Ferro Rodrigues critica aproximação do PSD ao Chega e alerta para riscos para a democracia
O antigo presidente da Assembleia da República Eduardo Ferro Rodrigues considera que a aproximação do PSD ao Chega representa um risco para a democracia portuguesa e para o próprio partido de Luís Montenegro.
Em entrevista ao jornal PÚBLICO, publicada esta terça-feira, 13 de outubro, o histórico socialista faz um balanço "muito negativo" da governação e alerta para as consequências de eventuais acordos estruturais entre a direita e a extrema-direita.
"Há uma mão estendida do PSD à extrema-direita, e isso é um risco, para a democracia e para o PSD, de ficar mesmo sem mão", afirma Ferro Rodrigues, que considera errada a ideia de equidistância entre o PS e o Chega.
Apesar das críticas, ele defende que os socialistas devem corresponder a sinais de abertura dos sociais-democratas, sobretudo em matérias estruturantes, como uma eventual revisão constitucional. Na entrevista, Ferro Rodrigues manifesta concordância com a decisão de José Luís Carneiro de viabilizar o Orçamento do Estado para 2027.
O antigo secretário-geral do PS considera que a posição permite afastar a extrema-direita das negociações e elogia a liderança de Carneiro, que, nas suas palavras, tem conseguido reconstruir a "ligação afetiva do PS com o país". Afasta, contudo, a possibilidade de um bloco central formal nas atuais circunstâncias políticas.
O antigo presidente do Parlamento deixa também críticas a António José Seguro, apesar de fazer uma avaliação globalmente positiva da sua Presidência.
Ferro Rodrigues lamenta que o chefe de Estado não tenha enviado para fiscalização do Tribunal Constitucional as alterações ao Código de Processo Penal, que considera graves por reforçarem os poderes das magistraturas e prejudicarem o exercício dos direitos de defesa. "Lamento muito que não o tenha feito", afirma.
José Pedro Aguiar-Branco é outro dos alvos das críticas do socialista, que acusa o atual presidente da Assembleia da República de ter demonstrado uma atitude de "grande tolerância" perante a extrema-direita.
Ferro Rodrigues recorda um episódio em que considera ter sido caluniado por um deputado em plenário e contesta a resposta de Aguiar-Branco, que invocou a liberdade de expressão. "A liberdade de expressão não é a liberdade de calúnia", sublinha, responsabilizando o presidente do Parlamento por contribuir para a normalização da extrema-direita.
Quanto à situação económica, Ferro Rodrigues considera insuficientes as medidas do Governo para responder à inflação e à perda de poder de compra das famílias. Defende uma intervenção mais forte do Estado, mesmo que implique um aumento conjuntural do défice, e admite o regresso temporário do IVA zero sobre produtos alimentares, desde que exista enquadramento europeu.

