O ministro da Administração Interna, Luís Neves, arrancou a sua audição parlamentar, na Comissão de Assuntos Constitucionais, com a admissão, feita pelo líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, de que o primeiro-ministro "acertou na escolha", depois de as suas antecessoras Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral não terem sido "de boa memória". Mas nem por isso deixou de agradar mais aos deputados de esquerda, tanto ao dizer que "não é como o camaleão", e continua a afastar ligações diretas entre crime e imigração, como ao mostrar-se "absolutamente inflexível" com abusos cometidos pelas forças de segurança.Depois de ouvir Isabel Moreira perguntar se a sua nomeação "pode contribuir para uma descolagem do Governo em relação à extrema-direita", sendo elogiado pela deputada socialista por se mostrar "alheio às ondas do tempo, inflamados por discursos simplistas, contra imigrantes e alarmistas, sobre a criminalidade", Luís Neves assegurou que os seus princípios "manter-se-ão imutáveis". Nomeadamente no que toca ao "respeito pela diversidade" e na crença de que se torna necessário "um esforço para que todos tenham um papel", sendo obrigação do Estado regularizar os imigrantes."Os imigrantes são absolutamente necessários. Não só do ponto de vista humanitário como vitais para a nossa economia", prosseguiu o terceiro titular do Ministério da Administração Interna nos executivos de Luís Montenegro, que fizera intervenções no mesmo sentido enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária.Mais tarde, ao responder às perguntas do deputado do Livre Paulo Muacho, centradas em casos de abusos perpetrados por elementos das forças de segurança, Luís Neves reiterou que será "absolutamente inflexível com quaisquer desvios". E fez questão de marcar as diferenças em relação a antecessores. "Já assinei inúmeros despachos de expulsão de membros das forças de segurança", garantiu, realçando que alguns desses casos se arrastavam "há muitos anos".Nas respostas ao Chega, Neves tivera maiores dificuldades em satisfazer a curiosidade de Pedro Pinto. O líder parlamentar do principal partido da oposição, que começara por lhe perguntar "quando é que vai passar da propaganda aos atos", quis saber "que passe mágico" o ministro irá utilizar para os militares integrarem a Brigada de Trânsito, antecipando a possibilidade de ir buscar operacionais aos "postos territoriais já muito desfalcados".Também foi recordado pelo líder parlamentar do Chega que, nas anteriores funções, Luís Neves "defendeu, e bem, a revisão das condições salariais para outras polícias". Perguntando-lhe se, "agora que está no lugar certo para fazer aquilo que dizia", irá equiparar o suplemento de missão da PSP e da GNR ao da PJ, Pedro Pinto ouviu o governante garantir que "naturalmente" lutará para melhorar as condições de todas as forças de segurança.Numa resposta ao social-democrata António Rodrigues, Neves recordou que "disse e mantenho que não existe relação entre imigração e criminalidade", embora tenha defendido dados sobre nacionalidade no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), "para termos melhores dados". Mas também voltou a salientar que existe uma diferença entre ser estrangeiro e ser imigrante, pois entre os que se encontram nas cadeias portuguesas destacam-se as "mulas de droga".Uma pergunta de Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, permitiu ao ministro da Administração Interna marcar diferenças em relação à antecessora, Maria Lúcia Amaral, que mencionara uma cultura de violência entre os elementos mais jovens das forças de segurança. "Não subscrevo essa afirmação e eu sou quem aqui mais conhece as forças policiais", disse Luís Neves, destacando o "trabalho titânico" feito no recrutamento, com a "despistagem daqueles que estão à margem da lei e não respeitam os outros seres humanos", na formação inicial e contínua e na "fiscalização intensa" a cargo das hierarquias.Também levantada por Rui Rocha foi a questão das "esquadras chinesas" que existirão em Portugal, dirigidas contra a comunidade imigrante oriunda desse país. Ressalvando que não pode falar abertamente de questões de investigação criminal, Luís Neves disse que, "havendo um só caso, seria preocupante".Quanto às dúvidas da deputada comunista Paula Santos quanto às consequências da cedência de 180 agentes da PSP para as polícias municipais de Lisboa e do Porto, o ministro disse que já falou com os autarcas Carlos Moedas e Pedro Duarte. E acrescentou esperar que, "num futuro muito próximo", as duas câmaras municipais possam fazer o seu próprio recrutamento..Luís Neves antecipa que vá haver mais entradas do que saídas na PSP