A eleição de António José Seguro terminou com 20 anos seguidos de presença do PSD em Belém. Ainda assim, o aproveitamento do PS tenderá a ser mínimo. Isso justifica que o secretário-geral e presidente do partido tenham andado distanciados da maioria dos eventos públicos e que respeitassem que Seguro quisesse alargar a sua base eleitoral, referindo-se como “sem amarras.” Por isso mesmo, José Luís Carneiro foi às Caldas da Rainha cumprimentar Seguro, mas não ficou para o discurso. Para não se apropriar de uma vitória que é de Seguro e que tem o condão de animar as hostes tendo em conta os impactantes resultados de maio de 2025, com as piores Legislativas da história do PS.Fontes socialistas confirmam que José Luís Carneiro mantém um discurso interno que corrobora a importância da “estabilidade governativa”, termo que Seguro usou e repetiu durante a campanha, criticando os “ciclos curtos” da vida política portuguesa nos últimos anos. Como tal, na Comissão Política que reúne nesta terça-feira à noite é ressalvada a independência política de António José Seguro: em primeira mão por ser o Presidente da República o alto cargo da nação, em segundo porque o PS sabe que as metas de Seguro não se afastam das que o PS tem. Nomeadamente, na Saúde e Justiça, sem revoluções estruturais nas Leis de Bases, e até na questão da dissolução do Parlamento. O PS não entende que um voto contra no Orçamento do Estado tenha de significar o fim do Governo. Seguro pensa de forma semelhante, apesar de apelar a consensos para que tal não se verifique. Portanto, o PS não espera que venha de Belém a oposição ao Governo. Ao que foi possível apurar pelo DN, acredita, sim, que em certos casos, tal como acontecera com Marcelo Rebelo de Sousa, haja uma tentativa de sensibilizar o Executivo para algumas propostas concretas. À cabeça a Lei da Nacionalidade, devolvida ao Parlamento após veto na sequência de decisão constitucional, mas, naturalmente, a Lei Laboral como destaque, uma vez que Seguro garantiu que esta não passaria da forma como está. Mencionando repetidamente a expressão “pacto”, o novo Presidente da República quererá conciliações entre partidos para “políticas duradouras”. A liderança de José Luís Carneiro tem afirmado, vezes sem conta, a “disponibilidade para negociar” com o Governo. Na leitura dos resultados eleitorais, considerando a alta rejeição de André Ventura, Carneiro acredita que Seguro seja uma ponte para convencer Montenegro de que acordos mais ao centro são possíveis. “O PS espera que o Governo compreenda esta mensagem de estabilidade e que tenha em consideração que dois terços dos portugueses se mostraram a favor dos valores constitucionais”, perspetivou Carneiro no domingo.Esquerda tem garantias na Constituição e Lei Laboral, sem falar em balão de oxigénioO DN conversou com fontes dos partidos à esquerda para aferir até que ponto o resultado eleitoral de Seguro ajuda a reerguer esse quadrante político. Pedro Mendonça, ex-cabeça de lista do Livre por Santarém, entende que “dois terços da população rejeitam mudanças drásticas e acreditam que o Presidente da República garantirá a Constituição”, assinalando que “foi a candidatura de Jorge Pinto que colocou o tema sob holofotes”, comprometendo-se, portanto, em não permitir uma revisão à direita. Afirmam-nos que, tal como o PAN acredita, Seguro pode estar sensível para um projeto ambiental e de “reação a catástrofes e com foco na resiliência energética”. Não há expetativa de que o discurso e que a condução do país seja à maneira da esquerda.O PCP reuniu esta terça-feira o Comité Central e assinalou “a expressiva derrota e rejeição de André Ventura” e vincou que “a António José Seguro impõe-se que cumpra o juramento que fará de defender a Constituição e não ser suporte de uma política que a afronta”, mencionando a necessidade de defender os “serviços públicos” e “combater o pacote laboral.”Ao DN, José Manuel Pureza lembra que existem “grandes expetativas sobre Seguro: lei laboral e Constituição as principais.” O coordenador do Bloco de Esquerda viu um “discurso mais assertivo na recusa de uma revisão constitucional à direita do que a falar da lei laboral” e reiterou que “ou toma posições firmes ou defraudará muitas das pessoas que nele votaram.” Rejeita galvanizar-se com a vitória do socialista. “O que reergue a esquerda é o acerto dos discursos e das políticas das campanhas de esquerda, como foi exemplo a de Catarina Martins. Marcaram o debate com o relevo da Constituição, do SNS, do pacote laboral. Da nossa parte, vamos tentar ajudar a que o movimento social faça pressão para que o Presidente não possa ter outras posições”, afirmou. .Manter distância para AD é trunfo tanto para Seguro como para o PS.Dos pactos de regime à gestão do equilíbrio parlamentar. Seguro entra em Belém já com caderno de encargos .Quem são os conselheiros de Seguro: Saúde e diplomacia em destaque