Conselho de Ministros reúne com freguesias de Lisboa no vermelho

Governo acelerou só para Lisboa vacinação da faixa etária 30-40, onde a situação se está a agravar, mas depois mudou de ideias e generalizou ideia a todo o território continental.

O Conselho de Ministros reúne esta quinta-feira e na agenda deverá estar, entre outros assuntos, a situação muito problemática que está atingir Lisboa, onde em dez freguesias a incidência pandémica se encontra acima dos limites de segurança (120 casos por cem mil habitantes numa incidência cumulativa a 14 dias).

Essas freguesias são Alcântara, Alvalade, Avenidas Novas, Estrela, Penha de França, Santo António, S. Vicente (incidência acima dos 120 casos) e, sobretudo, Arroios, Misericórdia e Santa Maria Maior (com números acima de 240 casos, um valor já totalmente no vermelho).

Internamente, o Governo envolveu-se em decisões contraditórias a propósito da situação em Lisboa - e dando pretexto pelo meio ao presidente da câmara do Porto, recandidato (embora não assumido) ao cargo, para acusar o Executivo de ter "dois pesos e duas medidas", tratando o norte de forma diferente.

O pretexto de Moreira foi o facto de, na terça-feira, o Governo ter anunciado no Twitter que iria alargar em Lisboa a vacinação à faixa etária entre os 30 e os 40 - mensagem que horas depois atualizou para dizer que, afinal, isso aconteceria a nível nacional.

É certo que na terça-feira à noite o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, telefonou a Rui Moreira dizendo-lhe, alegadamente, que teria havido uma interpretação "errónea" dos jornalistas face à nota que dizia que o alargamento da vacinação seria só na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Só que Moreira não aceitou o argumento do secretário de Estado. "Fui ver aquilo que estava no site" do Governo e, neste caso, estou do lado da comunicação social. Se houve um equívoco, meu não foi, creio que não foi dos portugueses e não foi também da comunicação social".

"Nesta matéria, como noutras, o Norte é tratado de maneira diferente. O Norte e o resto do país são tratados de maneira diversa do que é a capital. Isso tem sido a minha luta há muitos anos."

Portanto - acrescentou o autarca - "há provavelmente um recuo ou um aclaramento por parte do Governo, [mas] não é isso que me preocupa. Não é naturalmente aceitável que, na matéria da vacinação, e a vacinação é um assunto muito sério, estejam a criar critérios territoriais, quando eles antes não foram criados. Se entenderem criar, então já deviam ter criado, porque já houve situações, felizmente não no Porto, mas noutras terras e cidades do país, onde houve problemas, e não se percebeu que tivesse havido igual preocupação."

Ou seja: "Nesta matéria, como noutras, o Norte é tratado de maneira diferente. O Norte e o resto do país são tratados de maneira diversa do que é a capital. Isso tem sido a minha luta há muitos anos, venho-o dizendo muitas vezes e temos aqui um caso de absoluta evidência. Repito: estas medidas que estão agora a ser flexibilizadas para Lisboa nunca foram flexibilizadas para outras zonas ou terras do país."

As declarações do autarca foram feitas ontem por volta da hora de almoço - várias horas depois de o Governo ter retificado o tiro sobre a vacinação do grupo 30-40 anos. A meio da madrugada de terça para quarta-feira, cerca das 4.00, a Lusa noticiava que o Governo tinha decidido acelerar a vacinação contra a covid-19 "a nível nacional", e não apenas em Lisboa, alargando-a a maiores de 40 e 30 anos a partir de, respetivamente, 6 e 20 de junho. E esta "aceleração" (esta foi a expressão usada) acontecia devido ao "bom ritmo do Plano de Vacinação Anti-COVID19 e da disponibilidade de vacinas".

Ontem, os números nacionais da DGS um número de novos infetados nas últimas 24 horas, 594, que foi o maior desde o boletim de 22 de abril. A pressão sobre o SNS no entanto não aumenta: estão internadas 233 pessoas (menos quatro do que as registadas no boletim de terça-feira).

E o teletrabalho?

Quanto ao Conselho de Ministros de hoje o que falta saber é que medidas específicas serão determinadas. O que para já parece claro é que, quanto à medida geral que mantém o teletrabalho como obrigatório, só serão tomadas decisões depois da reunião com especialistas que está marcada para amanhã no Infarmed.

"Está fora de causa o regresso ao estado de emergência, em qualquer caso."

Na reunião estará, como sempre, presente o Presidente da República. Ontem, falando com jornalistas após visitar uma exposição no Museu das Artes de Sintra, defendeu a necessidade de "repensar" a "matriz de risco" (o índice composto entre o índice de transmissibilidade e a incidência pandémica que norteia a ação do Governo entre medidas de confinamento/desconfinamento). O que se passa, disse Marcelo Rebelo de Sousa, é que há "dados novos": "Temos hoje acima dos 80 [anos] praticamente todos vacinados, acima dos 70 praticamente todos, acima dos 60 praticamente todos, acima dos 50 um número muito significativo. Vai passar a ser acima de 40 e acima de 30", apontou, defendendo que se deve "olhar com outros olhos, porque a realidade é diferente". E para já, assegurou, "está fora de causa o regresso ao estado de emergência, em qualquer caso."

joao.p.henriques@dn.pt

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