De acordo com Luís Montenegro, proposta de eliminação do visto prévio em contratos públicos abaixo dos 10 milhões de euros “visa sobretudo acabar com o medo dos autarcas em decidir”
De acordo com Luís Montenegro, proposta de eliminação do visto prévio em contratos públicos abaixo dos 10 milhões de euros “visa sobretudo acabar com o medo dos autarcas em decidir” MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Fim do visto prévio: autarcas apoiam mudança e recusam perigo de descontrolo

Autarcas ouvidos pelo DN convergem na leitura de que a proposta do Governo para acabar com o visto prévio do Tribunal de Contas nos contratos públicos até 10 milhões de euros responde a um problema antigo de lentidão e bloqueio administrativo, sem significar, defendem, um enfraquecimento da fiscalização. As posições surgem em contraste com os alertas da presidente do TdC, Filipa Urbano Galvão, que vê na medida riscos para as finanças públicas.
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A proposta do Governo para eliminar o visto prévio do Tribunal de Contas nos contratos públicos até 10 milhões de euros abriu uma clivagem entre o executivo e a presidente do TdC, Filipa Urbano Galvão. Enquanto Luís Montenegro apresenta a medida como parte de uma reforma do Estado orientada para a simplificação administrativa e “visa sobretudo acabar com o medo dos autarcas em decidir”, a responsável pelo Tribunal de Contas alerta para os riscos de um enfraquecimento do controlo preventivo sobre a despesa pública. Para a presidente do TdC, a mudança pode fragilizar a proteção das finanças públicas, desvalorizar a prudência dos gestores e afetar a credibilidade externa do Estado, incluindo junto das instituições europeias e dos mercados financeiros, caso não seja acompanhada por mecanismos internos de controlo mais robustos.

Porém, onde a presidente do Tribunal de Contas encontra fragilidades, os autarcas ouvidos pelo DN veem uma oportunidade para desbloquear investimento.

Nas câmaras do Porto, Matosinhos e Évora prevalece a ideia de que a proposta responde a um problema antigo de lentidão e bloqueio na contratação pública, sem que isso implique abdicar da fiscalização. A vice-presidente de Pedro Duarte, Catarina Araújo, enquadra a iniciativa num plano mais vasto de reforma institucional e sustenta que “não está em causa a sua importância, mas os efeitos reais do seu modelo”. Para a autarca do CDS-PP, o atual sistema de fiscalização prévia acabou por produzir um efeito de travagem sobre a decisão pública. “Não está em causa eliminar um controlo, mas uma forma de o tornar, até diria, mais inteligente, mais eficaz”, afirma. E reforça: “O controlo a priori, para já, não significa maior controlo. É muitas vezes mais atraso.”

Catarina Araújo considera ainda que o problema não está apenas na demora dos processos, mas também no alcance que o Tribunal de Contas passou a ter sobre decisões administrativas e políticas. “ A minha experiência diz-me que o principal problema nem sequer é o tempo do controlo prévio, mas sim a tendência que o Tribunal de Contas tem para extravasar a legalidade, entrar no mérito das decisões”, afirma a autarca que transitou do executivo de Rui Moreira. Na sua leitura, isso gera uma administração defensiva, em que decidir “é quase um ato de coragem” e em que os responsáveis se refugiam em “pareceres e informações sucessivas”. Daí a conclusão: “O controlo prévio, se deixa de ser garantia e passa a ser um bloqueio, para mim não é solução, é problema.” E vai mais longe, defendendo uma revisão mais ampla do Código dos Contratos Públicos, com menos excesso legislativo, regras mais claras e melhor proteção para “quem decide bem”, sem desresponsabilizar “quem decide mal”.

Também Luísa Salgueiro, presidente da Câmara de Matosinhos e ex-presidente da Associação Nacional de Municípios, sublinha que esta é uma alteração há muito reclamada pelo poder local. “Sempre defendi, enquanto presidente da Associação Nacional de Municípios, que essa regra devia ser alterada”, afirma. Considera desajustado o atual limiar de sujeição a visto prévio e é taxativa: “Nós neste momento somos obrigados a sujeitar a visto prévio todas as empreitadas cujo valor seja superior a 750.000 euros. Não faz sentido”. Para a autarca socialista, a experiência da habitação no PRR mostrou que a dispensa de visto prévio pode coexistir com controlo e responsabilização. “Tudo o que foi PRR para a habitação foi dispensado do visto prévio”, recorda, acrescentando que esses processos “correram bem mais céleres”.

Salgueiro insiste que a medida não representa “ausência de fiscalização”, avisa. “O Tribunal de Contas continua a fiscalizar no decurso da empreitada” e, além disso, “mesmo depois de acabar o contrato, pode, a qualquer momento, fiscalizar o processo”. A mudança vai “permitir que a fiscalização se faça sem que os processos tenham de ficar suspensos”, diz para concluir: “ É um país a andar.”

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Num tom mais cauteloso, mas igualmente favorável à mudança, Carlos Zorrinho, presidente da Câmara de Évora, diz que a proposta vai “no bom caminho”, desde que seja “muito bem regulamentada” e não deixe a perceção de “facilitismo” nem de uma “linha direta para haver menos controlo sobre as contas”. O antigo líder parlamentar do PS e ex-eurodeputado sublinha que “o Tribunal de Contas controla as contas e as contas devem ser controladas”, mas considera que “a complexidade, a burocratização, a duplicação de procedimentos” são “inimigas da transparência”. Na sua perspetiva, o que está em causa é trocar “um passo burocrático” por “um sistema na mesma robusto, transparente, mas que permite que a contratação pública seja mais rápida”.

Para Zorrinho a discussão deve ser colocada menos no plano da urgência casuística e mais no da reforma estrutural. “Mais do que agilizar cada situação, é criar regras que sejam ágeis”, afirma. E resume a sua posição com uma fórmula que procura afastar qualquer ideia de desregulação: “Eu não quero facilitar. Defendo, sim, um modelo de contratação pública inteligente e ágil”, porque “com isso ganham todos”.

No conjunto, as declarações dos autarcas prestadas convergem num ponto essencial: a proposta do Governo pode e deve ser discutida à luz do equilíbrio entre controlo e eficácia, mas não é vista no terreno como um desarmamento da fiscalização. A divergência com a presidente do Tribunal de Contas mantém-se, porém, no núcleo da questão. Para Filipa Urbano Galvão, a perda de controlo prévio pode traduzir-se em menor prudência, maior vulnerabilidade financeira e desgaste da credibilidade do Estado. Para os autarcas, o risco maior está no modelo atual: excesso de burocracia, tempos mortos, travagem do investimento e uma administração que, por medo de decidir, acaba muitas vezes por não responder a tempo.

Contactada pelo DN, a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), atualmente liderada pelo social-democrata Pedro Pimpão, autarca de Pombal, disse não conhecer ainda a proposta concreta do Governo sobre esta matéria. “Logo que conheçamos a proposta concreta, tomaremos posição”, afirmou a associação.

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