, o debate refletiu apenas duas visões para o SNS, duas visões para a escola pública, duas visões sobre a questão fiscal, duas visões sobre a disciplina de Educação Cívica, duas visões opostas sobre o desempenho económico do governo do PS desde 2014.

O chefe do PS iniciou a conversa reconhecendo que falhou no objetivo de proporcionar a cada português um médico de família. Isso deveu-se, segundo disse, ao número de utentes que aumentou e à falta de médicos especialista em medicina geral. E daí partiu para a garantia de que na próxima legislatura continuará a tentar cumprir aquele objetivo ("nós não desistimos de que todos os portugueses possam ter médico de família"), embora não arriscando uma meta temporal porque "gato escaldado...[de água fria tem medo]". "Temos dois compromissos muito importantes: a criação de incentivos para a localização de médicos de família nas zonas mais carenciadas e generalizar o modelo de unidades de saúde familiares (USF) de modo a cobrir 80% da população. Julgamos que desse modo vamos ter uma carreira mais atrativa e mais médicos disponíveis", disse ainda.

Francisco Rodrigues dos Santos, pelo seu lado, preferiu sublinhar a existência de filas de espera no SNS (serviços oncológicos e cirurgias), dizendo que isto aconteceu porque "o PS põe a ideologia à frente dos utentes", privilegiando no setor da saúde, exclusivamente, o lado estatal da oferta. "O SNS não é a única resposta. O Governo deveria abrir portas a outros sistemas", insistiu o líder do CDS-PP.

Os dois debateram também visões muito diferentes do que deve ser o sistema de ensino - e, por "culpa" do líder centrista, fizeram-no muito centrados na questão da disciplina de Educação Cívica.

"Chicão" defendeu que deve passar a ser facultativa - como já o é a Religião e Moral - porque "a escola não é um acampamento do Bloco de Esquerda". Segundo disse, a disciplina serve essencialmente para passar "ideologias de género" e por isso insistiu em defender que as famílias "devem ter a liberdade de decidir se os filhos a frequentam ou não".

O líder do PS opôs-se, dizendo, por exemplo que não se pode comparar o caráter facultativo de uma disciplina como Religião e Moral com o de uma disciplina como Educação Cívica. "Uma coisa são as crenças religiosas, outra coisa são os valores consagrados na Constituição" e são esses os que a disciplina de Educação Cívica tenta transmitir aos estudantes: "A Constituição é o nosso pacto social de vida em comum."

Costa, aliás, usaria ainda a "liberdade" que o líder do CDS-PP tinha invocado para salientar que anteontem passaram 12 anos sobre a aprovação no Parlamento da lei que permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essa lei permitiu "a liberdade de cada um ser feliz dentro da sua orientação sexual" e "a escola deve respeitar a pluralidade da ideia de família".

Na parte económica do debate, Francisco Rodrigues dos Santos - que se assumiu várias vezes como o legítimo herdeiro nestas eleições do Governo Passos/Portas - retratou a negro o desempenho do PS. "Diminuição do rendimento", "aumento da dívida", "aumento da carga fiscal". Ao mesmo tempo, insistiu nas suas propostas de "choque fiscal", nomeadamente descendo o IRC até 15%.

Costa respondeu ao ataque: "Sempre que a direita falou em choque fiscal o que fez foi aumentar impostos". Depois recordou que é preciso aprovar o OE2022 - e ter "maioria" para isso - para o IRS voltar a descer para as classes médias. Os dois confrontariam ainda ideias opostas sobre como incentivar a natalidade por via fiscal.

O debate acabou como começou, com cada um defendendo o oposto do outro. Um diálogo que foi só a soma de dois monólogos.

joao.p.henriques@dn.pt

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