Cavaco Silva ataca "políticas erradas" do Governo e fala de "vergonha" sobre número da pandemia

O ex-Presidente da República participou num evento online da 5ª Academia de Formação de Mulheres Social Democratas, onde defendeu a importância de "reforçar a voz feminina na política nacional". E alertou para um Serviço Nacional de Saúde "fragilizado por decisões erradas e graves" por parte do "governo da geringonça".

"É surpreendente a frequência com que ouvimos e lemos notícias que nos deixam com uma certa ideia de que o país se encontra numa situação de democracia amordaçada", criticou Cavaco Silva, este sábado, numa participação, por videoconferência, na Academia de Formação Política das Mulheres Sociais-Democratas.

"Respira-se um sentimento de resignação relativamente às autoridades responsáveis pela gestão da crise pandémica. Mas não podemos deixar de sentir uma certa vergonha ao ver Portugal como recordista em número de mortos por milhão de habitantes, como aconteceu há poucas semanas", disse, saudando, por outro lado, que o processo de vacinação pareça estar "agora a correr bem".

Em pouco menos de meia hora Cavaco fez duros ataques ao Governo, falando de um Serviço Nacional de Saúde "fragilizado por decisões erradas e graves" por parte do "governo da geringonça".

"Esta Academia ocorrer num tempo profundamente marcado pela pandemia, um tempo de dor e sofrimento para milhares de portugueses, um tempo onde emergem como heróis nacionais os médicos e os enfermeiros num Serviço Nacional de Saúde fragilizado por decisões erradas se graves do governo da geringonça", defendeu o antigo primeiro-ministro, defendendo as intervenções do deputado do PSD, Ricardo Batista Leite, "que tem falado com autoridade e clareza o que tem gerado um evidente incómodo junto dos governantes".

Este é também um tempo, segundo Cavaco, "em que os erros e omissões do poder socialista guiada pela preservação do poder apontam para uma grave crise económica e social e uma pesada fatura as gerações futuras".

"O escrutínio do Governo não está suspenso"

Segundo o ex-governantes vivemos "uma suspensão da normalidade, mas o escrutíneo do Governo não está suspensa, a prestação de contas não está suspensa, a Democracia não está suspensa e não pode estar suspensa".

Por isso desafiou os democratas e as mulheres sociais-democratas a defender a democracia: "Os erros têm de ser apontados, os abusos têm de ser denunciados, as alternativas têm de ser evidenciadas, é triste ver Portugal que aderiu à União Europeia em 1986 ser ultrapassado em nível de desenvolvimento pelos países da Europa de Leste que aderiram à UE em 2004."

Para Cavaco "Portugal corre o risco de dentro de poucos anos de ser o último entre os 19 países da zona Euro sem que isso pareça incomodar os governantes", como se isso não significasse salários mais baixos, elevado nível de pobreza e baixa qualidade dos servidos públicos: "É chocante o sentido de impunidade de algumas atitudes e comportamentos do atual governo."

Como exemplos, Cavaco aludiu à acusação de alguns governantes - incluindo o primeiro-ministro - de quem critica o Governo são "antipatriotas que promovem campanhas internacionais contra Portugal", mas também outras polémicas recentes, como a escolha de um nome para procurador europeu diferente do que tinha sido escolhido pelo júri internacional.

A não recondução quer do ex-presidente do Tribunal de Contas Vítor Caldeira, de quem destacou a "integridade e competência", quer da anterior Procuradora Geral da República Joana Marques Vida, a quem elogiou a "imparcialidade e dinâmica" que trouxe à investigação criminal, foram outros dos exemplos apontados pelo ex-Presidente da República.

"A isto se juntam tentativas de controlo e desqualificação e desrespeito das entidades independentes da nossa democracia, como Banco de Portugal, Conselho das Finanças Públicas, UTAO ou Cresap, entre outros", disse, apontando ainda notícias recentes que dão conta da "falta de transparência do Orçamento do Estado".

Cavaco Silva alertou que episódios como este já "ultrapassaram fronteiras", e disse ter lido com "imenso desgosto" na revista The Economist que Portugal tinha passado da lista dos países de democracia plena para o grupo de países "com democracia com falhas".

"Numa altura em que nos aproximamos do cinquentenário da Revolução do 25 de Abril, devemos ficar muito preocupados com estes sinais de democracia amordaçada divulgados pela comunicação social, que manifestamente não fazem justiça aos que se bateram por uma democracia plena do tipo ocidental em Portugal, a começar por Francisco Sá Carneiro e Mário Soares", afirmou.

"Importa reforçar a voz feminina na política nacional"

Cavaco Silva foi o convidado principal da 5.ª Academia de Formação Política para Mulheres Sociais-Democratas, organizada pelo Instituto Francisco Sá Carneiro. Depois de "sensibilizado" com uma carta-convite que invocava a sua intervenção num evento de 1987, que quebrou a sua resistência a eventos partidários na condição de ex-Presidente da República.

"Nessa intervenção feita há quase 34 anos fiz uma prelação sobre o baixo número de mulheres na atividade política nacional, que seria muito benéfica. Registou-se algum avanço durante os meus governos, certamente aquém do desejável. 12 mulheres fizeram parte dos meus governos, três mulheres desempenaram funções ministeriais. Algumas dessas mulheres marcaram e continuam a marcar a vida do nosso país em posições de destaque. Sucederam-se excelentes deputadas e autarcas tornando cada vez mais forte a presença feminina no PSD. Importa reforçar a voz feminina na política nacional", defendeu Cavaco Silva.

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