"Apenas dois anos após tomar posse pela primeira vez o PSD enfrenta um desgaste acelerado. No entanto, esse desgaste não é automaticamente conversível em alternativa.” Esta é uma das várias ideias que estarão em debate no 25.º Congresso do PS, que começa esta sexta-feira, 27 de março, em Viseu - município simbólico que os socialistas conquistaram, pela primeira vez, nas autárquicas do ano passado - e se prolonga até domingo. A frase é da moção intitulada Socialismo com Futuro, que, não sendo a moção de orientação nacional, num tom prescritivo considera que “sacudir a imagem de parceiro parlamentar do Governo” é “um dever de responsabilidade de todos os socialistas”. O DN ouviu vários dos signatários da moção, como o deputado Miguel Costa Matos, a líder da Juventude Socialista (JS), Sofia Pereira, e o presidente do conselho coordenador da SEDES - Associação para o Desenvolvimento Económico e Social , Álvaro Beleza, que falam numa pluralidade de perspetivas dentro do partido, que é um sinal de “vitalidade”.De forma retórica, Miguel Costa Matos diz não saber se o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, discorda da moção Socialismo com Futuro, porque não encontra nada em que a moção “esteja em contradição com ele”. “Nem recebi ainda qualquer tipo de nota de desagrado da parte dele. Mas, e se discordar, qual é o problema? O PS é um partido em que o debate de ideias enriquece-o. Não é um confronto, mas é uma construção.”E a construção, de acordo com o deputado socialista, passa por mudanças, porque, defende, “a política do costume gera os resultados do costume”. Por isso, “neste momento, o país pede urgentemente ideias novas, uma atitude fresca à política”, vinca.Questionado sobre se o PS tem estado a aproximar-se do Governo, tendo em conta que a moção adverte que o partido não deve “relegar-se a parceiro de consensos e acordos com o PSD”, Miguel Costa Matos diz apenas: “nem sempre nem nunca.” “Nem o PS deve ter sempre o ónus de dar a estabilidade ao Governo, muito menos quando eles agora estão a fazer entendimentos com o Chega, nem devemos completamente enjeitar” entendimentos, principalmente em áreas vitais, explica o deputado, com a garantia de que “o PS não vai passar estes três anos só a gritar”, até porque “não é um partido de protesto”.Afinada com estas ideias, Sofia Pereira vaticina ao DN que “o maior desafio de José Luís Carneiro neste ciclo é fazer com que o PS volte a ser visto como a força política mais credível para responder aos problemas concretos da vida das pessoas”, que, para a deputada socialista são “a habitação, os salários, a saúde, a educação e o custo de vida”. “O país está sob pressão e não sairá desse sufoco com manobras de distração nem com guerras culturais importadas”, avisa.Seguindo a ideia de estabilidade e de entendimentos estratégicos, Sofia Pereira diz que a “disponibilidade para compromissos em matérias fundamentais ao país não pode significar tibieza política, nem pode impedir o PS de afirmar com nitidez o seu caminho”, principalmente porque o “Governo tem escolhido, cada vez mais, o terreno da radicalização discursiva, da cedência à agenda da direita populista e do desvio para temas identitários e demagógicos, fragilizando o contrato social e atingindo muitas vezes os mais vulneráveis”.Apesar do tom prescritivo da moção, Álvaro Beleza clarifica que nada disto é um sinal de rutura com a liderança de José Luís Carneiro, até porque garante apoiar o secretário-geral do PS “com muito gosto”, porque, descreve, “é alguém que merece a confiança dos portugueses, dos eleitores”.Por outro lado, não é por todos terem as mesmas ideias que o Congresso será melhor, explica o histórico do PS, acrescentando que “é bom que seja um momento de debate”, porque é sinal de que “o partido está vivo”.“Há várias moções setoriais e isso vai ser muito interessante e eu gosto de debate, porque eu ando na política por causas”, frisa.Também André Moz Caldas, que preside à Assembleia Municipal de Lisboa, não sendo signatário da moção, até porque não “sobrevalorizaria nenhuma moção em concreto”, explica ao DN que o importante é “terem sido submetidas cerca de 50 moções setoriais ao Congresso, o que é um sinal de imensa vitalidade do PS”.O socialista que foi secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros no Executivo de António Costa também vai defender no Congresso que o partido deva afirmar-se como uma “alternativa da atual governação”, estabelecendo-a como “absolutamente necessária, não apenas porque é da natureza da democracia haver sempre alternativas, mas porque esta governação merece profundas críticas”.Apesar destes consensos, a confiança do eleitorado parece ser uma preocupação transversal, até porque, como explicou ao DN a vereadora socialista em Lisboa Alexandra Leitão, “o grande desafio” do partido, que terá ao leme José Luís Carneiro, “é que as pessoas voltem a acreditar que o PS é o partido mais capaz para resolver os seus problemas em áreas como os rendimentos, a habitação e a saúde”.Para além disto, lembra a antiga líder parlamentar aludindo a um conceito referido por todos os outros socialistas que falaram com o DN, o PS deve afirmar-se como “uma alternativa justa e progressista a uma governação cada vez mais colada à extrema-direita”. O grande desafio da social democracia hoje, em Portugal e no resto da Europa, é que não tem conseguido combater o discurso que pretende associar a social democracia ao radicalismo”, acrescenta, concluindo que o partido "tem de se focar em resolver os problemas das pessoas, em diálogo com a sociedade, com pragmatismo, mas mantendo-se fiel aos seus princípios”..Luís Parreirão: “Perturba-me esta vertigem de afirmar divergências a 48 horas do Congresso”.Grupo de militantes socialistas critica “prazos apertados” do congresso e “atual estagnação” do PS.João Azevedo: "O maior desafio é o PS ter uma narrativa que recolha novamente a confiança dos portugueses"