Na sexta-feira, no debate das rádios, André Ventura, apoiado pelo Chega, partido do qual é presidente, disse que os “candidatos da esquerda tinham chegado a um acordo, mas não queriam dizer”, lançando o tema que viria a explorar no sábado. Insistiu num pacto, embora recuando no tom de garantia, dizendo que “todos os sinais indicam que haverá desistências à esquerda, dada a muito baixa votação com que está António José Seguro.”Nesse sentido, o DN confrontou fontes influentes de PS, Livre, Bloco de Esquerda e PCP e todos negam que esteja a ser preparada qualquer novidade no boletim de voto para dia 18. A “cortina de fumo” - termo que diversas fontes usam na conversa com o DN - que o candidato do Chega lança “não tem fundamento”, uma vez que Livre, Bloco de Esquerda e PCP consideraram que não existiram negociações conjuntas para o aparecimento de um candidato único, ainda antes de avançarem para a candidatura, e que representam campos políticos diferentes. Como tal, Livre, Bloco de Esquerda e PCP querem levar as candidaturas até ao fim e não veem qualquer possibilidade Jorge Pinto, Catarina Martins ou António Filipe abdicarem da corrida. E se isso acontecer terá a ver com uma motivação do candidato, não uma ação concertada entre partidos.O DN está também em condições de afirmar que, pese embora o PS saiba que três candidaturas à sua esquerda terão impacto eleitoral, também acredita que o posicionamento ideológico de Seguro pode conquistar votos mais ao centro e nos sociais-democratas que não se revejam em Marques Mendes. O PS, como o DN noticiou, manteve-se praticamente à margem das Presidenciais até meio de dezembro. Só dois meses depois de garantir o apoio a António José Seguro é que José Luís Carneiro teceu rasgados elogios públicos ao antigo secretário-geral.Têm sido as federações socialistas as mais presentes no terreno, na gestão da campanha de Seguro, e apesar de já ter sido mencionado que é importante para o partido conquistar uma eleição presidencial - o que não acontece desde Jorge Sampaio - está claro para o PS que a estratégia não passa por tentar convencer outros partidos a abdicar por Seguro. Carneiro recusa esse cenário, de envolver outras figuras relevantes em negociações com Livre, Bloco de Esquerda ou PCP, porque, como o DN noticiou, está convicto de que a sobriedade de Seguro, que até mostrou em debates, poderá ser importante para uma larga fatia de eleitorado. Especialmente o que está fora dos maiores centros urbanos. A convicção é de que Seguro chega à segunda volta, até porque a dispersão também se vê à direita, onde Cotrim de Figueiredo conquista falanges que poderiam votar em Marques Mendes ou até em Ventura..“O meu apelo é dirigido a todos os eleitores, designadamente de esquerda e de centro-esquerda, porque há um facto incontornável, se os eleitores de esquerda querem ter alguém na segunda volta das eleições presidenciais, então têm de concentrar os votos na candidatura que está em condições de passar à segunda volta”, disse Seguro a 30 de dezembro, assumindo o voto útil. Só que ao contrário de outras eleições presidenciais, em que o próprio PS definiu o candidato, considerando estratégica a possível aliança à esquerda, desta feita o partido viu-se a braços com uma candidatura de um antigo secretário-geral. Essa incursão individual impediu que outras possibilidades emergissem no PS - mas até fora do partido, como Sampaio da Nóvoa, que era um dos que aglomerava simpatia no Livre. Por isso, o Livre acabou por ser a última força política de esquerda a apoiar um candidato, vendo com bons olhos a afirmação de Jorge Pinto. “Se Seguro tem vergonha de ser de esquerda, ou se acha que ser de esquerda é ser colocado numa gaveta, o problema é dele”, criticava a 7 de novembro, à Lusa, admitindo que só era possível uma “convergência” se existissem aproximações no discurso de Seguro à esquerda e se Catarina Martins e António Filipe considerassem a mesma equação. No entanto, o crescimento do próprio deputado, natural de Amarante, ao longo da campanha fá-lo a ele e ao partido acreditarem num bom resultado. Neste caso, teriam de existir conversas à propria esquerda para abdicar em prol de Seguro, mas nem isso, sabe o DN, tem acontecido. Seguro coloca sempre o “centro-esquerda” no discurso, o que também não aglomera. Ideologicamente, o Livre poderia ser o partido mais disponível para um acordo, mas isso não se torna plausível, até porque os próprios co-líderes, Isabel Mendes Lopes e Rui Tavares, se insurgiram com esse argumento socialista..Catarina Martins colocou-se imediatamente à margem desse cenário de reeditar uma geringonça, mas em Presidenciais. Isto porque lembrou o passado. “Representamos politicamente campos diferentes. Durante a troika, António José Seguro era secretário-geral do Partido Socialista e viabilizou orçamentos que eram contra a Constituição”, afirmou ao DN a 2 de dezembro. Esta segunda-feira disse que “Marques Mendes, Seguro, Ventura e Cotrim são herdeiros de Passos Coelho”. O Bloco não encontra justificação ideológica para apoiar Seguro e joga também a afirmação política, principalmente nos centros urbanos, acreditando que pode recuperar eleitores. .O comunista António Filipe foi dos primeiros a apresentar corrida e antecipou-se a Livre e Bloco. Sem ter feito qualquer coligação autárquica com outra força política, o PCP não vê pontes de entendimento. E o perfil de Seguro demove. “Se se quer que haja uma convergência a uma candidatura à esquerda, creio que essa convergência deveria ser feita em torno da minha candidatura. Sou amigo há muitos anos de Seguro, mas não considero que tenha um posicionamento de esquerda”, afirmou a 17 de outubro António Filipe. Num cenário de segunda volta, é incerto se declararão intenção de preferência em Seguro, caso este passe, mas abdicar está, para os três, fora de hipótese.."O meu apelo aos eleitores de centro-esquerda é que se querem ter alguém na segunda volta das presidenciais têm de concentrar os votos na candidatura que está em condições de passar."António José Seguro, candidato apoiado pelo PS."Se se quer uma convergência à esquerda, deveria ser torno da minha candidatura. Seguro não tem um posicionamento de esquerda.”António Filipe, candidato apoiado pelo PCP."Representamos campos politicamente diferentes. Na troika, Seguro viabilizou orçamentos que eram contra a Constituição."Catarina Martins, candidata apoiada pelo BE.."Se Seguro tem vergonha de ser de esquerda, ou se acha que ser de esquerda é ser colocado numa gaveta, o problema é dele.”Jorge Pinto, candidato apoiado pelo Livre.António José Seguro pressiona Jorge Pinto com voto útil para "não pôr os ovos todos no mesmo cesto".Presidenciais. Revisão constitucional aproxima Ventura e Cotrim, para Mendes não é prioridade. Esquerda contra.Presidenciais: Catarina Martins diz que Mendes, Seguro, Ventura e Cotrim são “herdeiros de Passos Coelho”